por Revda. Carmen Kawano
Espaço dedicado às publicações científicas dos seminaristas e professores do Centro Anglicano de Estudos Teológicos de Santos - MOVIMENTO ANGLICANO NO BRASIL contato: (55 13) 32374327 / e-mail: igrejaanglicanadesantos@gmail.com
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quarta-feira, 3 de agosto de 2011
sexta-feira, 20 de maio de 2011
SACRAMENTO: O AMOR MANISFESTO DE DEUS
POR ITABIRA JONAS
SUMÁRIO
Resumo 4
Sinais e Símbolos 5
Espiritualidade cristã celta: Tudo é Sacramento 8
Bibliografia 11
RESUMO
Este trabalho é uma reflexão sobre a plenitude do amor de Deus para com a humanidade manifestado na criação e prática espiritual dos cristãos Celtas.
Desde o principio Deus tem demonstrado fidelidade para com o seu povo e, na plenitude dos tempos a confirmou e manifestou com a encarnação do Verbo.
Diz a Bíblia: “Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3: 16). Jesus é, portanto, a mais completa manifestação do amor de Deus. Nele está contida toda essência de Deus. Ele é sinal concreto e visível do Deus invisível. Cristo, encarnado no seio de Maria é imagem real do transcendente, que vive e se revela na criação. O prefácio da Oração Eucarística Rito II, do Livro de Oração Comum, reza:
“Damos-te graças, ó bendito Deus, que nos mostrastes bondade e amor na Criação, na chamada de Israel para ser teu povo, na Palavra que disseste por meio dos profetas, e, acima de tudo no Verbo feito carne, teu Filho, Jesus. (LOC. p 76)
Cristo é o canal de graça e por ele o cristão alcança Deus e com Ele faz comunhão. No exercício do seu ministério Jesus realiza a graça de Deus, contida nos sacramentos.
A Igreja Anglicana é sacramental, ela proclama a fé nos sacramentos instituídos por Cristo e celebra a obra que deles emana. A Igreja como sacramento de Cristo é comunidade dos cristãos e depositária da Boa Nova.
Ao proclamar o Evangelho, a Igreja revela o amor de Deus pela humanidade.
I - SINAIS E SÍMBOLOS
O homem é ser em comunicação. Ele está em constante comunicação consigo mesmo para se construir, em comunicação com os outros para se relacionar e trocar conhecimento, e com Deus para reverenciá-lo e adorá-lo. A comunicação é vital para os seres humanos e a criação comunica a obra de Deus.
Há um clichê tão velho quanto o primeiro aprendiz de sociólogo: o homem é um animal social. Entre outras coisas, isso significa reconhecimento implícito de sua necessidade de comunicação, que é o meio como ele transmite suas mensagens. (TÈCNICA DE JORNAL E PERIODICO, P. 11)
Ciente da necessidade de relacionar-se o homem buscou comunicar-se, aprendendo a ler os sinais e criando símbolos que expressassem idéias e sentimentos para manifestar necessidades físicas, intelectuais e emocionais.
Quanto aos sinais e símbolos como instrumentos de comunicação, há de se levar em consideração a distinção que existe entre eles. Os símbolos são sinais produzidos pelo homem para facilitar a comunicação e conseqüentemente a vida.
É impreciso o momento em que o ser humano começou a criar mecanismos de comunicação e utilizar uma simbologia carregada de significação para interagir com seus semelhantes. É possível que o homem pré-histórico tenha iniciado o processo de comunicação dando respostas instintivas a partir de ruídos vocais (imitando sons da natureza) e movimentos corpóreos, que serviam de emissão de mensagens simples (exteriorizando frio, medo, fome ou alegria. (AS TEORIAS DA COMUNICAÇÃO, P. 16)
Quanto à simbologia da comunicação, tomemos como exemplos, os sinais de trânsito, as letras do alfabeto, as notas musicais, os cumprimentos, as bandeiras, os escudos e todos os símbolos que apontam para uma comunicação convencional.
Todo símbolo é carregado de significado. Os símbolos representativos, produzidos pelo homem, são mensagens criadas a partir de convenções, para suprir uma necessidade de comunicação.
Ademais dos símbolos criados pelo homem, existem sinais naturais, são indicadores da natureza que nos comunicam mensagens, que favorecem a compreensão da vida, num determinado momento. Por exemplo: uma nuvem negra e carregada é sinal iminente de chuva; fumaça, sinal de fogo; marcas de pés, sinal da presença de alguém.
Se o homem carece de sinais e símbolos para se comunicar uma realidade imanente, muito mais necessitará para comunicar uma experiência transcendente. Portanto, os sinais e os símbolos são fundamentais para a facilitação e favorecimento comunicativo da vida como obra perfeita e suficiente de Deus. Através dos símbolos e dos sinais, Deus se comunica com seu povo e este com o seu criador.
Ao se comunicar através dos sacramentos Deus se revela ao seu povo, se faz íntimo e se torna como um de nós. (Jo 1: 1-14). Envolta no mistério, na encarnação do verbo está a revelação do amor de Deus pela humanidade.
Toda vez que uma realidade do mundo, sem deixar o mundo, evoca uma outra realidade diferente dela, ela assume uma função sacramental. Deixa de ser coisa para ser sinal ou um símbolo. Todo sinal é sinal de alguma coisa ou de algum valor para alguém. Como coisa pode ser absolutamente irrelevante. Como sinal pode ganhar valorização inestimável e preciosa. (...) (OS SACRAMENTOS DA VIDA E A VIDA DOS SACRAMENTOS P. 23)
Os sacramentos são como “fotografias”, uma vez que revelam através da imagem uma realidade interior e maior do que aquela refletida. Nesse sentido a matéria estática elucida uma vida eternizada pela impressão, é marca. Nos sacramentos os sinais e símbolos, por sua vez imprimem através de gestos, matéria e intenção a interioridade da vida graciosa que está em Deus.
Nessa dimensão, segundo Leonardo Boff, tudo é sacramento, porque tudo comunica, interage e revela o homem “fotograficamente”. Tudo é corpo e alma. Toda matéria transcende a si mesma, revelando sua vocação para o alto.
Tudo revela o homem, suas experiências bem ou mal sucedidas, enfim, o encontro dele com a multiplicidade das manifestações do mundo. Nesse encontro o homem não aborda o mundo de forma neutra. Ele julga. Descobre valores, interpreta. Abre ou se fecha às evocações que lhe advém. O convívio com o mundo faz com que ele crie sua morada. (OS SACRAMENTOS DA VIDA E A VIDA DOS SACRAMENTOS P. 23)
Como refletido até aqui, se os sinais e símbolos são necessários para a comunicação entre os homens, e destes com o mundo, uma vez que o homem é um animal social, interdependente, muito mais eles serão na comunicação com o transcendente, com Deus. Os sinais e os símbolos são fundamentais porque facilitam a comunicação da vida que está em Deus e a graça que ele quer dar.
Mesmo supondo que o mundo seja feito de alguma matéria informe, essa matéria foi tirada totalmente do nada. Pois, mesmo o que ainda não está formado: sem dúvida alguma, de algum modo já tem iniciada a sua formação. Ser susceptível de forma (capacitas formae) é benefício do seu Autor, e possuí-la é bem. A simples capacidade de forma é pois, certo bem. Por conseguinte, o autor de todas as formas – que é doador de toda forma – também o fundamento da possibilidade de algo a ser formado. E assim, tudo o que é, enquanto é, tudo o que não é, enquanto pode vir a ser, tem de Deus, sua forma ou possibilidade a ser formado.
Dito de outro modo: Todo ser formado, enquanto formado, e todo o que ainda não está formado, enquanto formável, encontra em Deus seu fundamento. (A VERDADEIRA RELIGIÃO P. 68)
A criação é em seu todo sinal da vida que está em Deus. Como na representação de um quadro que está implícita a vida do artista que o criou: ver o quadro é ver o artista. A obra da criação revela a vida que está em Deus e é refletida na vida dos homens. Portanto, toda a criação foi, é e será sacramental.
II - ESPIRITUALIDADE CRISTÃ CELTA: TUDO É SACRAMENTO
Tudo o que sabemos a respeito de Deus, nos foi revelado pela Encarnação do Verbo. A face plena de Deus está em Jesus, como sacramento, sinal real e íntegro daquilo que Deus é. Jesus não é em parte Deus, nem em parte homem. Jesus é plenamente homem e plenamente Deus. Jesus é protótipo de toda a criação e explicitamente do homem. É por ele que Deus tudo criou, assim como aos seres humanos. Jesus estava presente no momento da concepção da “raça humana”, conforme atestam as sagradas escrituras: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. (GN 1: 26a)
O texto do livro do Gênesis escrito em primeira pessoa do plural (façamos) é revelador da natureza de Deus. É dessa natureza vocacional e final que o homem é criado. Deus é em si por si mesmo uma comunidade perfeita de onde emana a Trindade Santa: o Deus criador, o Deus redentor e o Deus santificador.
Na plenitude da criação e da humanidade está Jesus Cristo que soube acolher, enquanto homem, a dignidade plena de Filho de Deus. Nele a imagem de Deus é fiel e translúcida. Todo bem que nasce do exercício da adoração e do louvor, em Cristo ele se realiza. A igreja Anglicana que têm raízes na experiência espiritual celta entende e vive a espiritualidade cristã inclusiva a partir da adoração e louvor a Deus presente na natureza:
O cristianismo conhecido como “celta” floresceu na Irlanda, na Escócia, no País de Gales e mesmo em partes da Inglaterra, grosso modo, do quarto ao décimo séculos. São conhecidos os nomes de missionários celtas como Patrício, Columba e Columbano, que evangelizaram o norte das Ilhas Britânicas e vastas partes do continente europeu. Mas o cristianismo celta floresceu, humanamente falando, não apenas devido ao trabalho dos missionários mais conhecidos, mas também devido ao esforço de incontáveis anônimos, pessoas sinceras em sua fé, que viviam o cristianismo com “alegria e singeleza de coração”. Foi um cristianismo que desenvolveu características próprias, que o tornavam distinto do cristianismo de inspiração romana que florescia na Europa continental no mesmo período. O cristianismo celta tinha muitas características notáveis. Entre tantas, destaca-se aqui apenas a que interessa diretamente aos propósitos desta breve reflexão: um modelo de espiritualidade centrado na criação.
Os celtas desenvolveram uma teologia que enfatizava uma visão de Deus como Senhor da criação. Ainda que não haja nada de original nesta perspectiva — os cristãos celtas não foram os inventores desta teologia —, não se pode deixar de mencionar que há diversas implicações práticas dessa visão. Uma dessas conseqüências é exatamente ter uma atitude constante de júbilo e regozijo na criação, que revela Deus. Como os celtas eram um povo com forte inclinação à poesia, produziram muitas poesias comoventes, louvando a Deus pela obra da criação. Um poema datado do século nono, escrito na antiga língua do País de Gales, tem início com as seguintes palavras:
Todo Poderoso Criador, que fizeste todas as coisas;
O mundo não pode expressar toda a tua glória,
Ainda que a grama e as árvores possam cantar.
Outro poema escrito no século oitavo, na antiga língua irlandesa, declara:
Somente um tolo não seria capaz de louvar a Deus pelo seu poder,
Quando as pequeninas aves incapazes de pensar
O louvam com seu vôo.
Estes versos expressam o lugar de destaque que a natureza ocupava na maneira como os cristãos celtas antigos viam a vida e pensavam sua relação com Deus. A visão da criação como reveladora de Deus está profundamente enraizada na Bíblia. Os fragmentos poéticos citados revelam influência de textos bíblicos como Salmos 98.7-8 ou Isaías 55.12. De fato, muito da poesia e das orações daqueles cristãos denotam influência da visão bíblica a respeito da natureza. Textos como o de Salmos eram particularmente queridos pelos cristãos celtas. Para eles, o mundo criado é uma teofania, isto é, uma manifestação de Deus. (Fonte: http://elteque.multiply.com/journal/item/13)
Em Jesus, Deus revela sua imagem e semelhança. Através de Jesus temos todo o conhecimento e desejo de Deus. Desejamos a Deus a quem não vemos e o glorificamos e adoramos em sua obra.
Jesus é a obra prima de Deus e o ponto de convergência entre o humano-criação e o divino-criador. Nele habita a criatura que trabalha e busca Deus, fonte da vida e o Criador que busca o homem para redimi-lo.
Jesus é sacramento de Deus, porque ele realiza todo o projeto metafísico do Pai. Jesus, sacramento de Deus, proclama a dimensão ética do homem. Em Jesus Cristo, Deus manifesta seu amor.
BIBLIOGRAFIA
Agostinho, Santo. A Verdadeira Religião. São Paulo: Paulinas: 1987
Amaral, Luiz. Técnica de Jornal e Periódico. Rio de Janeiro. Tempo Brasileiro: 2001
Bíblia Sagrada
Boff, Leonardo. Os Sacramentos da Vida e a Vida dos Sacramentos. Editora Vozes: 2009
LOC. Livro de Oração Comum
Santos, Roberto Elísio dos. As Teorias da Comunicação. São Paulo. Paulinas: 2003
SUMÁRIO
Resumo 4
Sinais e Símbolos 5
Espiritualidade cristã celta: Tudo é Sacramento 8
Bibliografia 11
RESUMO
Este trabalho é uma reflexão sobre a plenitude do amor de Deus para com a humanidade manifestado na criação e prática espiritual dos cristãos Celtas.
Desde o principio Deus tem demonstrado fidelidade para com o seu povo e, na plenitude dos tempos a confirmou e manifestou com a encarnação do Verbo.
Diz a Bíblia: “Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3: 16). Jesus é, portanto, a mais completa manifestação do amor de Deus. Nele está contida toda essência de Deus. Ele é sinal concreto e visível do Deus invisível. Cristo, encarnado no seio de Maria é imagem real do transcendente, que vive e se revela na criação. O prefácio da Oração Eucarística Rito II, do Livro de Oração Comum, reza:
“Damos-te graças, ó bendito Deus, que nos mostrastes bondade e amor na Criação, na chamada de Israel para ser teu povo, na Palavra que disseste por meio dos profetas, e, acima de tudo no Verbo feito carne, teu Filho, Jesus. (LOC. p 76)
Cristo é o canal de graça e por ele o cristão alcança Deus e com Ele faz comunhão. No exercício do seu ministério Jesus realiza a graça de Deus, contida nos sacramentos.
A Igreja Anglicana é sacramental, ela proclama a fé nos sacramentos instituídos por Cristo e celebra a obra que deles emana. A Igreja como sacramento de Cristo é comunidade dos cristãos e depositária da Boa Nova.
Ao proclamar o Evangelho, a Igreja revela o amor de Deus pela humanidade.
I - SINAIS E SÍMBOLOS
O homem é ser em comunicação. Ele está em constante comunicação consigo mesmo para se construir, em comunicação com os outros para se relacionar e trocar conhecimento, e com Deus para reverenciá-lo e adorá-lo. A comunicação é vital para os seres humanos e a criação comunica a obra de Deus.
Há um clichê tão velho quanto o primeiro aprendiz de sociólogo: o homem é um animal social. Entre outras coisas, isso significa reconhecimento implícito de sua necessidade de comunicação, que é o meio como ele transmite suas mensagens. (TÈCNICA DE JORNAL E PERIODICO, P. 11)
Ciente da necessidade de relacionar-se o homem buscou comunicar-se, aprendendo a ler os sinais e criando símbolos que expressassem idéias e sentimentos para manifestar necessidades físicas, intelectuais e emocionais.
Quanto aos sinais e símbolos como instrumentos de comunicação, há de se levar em consideração a distinção que existe entre eles. Os símbolos são sinais produzidos pelo homem para facilitar a comunicação e conseqüentemente a vida.
É impreciso o momento em que o ser humano começou a criar mecanismos de comunicação e utilizar uma simbologia carregada de significação para interagir com seus semelhantes. É possível que o homem pré-histórico tenha iniciado o processo de comunicação dando respostas instintivas a partir de ruídos vocais (imitando sons da natureza) e movimentos corpóreos, que serviam de emissão de mensagens simples (exteriorizando frio, medo, fome ou alegria. (AS TEORIAS DA COMUNICAÇÃO, P. 16)
Quanto à simbologia da comunicação, tomemos como exemplos, os sinais de trânsito, as letras do alfabeto, as notas musicais, os cumprimentos, as bandeiras, os escudos e todos os símbolos que apontam para uma comunicação convencional.
Todo símbolo é carregado de significado. Os símbolos representativos, produzidos pelo homem, são mensagens criadas a partir de convenções, para suprir uma necessidade de comunicação.
Ademais dos símbolos criados pelo homem, existem sinais naturais, são indicadores da natureza que nos comunicam mensagens, que favorecem a compreensão da vida, num determinado momento. Por exemplo: uma nuvem negra e carregada é sinal iminente de chuva; fumaça, sinal de fogo; marcas de pés, sinal da presença de alguém.
Se o homem carece de sinais e símbolos para se comunicar uma realidade imanente, muito mais necessitará para comunicar uma experiência transcendente. Portanto, os sinais e os símbolos são fundamentais para a facilitação e favorecimento comunicativo da vida como obra perfeita e suficiente de Deus. Através dos símbolos e dos sinais, Deus se comunica com seu povo e este com o seu criador.
Ao se comunicar através dos sacramentos Deus se revela ao seu povo, se faz íntimo e se torna como um de nós. (Jo 1: 1-14). Envolta no mistério, na encarnação do verbo está a revelação do amor de Deus pela humanidade.
Toda vez que uma realidade do mundo, sem deixar o mundo, evoca uma outra realidade diferente dela, ela assume uma função sacramental. Deixa de ser coisa para ser sinal ou um símbolo. Todo sinal é sinal de alguma coisa ou de algum valor para alguém. Como coisa pode ser absolutamente irrelevante. Como sinal pode ganhar valorização inestimável e preciosa. (...) (OS SACRAMENTOS DA VIDA E A VIDA DOS SACRAMENTOS P. 23)
Os sacramentos são como “fotografias”, uma vez que revelam através da imagem uma realidade interior e maior do que aquela refletida. Nesse sentido a matéria estática elucida uma vida eternizada pela impressão, é marca. Nos sacramentos os sinais e símbolos, por sua vez imprimem através de gestos, matéria e intenção a interioridade da vida graciosa que está em Deus.
Nessa dimensão, segundo Leonardo Boff, tudo é sacramento, porque tudo comunica, interage e revela o homem “fotograficamente”. Tudo é corpo e alma. Toda matéria transcende a si mesma, revelando sua vocação para o alto.
Tudo revela o homem, suas experiências bem ou mal sucedidas, enfim, o encontro dele com a multiplicidade das manifestações do mundo. Nesse encontro o homem não aborda o mundo de forma neutra. Ele julga. Descobre valores, interpreta. Abre ou se fecha às evocações que lhe advém. O convívio com o mundo faz com que ele crie sua morada. (OS SACRAMENTOS DA VIDA E A VIDA DOS SACRAMENTOS P. 23)
Como refletido até aqui, se os sinais e símbolos são necessários para a comunicação entre os homens, e destes com o mundo, uma vez que o homem é um animal social, interdependente, muito mais eles serão na comunicação com o transcendente, com Deus. Os sinais e os símbolos são fundamentais porque facilitam a comunicação da vida que está em Deus e a graça que ele quer dar.
Mesmo supondo que o mundo seja feito de alguma matéria informe, essa matéria foi tirada totalmente do nada. Pois, mesmo o que ainda não está formado: sem dúvida alguma, de algum modo já tem iniciada a sua formação. Ser susceptível de forma (capacitas formae) é benefício do seu Autor, e possuí-la é bem. A simples capacidade de forma é pois, certo bem. Por conseguinte, o autor de todas as formas – que é doador de toda forma – também o fundamento da possibilidade de algo a ser formado. E assim, tudo o que é, enquanto é, tudo o que não é, enquanto pode vir a ser, tem de Deus, sua forma ou possibilidade a ser formado.
Dito de outro modo: Todo ser formado, enquanto formado, e todo o que ainda não está formado, enquanto formável, encontra em Deus seu fundamento. (A VERDADEIRA RELIGIÃO P. 68)
A criação é em seu todo sinal da vida que está em Deus. Como na representação de um quadro que está implícita a vida do artista que o criou: ver o quadro é ver o artista. A obra da criação revela a vida que está em Deus e é refletida na vida dos homens. Portanto, toda a criação foi, é e será sacramental.
II - ESPIRITUALIDADE CRISTÃ CELTA: TUDO É SACRAMENTO
Tudo o que sabemos a respeito de Deus, nos foi revelado pela Encarnação do Verbo. A face plena de Deus está em Jesus, como sacramento, sinal real e íntegro daquilo que Deus é. Jesus não é em parte Deus, nem em parte homem. Jesus é plenamente homem e plenamente Deus. Jesus é protótipo de toda a criação e explicitamente do homem. É por ele que Deus tudo criou, assim como aos seres humanos. Jesus estava presente no momento da concepção da “raça humana”, conforme atestam as sagradas escrituras: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. (GN 1: 26a)
O texto do livro do Gênesis escrito em primeira pessoa do plural (façamos) é revelador da natureza de Deus. É dessa natureza vocacional e final que o homem é criado. Deus é em si por si mesmo uma comunidade perfeita de onde emana a Trindade Santa: o Deus criador, o Deus redentor e o Deus santificador.
Na plenitude da criação e da humanidade está Jesus Cristo que soube acolher, enquanto homem, a dignidade plena de Filho de Deus. Nele a imagem de Deus é fiel e translúcida. Todo bem que nasce do exercício da adoração e do louvor, em Cristo ele se realiza. A igreja Anglicana que têm raízes na experiência espiritual celta entende e vive a espiritualidade cristã inclusiva a partir da adoração e louvor a Deus presente na natureza:
O cristianismo conhecido como “celta” floresceu na Irlanda, na Escócia, no País de Gales e mesmo em partes da Inglaterra, grosso modo, do quarto ao décimo séculos. São conhecidos os nomes de missionários celtas como Patrício, Columba e Columbano, que evangelizaram o norte das Ilhas Britânicas e vastas partes do continente europeu. Mas o cristianismo celta floresceu, humanamente falando, não apenas devido ao trabalho dos missionários mais conhecidos, mas também devido ao esforço de incontáveis anônimos, pessoas sinceras em sua fé, que viviam o cristianismo com “alegria e singeleza de coração”. Foi um cristianismo que desenvolveu características próprias, que o tornavam distinto do cristianismo de inspiração romana que florescia na Europa continental no mesmo período. O cristianismo celta tinha muitas características notáveis. Entre tantas, destaca-se aqui apenas a que interessa diretamente aos propósitos desta breve reflexão: um modelo de espiritualidade centrado na criação.
Os celtas desenvolveram uma teologia que enfatizava uma visão de Deus como Senhor da criação. Ainda que não haja nada de original nesta perspectiva — os cristãos celtas não foram os inventores desta teologia —, não se pode deixar de mencionar que há diversas implicações práticas dessa visão. Uma dessas conseqüências é exatamente ter uma atitude constante de júbilo e regozijo na criação, que revela Deus. Como os celtas eram um povo com forte inclinação à poesia, produziram muitas poesias comoventes, louvando a Deus pela obra da criação. Um poema datado do século nono, escrito na antiga língua do País de Gales, tem início com as seguintes palavras:
Todo Poderoso Criador, que fizeste todas as coisas;
O mundo não pode expressar toda a tua glória,
Ainda que a grama e as árvores possam cantar.
Outro poema escrito no século oitavo, na antiga língua irlandesa, declara:
Somente um tolo não seria capaz de louvar a Deus pelo seu poder,
Quando as pequeninas aves incapazes de pensar
O louvam com seu vôo.
Estes versos expressam o lugar de destaque que a natureza ocupava na maneira como os cristãos celtas antigos viam a vida e pensavam sua relação com Deus. A visão da criação como reveladora de Deus está profundamente enraizada na Bíblia. Os fragmentos poéticos citados revelam influência de textos bíblicos como Salmos 98.7-8 ou Isaías 55.12. De fato, muito da poesia e das orações daqueles cristãos denotam influência da visão bíblica a respeito da natureza. Textos como o de Salmos eram particularmente queridos pelos cristãos celtas. Para eles, o mundo criado é uma teofania, isto é, uma manifestação de Deus. (Fonte: http://elteque.multiply.com/journal/item/13)
Em Jesus, Deus revela sua imagem e semelhança. Através de Jesus temos todo o conhecimento e desejo de Deus. Desejamos a Deus a quem não vemos e o glorificamos e adoramos em sua obra.
Jesus é a obra prima de Deus e o ponto de convergência entre o humano-criação e o divino-criador. Nele habita a criatura que trabalha e busca Deus, fonte da vida e o Criador que busca o homem para redimi-lo.
Jesus é sacramento de Deus, porque ele realiza todo o projeto metafísico do Pai. Jesus, sacramento de Deus, proclama a dimensão ética do homem. Em Jesus Cristo, Deus manifesta seu amor.
BIBLIOGRAFIA
Agostinho, Santo. A Verdadeira Religião. São Paulo: Paulinas: 1987
Amaral, Luiz. Técnica de Jornal e Periódico. Rio de Janeiro. Tempo Brasileiro: 2001
Bíblia Sagrada
Boff, Leonardo. Os Sacramentos da Vida e a Vida dos Sacramentos. Editora Vozes: 2009
LOC. Livro de Oração Comum
Santos, Roberto Elísio dos. As Teorias da Comunicação. São Paulo. Paulinas: 2003
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
A IMPORTÂNCIA DA EXPERIÊNCIA BENEDITINA PARA A IGREJA
INSTITUTO ANGLICANO DE ESTUDOS TEOLÓGICOS
(c) JORGE DE FRANÇA SOUZA
A IMPORTÂNCIA DA EXPERIÊNCIA BENEDITINA PARA A IGREJA
Trabalho de aproveitamento do 5º semestre do curso de formação do Instituto Anglicano de Estudos Teológicos – IAET-SP
2009 - São Paulo
BENTO DE NÚRSIA
Segundo seus biógrafos, Bento de Núrsia nasceu no ano 480 a.D na região dos Sabinos, Itália antiga, em Núrcia, hoje província de Perusa. Seu pai pertencia à tradicional família de Anício, que deu à pátria numerosos cônsules e imperadores. Por parte de sua mãe era o filho caçula dos senhores de Núrcia.
Dispondo de recursos abundantes, enviaram-no, ainda menino a cidade de Roma para adquirir conhecimentos. Durante os sete anos que lá permaneceu obteve progresso notável nos estudos, tanto para pressentirem que, se continuasse, tornar-se-ia um dos mais destacados homens de seu tempo.
Na adolescência, sendo um jovem de bom caráter, sente-se incomodado com o ambiente decadente da cidade de Roma e percebe que isto induz os jovens à orgia, vícios e corrupção. Ele percebe que o convívio o prejudica e entre as ciências humanas, nas quais se projetava, e a preservação dos costumes, prefere permanecer fiel à pureza de vida cristã, recebida desde o berço. E assim deixa a cidade.
Sua ama de leite, de nome Cirila, amava-o ternamente e não o abandona. Na vila de Enfide, para onde se dirigiram, faz o primeiro milagre, do qual o conhecimento chegou até nós. Essa senhora pegou emprestado da pobre gente do lugar, um utensílio de barro, provavelmente para cozinhar, e ao usá-lo quebrou-o. Bento reuniu os pedaços e restabeleceu-o, por sua prece, no mesmo estado que era antes. A notícia espalhou-se velozmente e logo olhavam o rapaz como um santo.
Este fato constituiu motivo decisivo para ele retirar-se secretamente dos que haviam assistido ao prodígio , inclusive sua ama.
A fonte da maioria dos acontecimentos da sua vida são os Diálogos de São Gregório Magno, que baseou-se em fatos narrados por monges que o conheceram pessoalmente. Aos vinte anos retirou-se para Subiaco para viver como eremita e dedicar-se a oração. Sua fama de santidade era tão grande que logo foi convidado a dirigir pequenas comunidades monásticas da vizinhança. Sua disciplina rígida gerou insatisfações, ocasionando tentativas de envenenamento. Desgostoso mudou-se para monte cassino, onde criou uma grande família monástica e foi ali que redigiu sua famosa regra que melhorava as experiências anteriores(a regra do Mestre Agostinho).
REGRA
A Regra de São Bento, definida no ano 534 determinava que, os monges tinham que viver em comunidade nos mosteiros, fazer votos de pobreza, fazer votos de castidade e obediência ao abade, que eles próprios tinham a incumbência de eleger. Tinha que dedicar o tempo à oração e ao trabalho seja ele de caráter agrícola, artesanal, cultural ou educativo (hospedar peregrinos e viajantes) ocupar-se com os pobres e o ensino. Ela consta de 73 artigos e um prólogo.
A ordem Beneditina deu ao monasticismo ocidental uma forma definitiva. Todas as outras ordens monásticas que surgiram no Ocidente basearam-se na Regra de São Bento. Os mosteiros tornaram-se verdadeiros pólos culturais na Idade Média. Suas bibliotecas preservavam obras de escritores da Antigüidade Grega e Romana.
Ao lado de cada mosteiro, geralmente havia uma escola, que atendia a população pobre da região. Em geral, os freqüentadores acabavam se convertendo ao cristianismo.
Vale ressaltar e destacar, a execução, dentro dos mosteiros medievais, do rígido e minucioso trabalho dos monges copistas que acabou por preservar o saber greco-romano. Entretanto, mais que preservar, esse trabalho deu forma e conteúdo ao pensamento religioso que dominou todo o período medieval.
Um fator importante da Regra de São Bento é a sua humanidade por ser moderada, simples, sensível, sem rigor aos extremos. Ao mesmo tempo em que incentiva os monges a uma vida santa, enfatiza a importância da estabilidade, ou seja, a permanência num mesmo mosteiro e da necessidade de aceitar as limitações impostas pela vida em comunidade assim como a aceitação com paciência as fraquezas físicas ou de condutas dos irmãos. São incentivados a se ajudarem mutuamente no seguimento dos caminhos do Senhor assim como a receber sempre o estranho que chegava às portas dos mosteiros, pois ela é um caminho de vida cristã no seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A vida comunitária é vista como uma ordenada sucessão de oração, atividade e reflexão.
A Regra estabelece primeiro, o ''OPUS DEI'', no qual os monges, em comunidade, celebram sete vezes ao dia, o Ofício Diário composto de salmos, hinos, antífonas, responsórios e leituras bíblicas.
O modelo espalhou-se por toda Europa, e embora sofresse adaptações e desenvolvimentos durante os séculos, converteu-se, por mais de mil anos, em norma para toda a Igreja Ocidental.
Enfatiza, em segundo lugar, a 'LECTIO DIVINA'', na qual os irmãos refletem sobre textos bíblicos, os escritos dos Santos Pais e Mestres da espiritualidade, para que, num tranqüilo processo de absorção, baseado na verdade da Palavra de Deus, nutrir suas inteligências e moldar um temperamento reflexivo e contemplativo de devoção.
Em terceiro lugar, estabelece-se o ''LABOR'', que assegura, para as pequenas comunidades monásticas, a auto-sustentabilidade social, espiritual e econômica. O ritmo de trabalho e oração oferecia uma espiritualidade integrada e equilibrada. Deus era glorificado tanto pelo uso e mordomia da criação quanto na articulação do louvor na Igreja.
BENEDITINOS NO CONTINENTE AMERICANO
Os Beneditinos aportaram definitivamente no Brasil em 1581 onde fundaram a Abadia de São Sebastião na cidade de Salvador, sendo esta o primeiro Cenóbio no continente americano. A seguir foram fundada outras abadias em outros estados assim como pequenos mosteiros no Século XVII.
Em São Paulo, os monges beneditinos chegaram em 1598. A Companhia de Jesus e a Ordem do Carmo eram as únicas ordens religiosas em São Paulo.
Fr. Mauro Teixeira foi o primeiro beneditino a chegar a cidade de São Paulo. Natural da cidade de São Vicente, foi discípulo direto do jesuíta Pe. José de Anchieta. Após a morte de seus familiares pelos índios tamoios, num ritual de canibalismo, Fr. Mauro entrou no Mosteiro de São Bento da Bahia.Terminada a sua formação monástica, o Padre Provincial Fr. Clemente das Chagas o envia à São Paulo, onde funda uma pequena ermida, núcleo inicial da presença dos beneditinos na cidade. Logo em seguida, vem o Pe. Fr. Mateus da Ascensão, edificar um mosteiro e formar o primeiro núcleo comunitário.
Assim que ele chegou, a Câmara Municipal doou em 9 de maio de 1600, um pedaço de terra que situava-se "no lugar mais ilustre da vila, depois do Colégio da Companhia", em doação perpétua "até o fim do mundo". O local era onde se localizava a antiga taba do cacique Tibiriçá, "o glorioso índio que realizara a aproximação euro-americana e permitira o surto da civilização no planalto, salvando São Paulo da agressão tamoia de 1562", segundo as palavras do historiador Taunay.
Somente em 1634, as obras terminaram e assim constituída a Abadia. A capela fora dedicada a São Bento. Posteriormente, a pedido do Governador da Capitania de São Vicente, D. Francisco de Sousa, grande benemérito dos beneditinos, foi mudado o patrono da capela paulistana para Nossa Senhora de Montserrat. E, 100 anos depois, em 1720, a capela passou a chamar-se de Nossa Senhora da Assunção, título que se conserva até hoje.
No Capítulo Geral de 14 de maio de 1635, o primeiro Visitador da Província, o espanhol Fr. Álvaro Carvajal foi eleito o primeiro Abade de São Paulo.
CONTEXTUALIZAÇÃO DA ÉPOCA
Entre os séculos V e VI o mundo estava envolvido por uma tremenda crise de valores e de instituições, causada pela queda do Império Romano, pela invasão dos novos povos chamados de bárbaros e pela decadência dos costumes. A cidade de Roma tornou-se um antro de perdição onde a ausência de ética e moral alinhava-se a corrupção política. Roma estava em decadência, a juventude era frívola e induzida à libertinagem, ao vício e à corrupção.
Com a apresentação de São Bento como "astro luminoso", Gregório queria indicar esta situação atormentada, precisamente aqui nesta cidade de Roma, a saída da "noite escura da história"1.
De fato, a obra do Santo e, de modo particular a sua Regra revelaram-se, portadoras de um autêntico fermento espiritual, que mudou no decorrer dos séculos, muito além dos confins da sua Pátria e do seu tempo, o rosto da Europa, suscitando depois da queda da unidade política criada pelo império romano uma nova unidade espiritual e cultural, a da fé cristã partilhada pelos povos do continente. Surgiu precisamente assim a realidade à qual nós chamamos "Europa".
São Gregório ilustra-nos como a vida de São Bento estivesse imersa numa atmosfera de oração, fundamento importante da sua existência.
Sem oração não há experiência de Deus. Mas a espiritualidade de Bento não era uma interioridade fora da realidade. Na agitação e na confusão do seu tempo, ele vivia sob o olhar de Deus e precisamente assim nunca perdeu de vista os deveres da vida quotidiana e o homem com as suas necessidades concretas.
IMPORTÂNCIA DE BENTO PARA A IGREJA
Bento foi chamado a esta experiência por causa da pureza de seu coração. Deus em sua magnitude já tinha planos para ele e quando chamado não resistiu, aceitou e doou-se mesmo sofrendo as tentações que tentavam afastá-lo do plano de Deus.
Em seus quase 1.500 anos de vida, os beneditinos acompanharam as vicissitudes da história da Igreja, com momentos de expansão, de decadência e de supressão e Renascimento.
Os valores da tradição monástica falam ainda hoje aos cristãos que são parte do mundo moderno. Reconhecemos a importância de uma vida litúrgica comunitária, de trazer perante Deus, em oração, o trabalho no qual estamos engajados e as necessidades das comunidades nas quais estamos inseridos, para que Deus as guie e abençoe, as redima e renove.
Os relacionamentos entre nosso trabalho e a vida litúrgica se concretizam no cuidadoso ordenamento das Intercessões e também na preparação de celebrações para marcar ocasiões e/ou necessidades especiais. Através desses vínculos aprendemos também a ver nosso trabalho e nossa vida de relação como meios para melhor servir a Deus e dar testemunho dele a uma sociedade secularizada.
Além da Igreja Católica, Bento é venerado pelas Igrejas Anglicana, Ortodoxa e Luterana. No caso da Igreja Anglicana, mesmo distante durante 300 anos após a reforma , a influência Beneditina perdurou fortemente na tradição do LOC(Livro de oração comum) anglicano, a ponto de poder afirmar-se com justiça que a espiritualidade anglicana está imbuída do espírito beneditino
IMPRESSÕES PESSOAIS
Conhecer a história de vida, exemplo e espiritualidade de São Bento de Núrsia foi emocionante e enriquecedora e com certeza será de grande importância para minha caminhada.
Penso que num mundo globalizado, excludente, pluralista e cheio de conflitos onde uma grande parcela da população mundial vive abaixo da linha da miséria, onde impera a corrupção global e o desvio de dinheiro público é fato, o aprendizado das regras de Bento seria de grande importância para esta sociedade corroída pelo mal e tão distante das bênçãos e o amor de Deus.
Há momentos em que relembro as notícias de minha cidade, Rio de Janeiro, bela por natureza, mas cuja população está inerte, entregue a própria sorte por causa da omissão do estado e da sociedade em si, que dorme em berço esplêndido e não se dá conta do que acontece a sua volta.
Em conseqüência disto, sinto uma imensa dor no coração ao saber que milhares de jovens são mortos todos os anos por causa da guerrilha urbana, fruto do confronto que existe entre traficantes por causa do tráfico de drogas.
Queira Deus que possamos compreender e lutar por esta realidade, tão nossa, mas sem esquecer jamais, da realidade eterna.
DICIONÁRIO
Ancoreta, vivia sozinho e afastado dos seus semelhantes.
Monges ou Cenobitas que habitavam o Mosteiro ou Cenóbio.
BIBLIOGRAFIA
Braga: Coleção “Os grandes em Imagem”- Bento de Núrsia – Pai do Monaquismo Ocidental; Editorial A.O. e Edições Loyola- SP.
Link: “ Mosteiro de São Bento-SP” - http://www.mosteiro.org.br/Historico/index.htm
Link: “Blog Oblatos de São Bento” - http://oblatosdesaobento.blogspot.com/2009/10/bento-escreve-sua-regra-monastica.html
Link: “Oblatos Anglicanos de São Bento” -http://www.dm.ieab.org.br/ministerios/04_ordens_beneditinos.html#Cena_1
(c) JORGE DE FRANÇA SOUZA
A IMPORTÂNCIA DA EXPERIÊNCIA BENEDITINA PARA A IGREJA
Trabalho de aproveitamento do 5º semestre do curso de formação do Instituto Anglicano de Estudos Teológicos – IAET-SP
2009 - São Paulo
BENTO DE NÚRSIA
Segundo seus biógrafos, Bento de Núrsia nasceu no ano 480 a.D na região dos Sabinos, Itália antiga, em Núrcia, hoje província de Perusa. Seu pai pertencia à tradicional família de Anício, que deu à pátria numerosos cônsules e imperadores. Por parte de sua mãe era o filho caçula dos senhores de Núrcia.
Dispondo de recursos abundantes, enviaram-no, ainda menino a cidade de Roma para adquirir conhecimentos. Durante os sete anos que lá permaneceu obteve progresso notável nos estudos, tanto para pressentirem que, se continuasse, tornar-se-ia um dos mais destacados homens de seu tempo.
Na adolescência, sendo um jovem de bom caráter, sente-se incomodado com o ambiente decadente da cidade de Roma e percebe que isto induz os jovens à orgia, vícios e corrupção. Ele percebe que o convívio o prejudica e entre as ciências humanas, nas quais se projetava, e a preservação dos costumes, prefere permanecer fiel à pureza de vida cristã, recebida desde o berço. E assim deixa a cidade.
Sua ama de leite, de nome Cirila, amava-o ternamente e não o abandona. Na vila de Enfide, para onde se dirigiram, faz o primeiro milagre, do qual o conhecimento chegou até nós. Essa senhora pegou emprestado da pobre gente do lugar, um utensílio de barro, provavelmente para cozinhar, e ao usá-lo quebrou-o. Bento reuniu os pedaços e restabeleceu-o, por sua prece, no mesmo estado que era antes. A notícia espalhou-se velozmente e logo olhavam o rapaz como um santo.
Este fato constituiu motivo decisivo para ele retirar-se secretamente dos que haviam assistido ao prodígio , inclusive sua ama.
A fonte da maioria dos acontecimentos da sua vida são os Diálogos de São Gregório Magno, que baseou-se em fatos narrados por monges que o conheceram pessoalmente. Aos vinte anos retirou-se para Subiaco para viver como eremita e dedicar-se a oração. Sua fama de santidade era tão grande que logo foi convidado a dirigir pequenas comunidades monásticas da vizinhança. Sua disciplina rígida gerou insatisfações, ocasionando tentativas de envenenamento. Desgostoso mudou-se para monte cassino, onde criou uma grande família monástica e foi ali que redigiu sua famosa regra que melhorava as experiências anteriores(a regra do Mestre Agostinho).
REGRA
A Regra de São Bento, definida no ano 534 determinava que, os monges tinham que viver em comunidade nos mosteiros, fazer votos de pobreza, fazer votos de castidade e obediência ao abade, que eles próprios tinham a incumbência de eleger. Tinha que dedicar o tempo à oração e ao trabalho seja ele de caráter agrícola, artesanal, cultural ou educativo (hospedar peregrinos e viajantes) ocupar-se com os pobres e o ensino. Ela consta de 73 artigos e um prólogo.
A ordem Beneditina deu ao monasticismo ocidental uma forma definitiva. Todas as outras ordens monásticas que surgiram no Ocidente basearam-se na Regra de São Bento. Os mosteiros tornaram-se verdadeiros pólos culturais na Idade Média. Suas bibliotecas preservavam obras de escritores da Antigüidade Grega e Romana.
Ao lado de cada mosteiro, geralmente havia uma escola, que atendia a população pobre da região. Em geral, os freqüentadores acabavam se convertendo ao cristianismo.
Vale ressaltar e destacar, a execução, dentro dos mosteiros medievais, do rígido e minucioso trabalho dos monges copistas que acabou por preservar o saber greco-romano. Entretanto, mais que preservar, esse trabalho deu forma e conteúdo ao pensamento religioso que dominou todo o período medieval.
Um fator importante da Regra de São Bento é a sua humanidade por ser moderada, simples, sensível, sem rigor aos extremos. Ao mesmo tempo em que incentiva os monges a uma vida santa, enfatiza a importância da estabilidade, ou seja, a permanência num mesmo mosteiro e da necessidade de aceitar as limitações impostas pela vida em comunidade assim como a aceitação com paciência as fraquezas físicas ou de condutas dos irmãos. São incentivados a se ajudarem mutuamente no seguimento dos caminhos do Senhor assim como a receber sempre o estranho que chegava às portas dos mosteiros, pois ela é um caminho de vida cristã no seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A vida comunitária é vista como uma ordenada sucessão de oração, atividade e reflexão.
A Regra estabelece primeiro, o ''OPUS DEI'', no qual os monges, em comunidade, celebram sete vezes ao dia, o Ofício Diário composto de salmos, hinos, antífonas, responsórios e leituras bíblicas.
O modelo espalhou-se por toda Europa, e embora sofresse adaptações e desenvolvimentos durante os séculos, converteu-se, por mais de mil anos, em norma para toda a Igreja Ocidental.
Enfatiza, em segundo lugar, a 'LECTIO DIVINA'', na qual os irmãos refletem sobre textos bíblicos, os escritos dos Santos Pais e Mestres da espiritualidade, para que, num tranqüilo processo de absorção, baseado na verdade da Palavra de Deus, nutrir suas inteligências e moldar um temperamento reflexivo e contemplativo de devoção.
Em terceiro lugar, estabelece-se o ''LABOR'', que assegura, para as pequenas comunidades monásticas, a auto-sustentabilidade social, espiritual e econômica. O ritmo de trabalho e oração oferecia uma espiritualidade integrada e equilibrada. Deus era glorificado tanto pelo uso e mordomia da criação quanto na articulação do louvor na Igreja.
BENEDITINOS NO CONTINENTE AMERICANO
Os Beneditinos aportaram definitivamente no Brasil em 1581 onde fundaram a Abadia de São Sebastião na cidade de Salvador, sendo esta o primeiro Cenóbio no continente americano. A seguir foram fundada outras abadias em outros estados assim como pequenos mosteiros no Século XVII.
Em São Paulo, os monges beneditinos chegaram em 1598. A Companhia de Jesus e a Ordem do Carmo eram as únicas ordens religiosas em São Paulo.
Fr. Mauro Teixeira foi o primeiro beneditino a chegar a cidade de São Paulo. Natural da cidade de São Vicente, foi discípulo direto do jesuíta Pe. José de Anchieta. Após a morte de seus familiares pelos índios tamoios, num ritual de canibalismo, Fr. Mauro entrou no Mosteiro de São Bento da Bahia.Terminada a sua formação monástica, o Padre Provincial Fr. Clemente das Chagas o envia à São Paulo, onde funda uma pequena ermida, núcleo inicial da presença dos beneditinos na cidade. Logo em seguida, vem o Pe. Fr. Mateus da Ascensão, edificar um mosteiro e formar o primeiro núcleo comunitário.
Assim que ele chegou, a Câmara Municipal doou em 9 de maio de 1600, um pedaço de terra que situava-se "no lugar mais ilustre da vila, depois do Colégio da Companhia", em doação perpétua "até o fim do mundo". O local era onde se localizava a antiga taba do cacique Tibiriçá, "o glorioso índio que realizara a aproximação euro-americana e permitira o surto da civilização no planalto, salvando São Paulo da agressão tamoia de 1562", segundo as palavras do historiador Taunay.
Somente em 1634, as obras terminaram e assim constituída a Abadia. A capela fora dedicada a São Bento. Posteriormente, a pedido do Governador da Capitania de São Vicente, D. Francisco de Sousa, grande benemérito dos beneditinos, foi mudado o patrono da capela paulistana para Nossa Senhora de Montserrat. E, 100 anos depois, em 1720, a capela passou a chamar-se de Nossa Senhora da Assunção, título que se conserva até hoje.
No Capítulo Geral de 14 de maio de 1635, o primeiro Visitador da Província, o espanhol Fr. Álvaro Carvajal foi eleito o primeiro Abade de São Paulo.
CONTEXTUALIZAÇÃO DA ÉPOCA
Entre os séculos V e VI o mundo estava envolvido por uma tremenda crise de valores e de instituições, causada pela queda do Império Romano, pela invasão dos novos povos chamados de bárbaros e pela decadência dos costumes. A cidade de Roma tornou-se um antro de perdição onde a ausência de ética e moral alinhava-se a corrupção política. Roma estava em decadência, a juventude era frívola e induzida à libertinagem, ao vício e à corrupção.
Com a apresentação de São Bento como "astro luminoso", Gregório queria indicar esta situação atormentada, precisamente aqui nesta cidade de Roma, a saída da "noite escura da história"1.
De fato, a obra do Santo e, de modo particular a sua Regra revelaram-se, portadoras de um autêntico fermento espiritual, que mudou no decorrer dos séculos, muito além dos confins da sua Pátria e do seu tempo, o rosto da Europa, suscitando depois da queda da unidade política criada pelo império romano uma nova unidade espiritual e cultural, a da fé cristã partilhada pelos povos do continente. Surgiu precisamente assim a realidade à qual nós chamamos "Europa".
São Gregório ilustra-nos como a vida de São Bento estivesse imersa numa atmosfera de oração, fundamento importante da sua existência.
Sem oração não há experiência de Deus. Mas a espiritualidade de Bento não era uma interioridade fora da realidade. Na agitação e na confusão do seu tempo, ele vivia sob o olhar de Deus e precisamente assim nunca perdeu de vista os deveres da vida quotidiana e o homem com as suas necessidades concretas.
IMPORTÂNCIA DE BENTO PARA A IGREJA
Bento foi chamado a esta experiência por causa da pureza de seu coração. Deus em sua magnitude já tinha planos para ele e quando chamado não resistiu, aceitou e doou-se mesmo sofrendo as tentações que tentavam afastá-lo do plano de Deus.
Em seus quase 1.500 anos de vida, os beneditinos acompanharam as vicissitudes da história da Igreja, com momentos de expansão, de decadência e de supressão e Renascimento.
Os valores da tradição monástica falam ainda hoje aos cristãos que são parte do mundo moderno. Reconhecemos a importância de uma vida litúrgica comunitária, de trazer perante Deus, em oração, o trabalho no qual estamos engajados e as necessidades das comunidades nas quais estamos inseridos, para que Deus as guie e abençoe, as redima e renove.
Os relacionamentos entre nosso trabalho e a vida litúrgica se concretizam no cuidadoso ordenamento das Intercessões e também na preparação de celebrações para marcar ocasiões e/ou necessidades especiais. Através desses vínculos aprendemos também a ver nosso trabalho e nossa vida de relação como meios para melhor servir a Deus e dar testemunho dele a uma sociedade secularizada.
Além da Igreja Católica, Bento é venerado pelas Igrejas Anglicana, Ortodoxa e Luterana. No caso da Igreja Anglicana, mesmo distante durante 300 anos após a reforma , a influência Beneditina perdurou fortemente na tradição do LOC(Livro de oração comum) anglicano, a ponto de poder afirmar-se com justiça que a espiritualidade anglicana está imbuída do espírito beneditino
IMPRESSÕES PESSOAIS
Conhecer a história de vida, exemplo e espiritualidade de São Bento de Núrsia foi emocionante e enriquecedora e com certeza será de grande importância para minha caminhada.
Penso que num mundo globalizado, excludente, pluralista e cheio de conflitos onde uma grande parcela da população mundial vive abaixo da linha da miséria, onde impera a corrupção global e o desvio de dinheiro público é fato, o aprendizado das regras de Bento seria de grande importância para esta sociedade corroída pelo mal e tão distante das bênçãos e o amor de Deus.
Há momentos em que relembro as notícias de minha cidade, Rio de Janeiro, bela por natureza, mas cuja população está inerte, entregue a própria sorte por causa da omissão do estado e da sociedade em si, que dorme em berço esplêndido e não se dá conta do que acontece a sua volta.
Em conseqüência disto, sinto uma imensa dor no coração ao saber que milhares de jovens são mortos todos os anos por causa da guerrilha urbana, fruto do confronto que existe entre traficantes por causa do tráfico de drogas.
Queira Deus que possamos compreender e lutar por esta realidade, tão nossa, mas sem esquecer jamais, da realidade eterna.
DICIONÁRIO
Ancoreta, vivia sozinho e afastado dos seus semelhantes.
Monges ou Cenobitas que habitavam o Mosteiro ou Cenóbio.
BIBLIOGRAFIA
Braga: Coleção “Os grandes em Imagem”- Bento de Núrsia – Pai do Monaquismo Ocidental; Editorial A.O. e Edições Loyola- SP.
Link: “ Mosteiro de São Bento-SP” - http://www.mosteiro.org.br/Historico/index.htm
Link: “Blog Oblatos de São Bento” - http://oblatosdesaobento.blogspot.com/2009/10/bento-escreve-sua-regra-monastica.html
Link: “Oblatos Anglicanos de São Bento” -http://www.dm.ieab.org.br/ministerios/04_ordens_beneditinos.html#Cena_1
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