Por Ivan Vieira
(EUCARISTIA E REINO DE DEUS)
Somos convidados a apreciar em algumas páginas a dimensão daquilo celebrado outrora pelas comunidades cristãs primitivas, e que se perpetua até nossos dias: Jesus, presente através do pão partilhado e do vinho derramado. De forma simples, mas rica em significados, veremos que esse momento, em que o povo de Deus se reúne em torno do altar, é hora de adoração, de louvor, e, ao mesmo tempo, de compromisso com o Reino de Deus. Comungar é tornar-se um com Ele, é aceitar todas as prerrogativas as quais este ato de entrega nos impele. Estas poucas páginas também querem exortar a nós sacerdotes, ministros e todo povo de Deus a motivarmos as nossas celebrações e fazê-las de forma que realmente sejam a festa do Reino o qual experimentamos já, aqui e agora.
Sumário
1) Introdução
2) Desenvolvimento
2.1) Reino de Deus, Por quê?
2.2) Ceia Judaica e Ceia do Senhor
2.3) Eucaristia e Reino de Deus.
3) Conclusão
4) Bibliografia
Introdução
Celebrar a Eucaristia é celebrar a festa da ressurreição com todos os batizados. É fazer subir nossas orações de ação de graças para coroar e agradecer ao Deus da vida pela vinda do seu Filho amado, pela Boa Nova do Reino e por sua compaixão por nós que buscamos incessantemente e sonhamos com o Reino acontecendo no meio de nós.
Proponho-me aqui abordar de maneira simples e singular um tema muito querido por mim que é a Eucaristia. Não tenho a intenção de fazer nenhum tratado, nem de me alongar com termos técnicos e confusos.
A Eucaristia foi celebrada de maneira simples. Jesus, sentado com seus apóstolos, partilhou da mesma fé que recebera, repetindo a liturgia tal qual a dos seus pais, mas com uma novidade transformadora e renovadora. Tornou transparente aos seus companheiros a dimensão do que estava sendo celebrado naquele momento.
Um sacramento, maior de todos, pois era Ele mesmo que estava se doando por inteiro para a felicidade de muitos. Gesto simples: um pão que se torna sua carne; um cálice de vinho que se torna seu próprio sangue. O cálice é derramado e o Espírito Santo faz o resto.
O gesto de Jesus é repetido nas comunidades primitivas e se perpetua até hoje porque celebramos a festa, celebramos o seu martírio, celebramos a vida que brota no doar-se do Cristo Jesus.
Nestas poucas páginas, pretendo abordar a dimensão da Eucaristia, seu significado, o que ela representa para nós cristãos, e seu sentido escatológico na perspectiva do Reino de Deus.
Abordarei sobre o Reino de Deus, justificando o porquê de sua necessidade, levando em consideração relatos do profeta Isaías e do Novo Testamento. Nessa perspectiva, abordo também, sobre a Ceia Judaica e a Ceia do Senhor, porque ambas celebram a Páscoa, celebram a passagem da morte para a vida.
Quando celebramos o cordeiro imolado, rememoramos o sacrifício de Jesus, nos colocamos diante do mesmo altar, partilhamos o pão e o vinho e agradecemos pela vida que jorrou através de seu sacrifício na cruz, o qual nos convida a sermos outros cristos com Cristo.
É neste pensamento, que transcorro em algumas poucas páginas o tema “Eucaristia e Reino de Deus”, ansiando tornar em nossas comunidades essa dimensão inteligível, para que ela realmente seja absorvida e entendida como realmente quis o nosso Mestre. Ao mesmo tempo, deixo uma sugestão para que nós façamos das nossas liturgias, verdadeiras festas. É lógico que o ato fala por si. Mas é preciso tornar este momento agradável, festivo, renovado para que saiamos das nossas celebrações levando um Jesus que é amor e alegria.
Ele morreu para que fôssemos livres e felizes. A vida venceu a morte, portanto celebremos a festa.
2.1) Reino de Deus, Por quê?
Para entendermos a dimensão do Reino de Deus, necessitamos através da Bíblia, Palavra de Deus, percebermos como esta Palavra anunciada por tantos profetas e homens de Deus anteviu a vinda de um Messias que instalaria a paz e a unidade no meio do seu povo.
O povo de Israel, cansado de tanto sofrimento, labuta e exploração, clama por liberdade, por terra e uma vida mais justa. É neste pano de fundo que uma voz surge no deserto: “Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo, vereda a nosso Deus”. (Isaías 40:3). Isaías anuncia a vinda do Messias libertador, e João Batista chama as pessoas ao arrependimento para “preparar o caminho” em seus corações para a chegada do Rei Jesus. (Lucas 3, 4-6).
Esse gesto cheio de mistério de um Deus amoroso e cheio de compaixão, capaz de se fazer humano com nós, é o início de uma nova era cheia de esperança e de uma história que mudaria para sempre a vida do povo de Deus.
Em Nazaré, um anjo aparece a uma mulher do povo, noiva de um tal José, descendente da tribo de Davi, anunciando que esta fora escolhida para ser a mãe do Salvador. O canto de Maria expressa a alegria, as verdades do Reino e as promessas de Deus que começam a tornar-se realidade: “Manifestou o poder de seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrando da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade para sempre.” (Lucas,1, 51-55).
Jesus durante a sua vida pública prega a Boa nova ao povo de Israel, mas demonstra todo o amor e ternura de Deus para com os que sofrem e padecem as dificuldades de viver sob um sistema opressor e marginalizante.
O Sermão da Montanha é explícito quando Jesus diante daquela multidão sofrida que o seguia diz: “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o reino dos céus! Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Bem aventurados os corações puros, porque verão a Deus! Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus! Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus! Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.” (Mt 5, 1-11).
O mistério da encarnação é entendido através do gesto carinhoso de nosso Deus que se fez homem e através de sua humanidade anunciou e estabeleceu o Reino o qual podemos experimentar no meio de nós, cada vez que celebramos o mistério da paixão, morte e ressurreição. Ele manteve-se fiel ao Pai até a morte e morte de cruz. Quando nos reunimos em torno da mesa, antecipamos o Banquete celestial e somos impelidos a vivenciarmos como outros cristos as verdades do Reino.
2.2) Ceia Judaica e Ceia do Senhor.
A Eucaristia, “Ceia do Senhor”, que nós cristãos celebramos, tem raízes no ritual judaico das refeições de festa. Como era costume entre o povo de Israel, a Ceia judaica celebrava a passagem do povo de Deus do Egito para a Terra Prometida, terra esta que segundo a Bíblia jorra leite e mel, ou seja, a terra da felicidade, da fartura e da liberdade (Ex. 12; Lev. 23, 4-14).
A Ceia Judaica na época do segundo Templo tinha um caráter mais ritualizado. Os levitas cantavam os salmos do Hallel (Sl 113-118). Depois o pai de família levava o cordeiro ao Templo e o sacrificava, enquanto os sacerdotes recolhiam o sangue para aspergir a base do altar. Em seguida o cordeiro era assado em casa e comido, depois do pôr-do-sol, com pão sem fermento e ervas amargas. As pessoas tinham os ris cingidos, sandálias nos pés e um bastão na mão. A refeição servia também para a instrução dos jovens da casa, para recordar a libertação de ontem e da sempre esperada, porque “em cada geração cada um deve considerar que foi ele o libertador do Egito. Não era diretamente messiânico, mas não deixava de dirigir-se para o futuro. Durante a refeição pascal e de outras festas, ou na recepção de um hóspede, o pai de família começava com uma bênção sobre o pão, antes de parti-lo e dar a cada um. Depois, no fim da refeição, era pronunciada outra bênção, esta sobre o vinho, enquanto cada conviva mantinha sua taça diante de si. O pai dizia uma primeira bênção, de maneira bastante livre, por exemplo: ”Bendito seja Deus, o Rei do mundo, que tirou o pão da terra”. Ou, antes da taça: “que criou o fruto da vinha”. Porque tudo pertence a Deus.
A ceia do Senhor, sua instituição, encontra-se em Mateus 26, 26-28, Marcos 14, 22-24, Lucas 22, 19-20 e 1Coríntios 11, 23-26. Era um costume habitual na Igreja primitiva como nos relata os At 20, 7-11: “No primeiro dia da semana, estando reunidos para partir o pão, Paulo, que havia de viajar no dia seguinte, conversava com os discípulos e prolongou a palestra até a meia-noite. Havia muitas lâmpadas no quarto, onde nos achávamos reunidos. Acontece que um moço, chamado Éutico, que estava sentado numa janela, foi tomado de profundo sono, enquanto Paulo ia prolongando seu discurso. Vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo, e foi levantado morto. Paulo desceu, debruçou-se sobre ele, tomou-os nos braços e disse: “Não vos perturbeis, porque a sua alma está nele”. Então subiu, partiu o pão, comeu e falou-lhes largamente até ao romper do dia. Depois partiu”.
Da Santa Ceia do Senhor só participavam os batizados e consistia das seguintes cerimônias: o partir do pão e derramar do vinho. Distribuição dos elementos pelos discípulos e o ato de comer e beber. Era celebrada pelos apóstolos como uma ordem que deveria ser obedecida, desta forma se mantiveram fiéis à Doutrina dos apóstolos e na Comunhão, no partir do pão e nas orações (At. 2, 42).
“O sacramento era celebrado em casa no primeiro dia da semana, aos domingos pela manhã bem cedo, de modo que pudessem todos depois ir cada um ao seu trabalho, sendo, pelo menos dessa feita, precedido o cerimonial por devota vigília, oração e homilia”’. (Liturgia Anglicana, Adão Pereira, Sidney A. Ruiz)
Os judeus tinham o costume de agradecer a Deus pelo alimento recebido, pois o consideravam sagrado e dom de Deus ao homem. Sempre às refeições davam um aspecto religioso, rendendo graças pela misericórdia divina. Os apóstolos enriqueceram o rito que Jesus instituíra com novas e ricas significações.
Existe hoje entre alguns teólogos a idéia de que a cronologia narrada pelo Quarto Evangelho seja correta quando mostra que a Ceia do Senhor não se realizou por ocasião das festividades da páscoa judaica, mas que se tratava de uma refeição sagrada de caráter íntimo que Jesus realizava comumente com seus discípulos. Esta foi uma preparação para essa grande festa.
Segundo esses teólogos a “Ceia do Senhor” havia sido celebrada muitas vezes entre Jesus e seus seguidores. Isso fica explícito quando lemos o capítulo 24, 13-35 do Evangelho de Lucas quando narra a passagem dos discípulos de Emaús.
Dois discípulos caminhavam pela aldeia de Emaús conversavam sobre tudo que tinha acontecido com o Mestre. Enquanto conversavam, Jesus aproximou-se deles e caminhou com eles sem que eles o reconhecessem. Levaram-no para casa e deram-lhe abrigo e alimento. Reconheceram Jesus com o gesto de repartir o pão e dar graças a Deus, e estes não estiveram presentes na Última Ceia.
Deve-se a Paulo a relação imediata entre a Última Ceia e a paixão de Jesus. O apóstolo conseguiu transfigurar a própria dor da paixão na glória da ressurreição, identificando a velha páscoa com o novo rito, quando diz: “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós; portanto façamos a festa” (1Cor. 5,7).
“A Ceia Pascal é uma figura da vida, morte e ressurreição de Cristo, e tem aí sua plena realização: o cordeiro pascal é substituído pelo Cordeiro de Deus. Em vez da libertação do jugo egípcio, temos a libertação do jugo do pecado; o caminho para a terra prometida é o caminho para o céu; a presença de Javé no meio do seu povo é a presença eucarística. Paulo dirá em 1 Cor 5,7: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado por nós”. (Bíblia Sagrada ave Maria, Ed. Ave Maria).
2.3) Eucaristia e Reino de Deus
Jesus, na Última Ceia, celebrou com seus apóstolos em gestos, palavras e símbolos, a consumação daquilo que ele iria realizar no dia seguinte: ele se entregaria totalmente na cruz, dando-nos seu corpo e sangue: “Comei: isto é o meu corpo que será entregue na cruz! Bebei: isto é o meu sangue que será derramado por vossa causa!” (Lc 22, 16-19). Esta Ceia sagrada, onde ele celebrava com os seus, a sua própria morte e ressurreição, antecipava misteriosamente a ceia das núpcias do cordeiro.
É o momento crucial em que Jesus se depara diante do que estava por vir e que era necessário que o Filho do Homem se mantivesse fiel até o fim para que fosse cumprido o que estava escrito nas Escrituras: “Ele manteve-se fiel até a morte e morte de cruz”.
Jesus, ao longo de sua vida, construiu com seus apóstolos um estilo de vida diferente, que rompia com todo e qualquer resquício do fermento que atingia os detentores do poder e a soberania. Seu estilo de vida invoca seus seguidores a amar até as últimas conseqüências, a ponto de dar a própria vida pelo próximo. Mesmo que para assumir o Evangelho radicalmente levasse mais algum tempo a ser assimilado pelos discípulos, Jesus foi incessante em continuar a divulgar a Boa Nova do Evangelho, preparando os mesmos para a longa jornada do povo de Deus rumo ao Reino prometido pelo Mestre, onde seriam bem-aventurados os pobres, os sofredores, os perseguidos, os desvalidos, todos aqueles que têm fome da verdade e da justiça.
O Mestre foi preparando, aos poucos, os seus discípulos, para que tivessem a mesma coragem de dar a própria vida. Mais tarde, sabemos que muitos dos apóstolos foram martirizados por causa do Evangelho. Porque tiveram coragem de assumir e deixar a Palavra penetrar no coração, de transformar suas vidas e de levá-los para a missão. Tiveram coragem de comer a carne e beber o sangue do Mestre: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,53).
Aqui, ele não estava tratando de alimento no sentido metafórico, mas era a sua carne, em verdade, uma comida e o seu sangue, em verdade, uma bebida, como nos relata o evangelista João no capítulo 6. Ou seja, em gestos, em palavras, Jesus queria, que além de antecipar as núpcias, também saboreássemos, na força do Espírito Santo, a Ceia do Banquete celeste. É uma ceia que começa na terra e durará no céu, por toda a eternidade.
Portanto, é um mistério imensurável e santo, cada vez que participamos do Pão e do Vinho, eucarísticos entramos em comunhão de vida com Aquele que é Morto e Ressuscitado, com o Cordeiro eternamente imolado por nós. “Cada participação na Eucaristia é uma transfusão de vida eterna que recebemos, até que a consumemos na glória!” (Zizioulas, Ioannis – Eucaristia e Reino de Deus. Ed. Mundo e Missão.)
A missa, ou o culto eucarístico é, ao mesmo tempo, o memorial sacrifical no qual se perpetua o sacrifício da cruz, e o banquete sagrado da comunhão no corpo e no sangue do Senhor. A celebração está toda voltada para união íntima dos fiéis com Cristo, pois neste momento recorda-se a paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo que deu sua própria vida para nos salvar e instalar o seu Reino no meio de nós.
Cada vez que comungamos, nos comprometemos com o projeto de Jesus, nos tornamos um com ele e dizemos que queremos continuar a propagar o Reino de Deus entre nós. “Faze com que nos aproximemos desta mesa para o serviço e não apenas para a satisfação pessoal ”(Oração eucarística A do LOC). Na Ceia Eucarística acontece a comunhão entre nós e Cristo e, a comunhão entre nós, no único Espírito Santo de Cristo ressuscitado.
Santo Agostinho de Hipona afirma: “Se sois o corpo e os membros de Cristo, é o vosso sacramento que é colocado sobre a mesa do Senhor; recebeis o vosso sacramento. Respondeis: “Amém” aquilo que recebeis, e confirmais ao responder. Ouvis esta palavra: “O corpo de Cristo”, e respondeis “Amém”. Sede, pois um membro de Cristo, na caridade com os irmãos mais carentes e sofredores, sobretudo com os pobres”.
São João Crisóstomo ensinava assim: “Degustaste o Sangue do Senhor e não reconheces para que o vosso Amém seja verdadeiro”. Sequer o teu irmão. Desonras esta própria Mesa, não julgando digno de compartilhar do teu alimento aquele que foi julgado digno de participar desta Mesa. Deus te libertou de todos os teus pecados e te convidou para esta mesa. E tu, nem mesmo assim, te tornaste mais misericordioso”.
Os Evangelhos são unânimes em mostrar que a última ceia nos remete para o Reino de Deus. Os apóstolos participaram do banquete como prefiguração do novo Israel: “E eu preparo para vós um Reino, como o Pai o preparou para mim, para que possas beber à minha mesa no meu Reino, e vos sentareis no trono para julgar as doze tribos de Israel” (Lc 22, 29-30).
A última ceia foi um evento escatológico, unido indissoluvelmente ao Reino de Deus. É por esta razão que, durante a ceia, Jesus se refere expressamente e com uma particular intensidade emotiva ao Reino: “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco, antes da minha paixão, pois eu vos digo: não a comerei mais, até que ela se cumpra no Reino de Deus. Pois eu vos digo: a partir de agora, na beberei mais do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus”. (Lc 22, 15 - 16,18ss).
“O mistério da Eucaristia existe porque o Deus Trindade, movido por uma ternura inefável e totalmente gratuita, quer nos encontrar para nos unir a si pelo amor”. Podemos dizer que, em outros termos, “a Eucaristia existe para a celebração e realização do grandioso projeto de Deus: transformar a humanidade para fazê-la entrar desde já no mundo da ressurreição, da qual os sinais eucarísticos são prefiguração”. (Brouard, Maurice – Enciclopédia da Eucaristia).
Quando celebramos a Eucaristia, celebramos o memorial da Páscoa que é vista como a festa da reunificação da humanidade, cuja unidade, rompida no começo de sua história, é restaurada sem cessar pelo amor de Deus, difundido em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado (Rm 5,5).
Graças ao banquete eucarístico, Deus e a humanidade não poderão mais ser separados: “Aquele que come minha carne permanece em mim e eu nele” (Jo 6,56). O banquete celeste só fará consumar essa união.
A comunhão mística da Igreja com Cristo suscita também a comunhão em Cristo porque une as pessoas que estão com Ele num elo de intimidade em Cristo porque comem e bem o mesmo alimento, seu corpo e seu sangue. A esse respeito o teólogo Carlos Eduardo Calvani diz que: “se nossa eucaristia não suscita a certeza da comunhão com Cristo e não nos insere numa prática efetiva de comunhão em Cristo, é sinal de que ainda não interiorizamos suficientemente seu mistério. Se participamos domicalmente da Eucaristia, mas nossa vida não muda e a vida da comunidade também não, cabe perguntar se o que celebramos é, de fato, a Ceia do Senhor ou uma deturpação fast-food” (Calvani, Carlos Eduardo – Eucaristia e Eclesiologia – Revista Inclusividade nº14).
O “Documento Bem” organizado pelo comitê Fé e Constituição diz que: “A Igreja recebe a eucaristia como um presente do Senhor!” Segundo Ramacés Hartwig, este presente é a continuação de todo o “trabalho de Deus na criação”(Gn 1 e 2) que culmina com a encarnação do Filho de Deus, Jesus Cristo, Senhor da Igreja e autor da nossa salvação. Por isso a Eucaristia recebe muitos nomes, por exemplo: Ceia do Senhor, Última Ceia, partilha do pão, Eucaristia, (Santa) Comunhão, (Divina) Liturgia, (Santa) Missa etc. Ele diz ainda que: “Esta celebração é o ato central da adoração da Igreja” (Revista Inclusividade, nº 9).
Portanto, sendo a Eucaristia “presente de Deus” ela oferece “livre acesso ao Verdadeiro Presente” (Jesus Cristo) cujo memorial (anamnesis) implica na Presença Real do Senhor através dos elementos (pão e vinho) sob a invocação (epiclesis) do Espírito Santo.
Quando a Igreja celebra o “banquete de Deus” antecipa os sinais do seu Reino. Traz para o momento presente a realidade que transforma os cristãos em imagem de Cristo tornando-os suas testemunhas. Por isso ao fim da Celebração eucarística a Igreja é enviada “em paz para testemunhar o Evangelho e a servir com alegria e no poder do Espírito Santo”.
São intimados a testemunharem e a irem como missionários a transformar ambientes e transformar “os reinos deste mundo no Reino do Senhor Jesus Cristo”. “Ide, pois, sede corajosos e fortes na proclamação do Evangelho, no poder do Espírito Santo” (Oração Eucarística A, pág. 83 do Livro de oração Comum). O universo eucarístico se apresenta aberto para o Reino, o Reino onde finalmente a Eucaristia se completa.
Conclusão
As nossas comunidades reunidas em torno do altar para celebrar o memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus precisam despertar para o sentido amplo do compromisso que este sacramento exige, pois quando celebramos, nos tornamos um com Ele e entendemos qual a nossa missão: ser sal da terra.
Se o Sacrifício não impele as nossas comunidades a ser sal da terra, não nos impele a acolher a Palavra e a torná-la viva entre nós, é sinal de que precisamos rever o modo como estamos celebrando a festa, pois a celebração deve atrair todos a Jesus em torno da mesma mesa.
Precisamos de liturgias vivas, festivas, animadas, que exaltem, sobretudo, o significado daquilo que celebramos no altar. Precisamos animar o povo de Deus e despertá-los para que nossas celebrações se tornem momento prazeroso e que alimentados com a Palavra viva e o pão descido do céu, saiamos melhores do que quando entramos. Dispostos, de verdade, a vivermos o que ouvimos e vimos.
A Eucaristia e o Cordeiro imolado para a nossa salvação não podem ser entendidos sem referência ao “último dia”, ao “dia do Senhor”, à parusia e à instauração do Reino de Deus. Com as palavras de Cirilo de Alexandria, “a Eucaristia não é somente e simplesmente “celebração de um tremendo sacrifício”, mas “dom de imortalidade e penhor de vida eterna”.
Bibliografia
Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus. 5ª impressão, 2008.
Bíblia Ave Maria, 129ª. São Paulo: Editora Ave Maria
BROUARD, Maurice – Eucharistia: enciclopédia da eucaristia. São Paulo: Paulus, 2006.
CALVANI, Carlos Eduardo – Eucaristia e Eclesiologia in Revista Teológica do Centro de Estudos Anglicanos – (Inclusividade), Nº 14. Porto Alegre: CEA, 2007.
GONÇALVES, Humberto Maiztegui – Origens e bases bíblicas da Eucaristia in Revista Teológica do Centro de Estudos Anglicanos – (Inclusividade), Nº 14. Porto Alegre: CEA, 2007.
HARTWIG, Ramacés – Eucaristia: Mistério de Deus in Revista Teológica do Centro de Estudos Anglicanos – (Inclusividade), Nº 9. Porto Alegre: CEA, 2004.
IEAB – Livro de Oração Comum - (LOC), p 68,80,85-91. Porto Alegre: Editora Gráfica Metrópole S.A,1988.
PEREIRA, ADÃO - Liturgia Anglicana, Um breve comentário ao Livro de Oração Comum. 2ª edição.
VV.AA - Eucaristia na Bíblia in Cadernos Bíblicos. São Paulo: Paulus: 1985.
VV.AA - Evangelho e Reino de Deus in Cadernos Bíblicos. São Paulo: Paulus, 1985.
ZIZOULAS, Ioannis – Eucaristia e Reino de Deus. Florianópolis: Mundo e Missão, 1994
Espaço dedicado às publicações científicas dos seminaristas e professores do Centro Anglicano de Estudos Teológicos de Santos - MOVIMENTO ANGLICANO NO BRASIL contato: (55 13) 32374327 / e-mail: igrejaanglicanadesantos@gmail.com
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sexta-feira, 20 de maio de 2011
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Reflexões sobre o Diaconato permanente (Reginaldo Marcelo)
Reginaldo Marcelo
Reflexões sobre o Diaconato permanente
Instituto Anglicano de Estudos Teológicos – IAET
2008
Introdução
Servir ao mundo é a tarefa primordial da igreja de Jesus Cristo. Rev Triana afirma em seu texto apresentado no Jornada teológica do IAET – 2008 – “Espiritualidade, Missão e Diakonia” que: a diaconia é a própria identidade da igreja e que se é discípulo ou discípula na medida em que se é servidor ou servidora e por isso, toda a tarefa de dedicação ao evangelho é diaconia, desde a missão, até a edificação e o cuidado da comunidade.
Para a igreja cumprir sua tarefa diaconal, Deus chama a todos os/as batizados/as, sem distinção de sexo ou etnia, para resgatar a humanidade e criação da escravidão e da morte e assim conceder vida em abundância.
Mesmo vocacionando a todos/ as batizados/as em sua tarefa de servir ao mundo, a Igreja ordena em nome de Cristo, pela invocação do Espírito Santo e imposição de mãos, alguns de seus membros para exercer os ministérios de Bispo/a, Presbítero/a e Diácono/a, estes são servos/as entre os servos/as. “Este, como todos os outros, é um ministério no serviço de Deus, e no serviço da igreja, corpo de Cristo. É um ministério chamado por Deus por causa de sua igreja, ‘para preparar o povo de Deus para o serviço cristão, a fim de construir o corpo de Cristo’ (Ef 4.13)” ( O Ministério Cristão – Guia de Estudos – ASTE, p.18).
Dentre os três ministérios ordenados, esse trabalho terá o humilde papel de refletir sobre o Diaconato, pois a Igreja, o mundo e humanidade têm a necessidade de pessoas que sintam-se chamadas para esse ministério em caráter permanente. Deve-se trazer à memória que esta Ordem (a diaconal) exerce as funções de servir aos pobres, desvalidos, doentes e solitários, como se fazendo ao próprio Cristo, ao bispo/a e presbítero/a, ler o Evangelho nas celebrações eucarísticas, servir as mesas, batizar e “exercer qualquer outro ofício sob o cuidado e orientação do/a bispo/a ou presbitério/a” (LOC – 1950 .p.533).
Para efetuarmos a tarefa reflexiva, dividiremos este trabalho da seguinte maneira:
- Todos/as os/as são chamados a servir: Este tópico procuraremos demonstrar que todas as pessoas que receberam o santo batismo são chamadas por Deus e sua Igreja para aplicar seus dons em forma de ministérios em prol de toda a Igreja, humanidade e mundo.
- A Igreja ordena alguns membros para o Santo Ministério: Nessa parte, procuraremos lembrar que todos os batizados são vocacionados, porém alguns membros são ordenados com imposição de mãos
- As ordens reconhecidas pela IEAB: Nesse item demonstraremos quais são as ordens reconhecidas pela IEAB, a saber: Bispo/a, Presbítero/a e Diácono/a;
- O diaconato no Atos dos Apóstolos: Trabalharemos o capítulo sexto dos Atos dos Apóstolos e a disputa entre os de fala grega e aramaica, porque as viúvas dos primeiros não eram atendidas em suas necessidades e assim a Assembléia Geral reunida escolheu sete homens para servir as mesas.
- Quais as funções e deveres do Diácono/a Permanente: A partir da Didaqué e do Rito Anglicano para a Ordenação ao Diaconato tentaremos pensar quais são as funções e deveres do diácono;
- Quais os ministérios específicos que o Diácono Permanente pode desenvolver: Nesse item procuraremos elencar quais são os ministérios específicos que o diácono/a pode desenvolver.
Procuramos embasar a maior parte de nossa pesquisa, em referências bibliográficas anglicanas e ecumênicas, assim como em autores anglicanos.
Todos os batizados são chamados a servir (exercer ministérios)
Todas as pessoas que receberam o Santo Batismo são chamadas a servir ao próximo com seus dons e tem a oportunidade de se colocar a serviço da Santa Igreja para exercer ministérios. Leandro Antunes Campos, clérigo anglicano na cidade de Santos – SP, em sua Monografia de conclusão do curso de teologia: Ministério do/a Diácono/a : “Na perspectiva do ordinal do Livro de Oração Comum”, citando o Relatório de Virgínia, afirma:
A todos aqueles que são batizados na vida de Deus e buscam viver em suas vidas o chamado como membros da Comunhão Anglicana é dado o carisma do Espírito Santo para a vida em comunhão e para o serviço dos outros. A vocação do povo Laos, é exercitada em um amplo contexto de vida social e pública na sociedade civil, no trabalho, no lazer dentro da família, assim como dentro da vida da comunidade da Igreja. Em virtude do batismo, todos os membros são chamados a confessar sua fé e prestar conta de sua esperança no que fazem e dizem (p.3)
A igreja ordena alguns membros para o Santo Ministério
A igreja reconhece que todos os batizados são vocacionados para o serviço (Diaconia), porém ela ordena alguns de seus membros para o ministério: em nome de Cristo, pela invocação do Espírito e imposição das mãos. É importante salientar que o chamado é para todos e todas, pois a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil ordena homens e mulheres para as Sagradas Ordens, por acreditar que Deus não faz acepção de pessoas seja relativo a sexo, etnia ou inclinação sexual. Os Cânones Gerais da IEAB atestam: “Todos os cânones que mencionarem as ordens de ministério passam a incluir homens e mulheres” (Capítulo V, Cânon 2, artigo 1º, Cânones Gerais - 2000).
As ordens reconhecidas pela IAEB
O Novo Testamento não descreve uma única forma de ministério que deveria servir como norma duradoura para todo o ministério futuro da Igreja, pois no Novo Testamento aparece uma variedade de formas que existiam em diferentes lugares e tempos, porém durante os séculos II e III a igreja estabeleceu o tríplice ministério ordenado, do quais a IEAB aceita em seu seio: O Bispo, o Presbítero e o Diácono/a, cada um desempenhando uma função fundamental para que a comunidade de fé responda ao chamado de Cristo: O Relatório de Virgínia apresenta para os papéis desempenhados por cada um deles
O chamado de um bispo é para representar Cristo e a sua Igreja, especialmente como apóstolo, sacerdote líder, professor e pastor de uma diocese, para guardar a fé, unidade e disciplina de toda a Igreja, para proclamar a palavra de Deus, agir em nome de Cristo para a reconciliação do mundo e a construção da igreja e ordenar outros para continuar o ministério de Cristo.
O chamado de um sacerdote ou presbítero é para representar Cristo e sua Igreja, especialmente como pastor para o povo, compartilhar com os bispos a supervisão da Igreja, proclamar o Evangelho, ministrar os sacramentos e abençoar e declarar perdão em nome de Deus.
O chamado de um Diácono/a é para representar Cristo e sua Igreja, especialmente como servo daqueles que necessitam, ajudar bispos e sacerdotes na proclamação do Evangelho e no ministérios dos sacramentos. (p.18)
O Relatório de Virgínia ainda afirma que o ministério ordenado é exercido com, em e entre todo o povo de Deus (p.18). É importante lembrar que os ministros ordenados são servos/as entre os/as servos/as.
Diaconato Permanente
Nesse trabalho queremos ressaltar o papel específico do diaconato permanente, pois há necessidade de pessoas que desejem servir a Santa Igreja, a sociedade civil, os doentes e desfavorecidos como Diácono/as permanentes.
Muitas vezes, o diaconato tem sido visto simplesmente como um trampolim para o presbiterato, o que descaracteriza o papel do Diácono/a, visto que há uma carência de pessoas com esse perfil para servir o mundo em amor caridoso, misericórdia e assim apresentar um Deus que realmente preocupa-se e age em prol do ser humano.
O diaconato nasceu porque os necessitados, nesse caso viúvas, estavam sendo esquecidas no atendimento diário (na distribuição diária de dinheiro - NTLH).
O diaconato no Atos dos Apóstolos
O capítulo sexto de Atos dos Apóstolos é palco de uma disputa que se desenvolveu na Igreja de Jerusalém entre os cristãos de origem grega e os de origem hebraica. Os primeiros queixavam-se que as viúvas de seu grupo estavam sendo esquecidas no atendimento diário e não supridas em suas necessidades, porém a controvérsia pode ser maior do que aparenta.
Segundo Leandro Campos
(…) parece tratar de um simples problema social, os recursos não estavam sendo distribuídos de maneira justa. Mais profundamente, é possível que se veja nessa história que algo mais importante do que um almoço grátis, está em questão. A estas refeições eram incluídas algumas leituras e ensinamentos, portanto, a conversão era crucial para as viúvas de fala grega.
Diante do problema de organização interna, os Doze convocam uma assembléia geral para examinar a questão e chegar a uma decisão plausível e tornar suficiente a partilha dos bens em favor das viúvas. Os apóstolos estavam apreensivos, porque perceberam que a sua prioridade era ministério da Palavra, ou seja, deviam viajar, pregar e batizar para que o amor de Deus, expresso em Jesus Cristo chegasse ao maior número de pessoas.
Para resolver o conflito, a Assembléia Geral escolheu sete homens “de boa fama, repletos do Espírito Santo e de Sabedoria” (At 6.3). Estes sete primeiros diáconos tinham a função de “servir às mesas” ou seja atender as necessidades daquelas viúvas. O que segundo Leandro A. Campos “podia muito bem significar não apenas a refeição, mas também o anúncio das boas novas, da palavra que era pregada nas reuniões públicas, da partilha na oração e no entendimento da fé” . Os textos de Atos dizem que Estevão, o primeiro mártir cristão, pregava “fazia grandes prodígios e sinais entre o povo” (At 6.8) e Filipe explicou as Escrituras para o Eunuco e logo depois o batizou.
É fundamental lembrar que Diácono vem da palavra grega Diakonos, que significa um servo ou ajudante, o que se aplica ao Diácono/a ordenado pela Santa Igreja com imposição das mãos, pois ele tem inerente a si a função de auxiliar o bispo ou presbítero e servir ao mundo com seu ministério.
Quais as funções e deveres do Diácono/a permanente
A Didaqué, texto compilado entre os anos 90-100, na Síria, na Palestina ou em Antioquia, estabelece algumas diretrizes para a escolha do bispo e diácono: “escolhei-vos, pois, bispos e diáconos dignos do Senhor, homens dóceis, desprendidos, verazes e firmes, pois eles também exercerão entre vós a liturgia dos profetas e doutores”
Encontramos no Rito Anglicano para a Ordenação ao Diaconato, as funções e deveres do Diácono/a, os quais ele/a se comprometem, diante de Deus e da congregação presente, a cumprir. Com o rito de ordenação e a imposição das mãos do bispo e a invocação trinitária, o Diácono/a recebe a bênção de Deus, da Igreja e comunidade para exercer seu ofício.
A parte do Exame Canônico para a ordenação ao Diaconato onde o bispo/a interroga o ordinando discursa:
Bispo N., todo cristão/cristã é chamado/a a seguir a Jesus Cristo, servindo a Deus, o Pai, mediante o poder do Espírito Santo, Deus agora te chama para um ministério especial de serviço, sob a orientação do te Bispo. Em nome de Jesus, deves servir a todos, particularmente os pobres, os fracos, os doentes e os solitários. Como Diácono/a na Igreja, deves estudar as Santas Escrituras, buscando nelas inspiração e orientação para a tua vida. Deves tornar conhecido o amor redentor de Cristo, por tua palavra e exemplo, entre aqueles com quem convives, trabalhas e adoras. Deves interpretar à Igreja as necessidades, preocupações e esperanças do mundo. Hás de colaborar com o Bispo e os presbíteros na adoração pública e na ministração da Palavra de Deus e dos sacramentos e exercerás outras funções a ti atribuídas, de tempos em tempos. Constantemente tua vida e ensino demonstrarão ao povo de Cristo que, em servindo aos desamparados, estás servindo ao próprio Cristo.
N., crês que estás sendo verdadeiramente chamado por Deus e sua Igreja a viver a vida e a obra de um Diácono/a?
Ordinando/a: Nesta persuasão estou.
Bispo: Agora, na presença da Igreja, te comprometes a cumprir com este dever e responsabilidade?
Ordinando/a: Sim, eu me comprometo
Bispo: Respeitarás e serás guiado pela orientação pastoral de teu Bispo?
Ordinando/a: Assim o farei, ajudando-me o Senhor.
Bispo: Serás assíduo na oração, na leitura e no estudo das Sagradas Escrituras?
Ordinando/a: Assim o farei, ajudando-me o Senhor.
Bispo: Procurarás sentir a presença de Cristo nos outros, dispondo-te a ajudar e servir aos necessitados?
Ordinando/a: Assim o farei, com a ajuda de Deus
Bispo: Procurarás, da melhor forma possível, moldar a tua vida e a de tua família de acordo com os ensinamentos de Cristo, de modo que sejas um exemplo salutar para o povo de Deus?
Ordinando/a: Assim procurarei, ajudando-me o Senhor.
Bispo: Procurarás, em tudo, não a tua glória, mas a glória do Senhor Jesus Cristo?
Ordinando/a: Assim o farei, com o auxílio de Deus.
Bispo: Que o Senhor, pela sua graça, te sustente no serviço que Ele te confia.
Ordinando/a: Amém.
O Exame Canônico para a Ordenação ao Diaconato demonstra as funções, deveres e atributos do ordenando ao diaconato: Servidor ao desamparado e fraco, submisso ao Bispo e Presbítero/a, assíduo na oração e estudioso das Sagradas Escrituras, assim ele deve:
Servir com sua vida a Santíssima Trindade;
Ser orientado pelo Bispo;
Servir a todos, particularmente os pobres, os fracos, os doentes e os solitários;
Estudar as Sagradas Escrituras para buscar orientação e inspiração para sua vida;
Pregar a Palavra de Deus, tornando conhecido o amor redentor de Cristo, por palavra e exemplo;
Colaborar com o bispo e os presbíteros na adoração pública, ministração da Palavra de Deus e Sacramentos;
Exercer outras funções que porventura possam ser atribuídas;
Servir aos desamparados como ao próprio Cristo.
Moldar a própria vida e da família de acordo com os ensinamentos de Cristo.
O Bispo e o Presbítero não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo e nem agir em todos os segmentos, tornando assim o papel do diaconato permanente fundamental para o bom andamento da comunidade de fé.
Quais os ministérios específicos que o Diácono Permanente pode desenvolver
Em uma sociedade opressora, a Igreja é chamada a ser testemunho de Cristo que está entre nós como quem serve. É nesse contexto que o Diácono/a Ordenado Permanente pode exercer seu ministério de servir a todos, particularmente os pobres, os fracos, os doentes e os solitários, pois
Los diaconos representan en el seno de la Iglesia su vocácion de servidora en el mundo. Sosteniendo en nombre de Cristo un combate entre las innumerables necessidades de la sociedade y de las personas, los diáconos dan ejemplo de la interdependencia del culto y y del servicio en la vida de la Iglesia. Ejercen una responsabilidad en el culto de la comunidade. (Bautismo, Eucaristia, Ministério)
É importante ressaltar que os ministérios desenvolvidos surgem em respostas às necessidades locais e históricas do qual o Diácono/a está inserido. A Partilha teológica nº 7 sobre O Ministério do Diaconato, realizado em Brasília – DF em maio de 1998 afirma que os ministérios diaconais surgiram em resposta às necessidades específicas de nossas sociedades e que são frequentemente expressões de realidades particulares históricas e culturas. Enquanto liamos esse trecho passava por nossa mente: Quais os ministérios específicos, conforme a necessidade, o Diácono/a permanente pode desenvolver dentro de nosso contexto histórico, além daqueles já previstos: o de ser um auxiliar do Bispo ou Presbitérios/as e cumprir suas funções litúrgicas, como por exemplo: ler as Escrituras, batizar, pregar e distribuir os elementos da Eucaristia?
Procuramos logo a seguir elencar alguns deles, mas tendo consciência que não são definitivos, porque, segundo a necessidade local e histórica, podem surgir outros:
- Ministério junto aos Sofredores de Rua: Esse é um ministério do Diácono/a Permanente que reside nas cidades, pois num mundo excludente centenas de pessoas, por motivos variados acabam por encontrar nas ruas sua morada. A ação se faz necessária para levar conforto espiritual e material para aqueles que estão sem um teto para morar.
- Ministério da Educação: Em um país onde ainda há analfabetos e crianças com dificuldades de leitura e interpretação de textos e portanto excluídos, a atuação do Diácono/a Permanente pode ser primordial para diminuir esses índices com programas de alfabetização e reforço escolar.
- Ministério junto às mulheres vítimas de violência: Em nossa sociedade dezenas de mulheres são vítimas de violência. A maioria dos casos são maridos que espancam suas mulheres, outras vezes patrões que assediam suas empregadas. A atuação da Igreja através do Diácono/a Permanente é fundamental, pois ele/a pode atuar levando conforto espiritual e psicológico, além de orientar essas mulheres quanto aos seus direitos legais.
Ministério junto aos encarcerados: O Sistema Penitenciário Brasileiro é um depósito humano que deveria ter a função de recuperar seus presos, mas não o faz. Há cadeias superlotadas, com condições subumanas de vida e verdadeiras “escolas do crime”. A atuação do Diácono/a Permanente pode ser no sentido levar conforto espiritual, psicológico e encaminhamento legal.
Além desses, a ação da Igreja é necessária em defesa do meio ambiente, da criança e adolescente, dos animais, etc.
A partilha nº 07 sobre o Ministério Diaconal nos alerta sobre questões fundamentais quanto a atuação da Igreja na diaconia social e política:
1ª - A Igreja não está suplementando deficiências do Estado, mas sim atuando como proclamadora do Reino de Deus mediante gestos significativos, gestos expressivos do carinho de Deus que ampara e reconstrói pessoas e julga o pecado do mundo. Exatamente como fez Jesus em sua atuação em favor do enfermos, marginalizados, dos empobrecidos e dos abatidos e por esses sinais anuncia-se de maneira palpável um novo mundo possível. São sinais proféticos. A diaconia do Reino é essencialmente profética. Ao agir em prol dessas pessoas em nome de Jesus, a Igreja ajuda a fazer a passagem da escravidão à liberdade, da alienação à humanização; e assim já está sendo agente portadora da boa-nova que restaura e transforma.
2ª - Há um perigo a ser reconhecido no sentido de que tais ministérios podem tornar-se locais onde grupos marginalizados podem ser isolados e confinados. Os ministérios diaconais com um foco específico não devem ser estruturados de modo que reforce estereótipos opressivos. A ação diaconal, que anteriormente está identificado com um grupo deve estar abertos para outros. Por exemplo, as formas de atuação consideradas apropriadas as mulheres podem ser adequadas também para os homens, que porventura sofram situações de violência.
conclusão
No corpo desse trabalho afirmamos que a igreja existe para servir a Deus, a humanidade e ao mundo. Faz parte da própria identidade da Igreja exercer diaconia. Eu vim para servir disse Jesus (Mt 20.28), ou ainda, eu estou entre vocês como aquele que serve (Lc 22.27). Os cristãos e cristãs são servos uns dos outros e de todos o encontrados pelo caminho. É interessante que os próprios discípulos têm dificuldade para entender que o maior é aquele que serve. Ao vocacionar seu povo para o serviço diaconal, Deus quer que sua Igreja cresça e se desenvolva em amor.
Mesmo reconhecendo que todos e todas são chamados a servir a Deus e ao próximo, a igreja ordena alguns de seus membros para o Santo Ministério em nome de Cristo, pela invocação do Espírito Santo e imposição das mãos. Lemos em Efésios que “Deus escolheu alguns para serem apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e ainda outros para pastores e mestres… a fim de construir o corpo de Cristo (Ef 4.11-12).
A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil reconhece o tríplice ministério ordenado: O/A Bispo/a, o/a presbítero/a e o/a diácono/a. Cada um exercendo uma função, para que a Igreja seja verdadeiramente diaconal, porém, é fundamental trazer a mente que todos eles/as são diáconos/as e servem a Deus e ao próximo.
Dentre os ministérios ordenados, o papel do diácono é o que mais recorda a vocação da Igreja servidora. A Partilha de nº 07 afirma que:
na prática da Igreja antiga, diáconos e diaconisas são encarregados, em nome da Igreja, de prestar socorro aos pobres e abandonados, de levar-lhes o consolo da Igreja como resposta a suas necessidades, e de trazer para o interior da Igreja o lamento dos pobres, para despertar sua consciência e ação”
É no contexto de uma sociedade opressora que a ação do diácono se faz necessária, pois além de servir aos bispos e presbíteros, às mesas, batizar, pregar… ele/a deve servir ao mundo e a humanidade, como se servisse ao próprio Cristo (Mt 25.35-40). Em seu trajeto encontrará os pobres, desamparados, solitários, oprimidos. O diácono/a deve ser visto como aquele/a que tem um ministério junto aos que sofrem os atos de uma sociedade injusta, cruel, que necessita da presença renovadora da Igreja, esta é luz (indica a direção) e sal (dá sabor, sentido para a vida).
O Rev. Leandro lembra que:
O Diácono é um símbolo vivo para a igreja e o mundo. A ordem diaconal é a presença do próprio Jesus que veio entre nós para servir e não para ser servido.
Outro ponto importante é que o diaconato não pode ser visto como um simples trampolim para o presbiterato, mas como ministério específico, o servidor das mesas, por essa razão, a Igreja tem a necessidade de pessoas que sintam-se chamadas para o diaconato permanente, e exerçam seu ministério junto aos sofredores de rua, mulheres vítimas de violência, encarcerados e na defesa do meio ambiente, da criança e adolescente, dos animais, etc. A diversidade de necessidades são imensas.
Seja qual for o campo de sua ação, o diácono permanente deve “compreender que a humanidade inteira vive escravizada e que a finalidade da ação de Deus em Cristo é libertá-las dessas cadeias” (O Ministério Cristão – ASTE .p.21).
Há uma necessidade do reavivamento da figura e papel do diácono. Por essa razão:
Nossa diocese e Província é chamada a retomar com todo o vigor a discussão sobre o Ministério do Diaconato (…).
Escolas Diaconais Diocesanas, encontros diocesanos/provinciais regulares dos Diáconos/as, e o reconhecimento dos diversos ministérios diaconais ordenados e não ordenados, mas presentes na igreja que a enriquecem tornando-a uma Presença Libertadora na sociedade e no mundo – à imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo. (CAMPOS, Leandro Antunes, Ministério do/a Diácono/a na Perspectiva do Livro de Oração Comum).
referências bibliográficas
BAUTISMO, EUCARISTIA, MINISTÉRIO, Convergencias doctrinales en el seno del Consejo Ecuménico de las Iglesias, Ediciones de La Facultad de Teologia de Barcelona,s/d.
CAMPOS, Leandro Antunes, Ministério do/a Diácono/a na Perspectiva do Livro de Oração Comum, Monografia, UMESP, 2007.
CÂNONES GERAIS DA IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, 2000.
DIDAQUÉ, Catecismo dos Primeiros Cristãos, 4ª Ed. VOZES, Petropólis, 1983
DIACONATO NO BRASIL, Teologia e Orientações pastorais, Estudos da CNBB, Edições Paulinas,1988
IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL, Livro de Oração Comum: Porto Alegre, 1950.
O MINISTÉRIO CRISTÃO, Guia de Estudos, ASTE, São Paulo, 1979.
O MINISTÉRIO DO DIACONATO, IEAB, Centro de Estudos Anglicanos, Partilha Teológica nº 07, Brasília, 1998.
RELATÓRIO DE VIRGÍNIA, Comissão Inter-Anglicana de Teologia e Doutrina, Igreja Episcopal do Brasil.
TRIANA, Pedro, Missão, Evangelização e diakonia, Palestra apresentada na Jornada teológica do IAET, 11-13 de julho de 2008. Casa Provincial La Salle. Site do CEA.
UM SÓ BAPTISMO, UMA SÓ EUCARISTIA E UM SÓ MINISTÉRIO RECONHECIDOS, Documento da Comissão de Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas, Documento nº 73, Genebra – Suiça, 1975
Reflexões sobre o Diaconato permanente
Instituto Anglicano de Estudos Teológicos – IAET
2008
Introdução
Servir ao mundo é a tarefa primordial da igreja de Jesus Cristo. Rev Triana afirma em seu texto apresentado no Jornada teológica do IAET – 2008 – “Espiritualidade, Missão e Diakonia” que: a diaconia é a própria identidade da igreja e que se é discípulo ou discípula na medida em que se é servidor ou servidora e por isso, toda a tarefa de dedicação ao evangelho é diaconia, desde a missão, até a edificação e o cuidado da comunidade.
Para a igreja cumprir sua tarefa diaconal, Deus chama a todos os/as batizados/as, sem distinção de sexo ou etnia, para resgatar a humanidade e criação da escravidão e da morte e assim conceder vida em abundância.
Mesmo vocacionando a todos/ as batizados/as em sua tarefa de servir ao mundo, a Igreja ordena em nome de Cristo, pela invocação do Espírito Santo e imposição de mãos, alguns de seus membros para exercer os ministérios de Bispo/a, Presbítero/a e Diácono/a, estes são servos/as entre os servos/as. “Este, como todos os outros, é um ministério no serviço de Deus, e no serviço da igreja, corpo de Cristo. É um ministério chamado por Deus por causa de sua igreja, ‘para preparar o povo de Deus para o serviço cristão, a fim de construir o corpo de Cristo’ (Ef 4.13)” ( O Ministério Cristão – Guia de Estudos – ASTE, p.18).
Dentre os três ministérios ordenados, esse trabalho terá o humilde papel de refletir sobre o Diaconato, pois a Igreja, o mundo e humanidade têm a necessidade de pessoas que sintam-se chamadas para esse ministério em caráter permanente. Deve-se trazer à memória que esta Ordem (a diaconal) exerce as funções de servir aos pobres, desvalidos, doentes e solitários, como se fazendo ao próprio Cristo, ao bispo/a e presbítero/a, ler o Evangelho nas celebrações eucarísticas, servir as mesas, batizar e “exercer qualquer outro ofício sob o cuidado e orientação do/a bispo/a ou presbitério/a” (LOC – 1950 .p.533).
Para efetuarmos a tarefa reflexiva, dividiremos este trabalho da seguinte maneira:
- Todos/as os/as são chamados a servir: Este tópico procuraremos demonstrar que todas as pessoas que receberam o santo batismo são chamadas por Deus e sua Igreja para aplicar seus dons em forma de ministérios em prol de toda a Igreja, humanidade e mundo.
- A Igreja ordena alguns membros para o Santo Ministério: Nessa parte, procuraremos lembrar que todos os batizados são vocacionados, porém alguns membros são ordenados com imposição de mãos
- As ordens reconhecidas pela IEAB: Nesse item demonstraremos quais são as ordens reconhecidas pela IEAB, a saber: Bispo/a, Presbítero/a e Diácono/a;
- O diaconato no Atos dos Apóstolos: Trabalharemos o capítulo sexto dos Atos dos Apóstolos e a disputa entre os de fala grega e aramaica, porque as viúvas dos primeiros não eram atendidas em suas necessidades e assim a Assembléia Geral reunida escolheu sete homens para servir as mesas.
- Quais as funções e deveres do Diácono/a Permanente: A partir da Didaqué e do Rito Anglicano para a Ordenação ao Diaconato tentaremos pensar quais são as funções e deveres do diácono;
- Quais os ministérios específicos que o Diácono Permanente pode desenvolver: Nesse item procuraremos elencar quais são os ministérios específicos que o diácono/a pode desenvolver.
Procuramos embasar a maior parte de nossa pesquisa, em referências bibliográficas anglicanas e ecumênicas, assim como em autores anglicanos.
Todos os batizados são chamados a servir (exercer ministérios)
Todas as pessoas que receberam o Santo Batismo são chamadas a servir ao próximo com seus dons e tem a oportunidade de se colocar a serviço da Santa Igreja para exercer ministérios. Leandro Antunes Campos, clérigo anglicano na cidade de Santos – SP, em sua Monografia de conclusão do curso de teologia: Ministério do/a Diácono/a : “Na perspectiva do ordinal do Livro de Oração Comum”, citando o Relatório de Virgínia, afirma:
A todos aqueles que são batizados na vida de Deus e buscam viver em suas vidas o chamado como membros da Comunhão Anglicana é dado o carisma do Espírito Santo para a vida em comunhão e para o serviço dos outros. A vocação do povo Laos, é exercitada em um amplo contexto de vida social e pública na sociedade civil, no trabalho, no lazer dentro da família, assim como dentro da vida da comunidade da Igreja. Em virtude do batismo, todos os membros são chamados a confessar sua fé e prestar conta de sua esperança no que fazem e dizem (p.3)
A igreja ordena alguns membros para o Santo Ministério
A igreja reconhece que todos os batizados são vocacionados para o serviço (Diaconia), porém ela ordena alguns de seus membros para o ministério: em nome de Cristo, pela invocação do Espírito e imposição das mãos. É importante salientar que o chamado é para todos e todas, pois a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil ordena homens e mulheres para as Sagradas Ordens, por acreditar que Deus não faz acepção de pessoas seja relativo a sexo, etnia ou inclinação sexual. Os Cânones Gerais da IEAB atestam: “Todos os cânones que mencionarem as ordens de ministério passam a incluir homens e mulheres” (Capítulo V, Cânon 2, artigo 1º, Cânones Gerais - 2000).
As ordens reconhecidas pela IAEB
O Novo Testamento não descreve uma única forma de ministério que deveria servir como norma duradoura para todo o ministério futuro da Igreja, pois no Novo Testamento aparece uma variedade de formas que existiam em diferentes lugares e tempos, porém durante os séculos II e III a igreja estabeleceu o tríplice ministério ordenado, do quais a IEAB aceita em seu seio: O Bispo, o Presbítero e o Diácono/a, cada um desempenhando uma função fundamental para que a comunidade de fé responda ao chamado de Cristo: O Relatório de Virgínia apresenta para os papéis desempenhados por cada um deles
O chamado de um bispo é para representar Cristo e a sua Igreja, especialmente como apóstolo, sacerdote líder, professor e pastor de uma diocese, para guardar a fé, unidade e disciplina de toda a Igreja, para proclamar a palavra de Deus, agir em nome de Cristo para a reconciliação do mundo e a construção da igreja e ordenar outros para continuar o ministério de Cristo.
O chamado de um sacerdote ou presbítero é para representar Cristo e sua Igreja, especialmente como pastor para o povo, compartilhar com os bispos a supervisão da Igreja, proclamar o Evangelho, ministrar os sacramentos e abençoar e declarar perdão em nome de Deus.
O chamado de um Diácono/a é para representar Cristo e sua Igreja, especialmente como servo daqueles que necessitam, ajudar bispos e sacerdotes na proclamação do Evangelho e no ministérios dos sacramentos. (p.18)
O Relatório de Virgínia ainda afirma que o ministério ordenado é exercido com, em e entre todo o povo de Deus (p.18). É importante lembrar que os ministros ordenados são servos/as entre os/as servos/as.
Diaconato Permanente
Nesse trabalho queremos ressaltar o papel específico do diaconato permanente, pois há necessidade de pessoas que desejem servir a Santa Igreja, a sociedade civil, os doentes e desfavorecidos como Diácono/as permanentes.
Muitas vezes, o diaconato tem sido visto simplesmente como um trampolim para o presbiterato, o que descaracteriza o papel do Diácono/a, visto que há uma carência de pessoas com esse perfil para servir o mundo em amor caridoso, misericórdia e assim apresentar um Deus que realmente preocupa-se e age em prol do ser humano.
O diaconato nasceu porque os necessitados, nesse caso viúvas, estavam sendo esquecidas no atendimento diário (na distribuição diária de dinheiro - NTLH).
O diaconato no Atos dos Apóstolos
O capítulo sexto de Atos dos Apóstolos é palco de uma disputa que se desenvolveu na Igreja de Jerusalém entre os cristãos de origem grega e os de origem hebraica. Os primeiros queixavam-se que as viúvas de seu grupo estavam sendo esquecidas no atendimento diário e não supridas em suas necessidades, porém a controvérsia pode ser maior do que aparenta.
Segundo Leandro Campos
(…) parece tratar de um simples problema social, os recursos não estavam sendo distribuídos de maneira justa. Mais profundamente, é possível que se veja nessa história que algo mais importante do que um almoço grátis, está em questão. A estas refeições eram incluídas algumas leituras e ensinamentos, portanto, a conversão era crucial para as viúvas de fala grega.
Diante do problema de organização interna, os Doze convocam uma assembléia geral para examinar a questão e chegar a uma decisão plausível e tornar suficiente a partilha dos bens em favor das viúvas. Os apóstolos estavam apreensivos, porque perceberam que a sua prioridade era ministério da Palavra, ou seja, deviam viajar, pregar e batizar para que o amor de Deus, expresso em Jesus Cristo chegasse ao maior número de pessoas.
Para resolver o conflito, a Assembléia Geral escolheu sete homens “de boa fama, repletos do Espírito Santo e de Sabedoria” (At 6.3). Estes sete primeiros diáconos tinham a função de “servir às mesas” ou seja atender as necessidades daquelas viúvas. O que segundo Leandro A. Campos “podia muito bem significar não apenas a refeição, mas também o anúncio das boas novas, da palavra que era pregada nas reuniões públicas, da partilha na oração e no entendimento da fé” . Os textos de Atos dizem que Estevão, o primeiro mártir cristão, pregava “fazia grandes prodígios e sinais entre o povo” (At 6.8) e Filipe explicou as Escrituras para o Eunuco e logo depois o batizou.
É fundamental lembrar que Diácono vem da palavra grega Diakonos, que significa um servo ou ajudante, o que se aplica ao Diácono/a ordenado pela Santa Igreja com imposição das mãos, pois ele tem inerente a si a função de auxiliar o bispo ou presbítero e servir ao mundo com seu ministério.
Quais as funções e deveres do Diácono/a permanente
A Didaqué, texto compilado entre os anos 90-100, na Síria, na Palestina ou em Antioquia, estabelece algumas diretrizes para a escolha do bispo e diácono: “escolhei-vos, pois, bispos e diáconos dignos do Senhor, homens dóceis, desprendidos, verazes e firmes, pois eles também exercerão entre vós a liturgia dos profetas e doutores”
Encontramos no Rito Anglicano para a Ordenação ao Diaconato, as funções e deveres do Diácono/a, os quais ele/a se comprometem, diante de Deus e da congregação presente, a cumprir. Com o rito de ordenação e a imposição das mãos do bispo e a invocação trinitária, o Diácono/a recebe a bênção de Deus, da Igreja e comunidade para exercer seu ofício.
A parte do Exame Canônico para a ordenação ao Diaconato onde o bispo/a interroga o ordinando discursa:
Bispo N., todo cristão/cristã é chamado/a a seguir a Jesus Cristo, servindo a Deus, o Pai, mediante o poder do Espírito Santo, Deus agora te chama para um ministério especial de serviço, sob a orientação do te Bispo. Em nome de Jesus, deves servir a todos, particularmente os pobres, os fracos, os doentes e os solitários. Como Diácono/a na Igreja, deves estudar as Santas Escrituras, buscando nelas inspiração e orientação para a tua vida. Deves tornar conhecido o amor redentor de Cristo, por tua palavra e exemplo, entre aqueles com quem convives, trabalhas e adoras. Deves interpretar à Igreja as necessidades, preocupações e esperanças do mundo. Hás de colaborar com o Bispo e os presbíteros na adoração pública e na ministração da Palavra de Deus e dos sacramentos e exercerás outras funções a ti atribuídas, de tempos em tempos. Constantemente tua vida e ensino demonstrarão ao povo de Cristo que, em servindo aos desamparados, estás servindo ao próprio Cristo.
N., crês que estás sendo verdadeiramente chamado por Deus e sua Igreja a viver a vida e a obra de um Diácono/a?
Ordinando/a: Nesta persuasão estou.
Bispo: Agora, na presença da Igreja, te comprometes a cumprir com este dever e responsabilidade?
Ordinando/a: Sim, eu me comprometo
Bispo: Respeitarás e serás guiado pela orientação pastoral de teu Bispo?
Ordinando/a: Assim o farei, ajudando-me o Senhor.
Bispo: Serás assíduo na oração, na leitura e no estudo das Sagradas Escrituras?
Ordinando/a: Assim o farei, ajudando-me o Senhor.
Bispo: Procurarás sentir a presença de Cristo nos outros, dispondo-te a ajudar e servir aos necessitados?
Ordinando/a: Assim o farei, com a ajuda de Deus
Bispo: Procurarás, da melhor forma possível, moldar a tua vida e a de tua família de acordo com os ensinamentos de Cristo, de modo que sejas um exemplo salutar para o povo de Deus?
Ordinando/a: Assim procurarei, ajudando-me o Senhor.
Bispo: Procurarás, em tudo, não a tua glória, mas a glória do Senhor Jesus Cristo?
Ordinando/a: Assim o farei, com o auxílio de Deus.
Bispo: Que o Senhor, pela sua graça, te sustente no serviço que Ele te confia.
Ordinando/a: Amém.
O Exame Canônico para a Ordenação ao Diaconato demonstra as funções, deveres e atributos do ordenando ao diaconato: Servidor ao desamparado e fraco, submisso ao Bispo e Presbítero/a, assíduo na oração e estudioso das Sagradas Escrituras, assim ele deve:
Servir com sua vida a Santíssima Trindade;
Ser orientado pelo Bispo;
Servir a todos, particularmente os pobres, os fracos, os doentes e os solitários;
Estudar as Sagradas Escrituras para buscar orientação e inspiração para sua vida;
Pregar a Palavra de Deus, tornando conhecido o amor redentor de Cristo, por palavra e exemplo;
Colaborar com o bispo e os presbíteros na adoração pública, ministração da Palavra de Deus e Sacramentos;
Exercer outras funções que porventura possam ser atribuídas;
Servir aos desamparados como ao próprio Cristo.
Moldar a própria vida e da família de acordo com os ensinamentos de Cristo.
O Bispo e o Presbítero não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo e nem agir em todos os segmentos, tornando assim o papel do diaconato permanente fundamental para o bom andamento da comunidade de fé.
Quais os ministérios específicos que o Diácono Permanente pode desenvolver
Em uma sociedade opressora, a Igreja é chamada a ser testemunho de Cristo que está entre nós como quem serve. É nesse contexto que o Diácono/a Ordenado Permanente pode exercer seu ministério de servir a todos, particularmente os pobres, os fracos, os doentes e os solitários, pois
Los diaconos representan en el seno de la Iglesia su vocácion de servidora en el mundo. Sosteniendo en nombre de Cristo un combate entre las innumerables necessidades de la sociedade y de las personas, los diáconos dan ejemplo de la interdependencia del culto y y del servicio en la vida de la Iglesia. Ejercen una responsabilidad en el culto de la comunidade. (Bautismo, Eucaristia, Ministério)
É importante ressaltar que os ministérios desenvolvidos surgem em respostas às necessidades locais e históricas do qual o Diácono/a está inserido. A Partilha teológica nº 7 sobre O Ministério do Diaconato, realizado em Brasília – DF em maio de 1998 afirma que os ministérios diaconais surgiram em resposta às necessidades específicas de nossas sociedades e que são frequentemente expressões de realidades particulares históricas e culturas. Enquanto liamos esse trecho passava por nossa mente: Quais os ministérios específicos, conforme a necessidade, o Diácono/a permanente pode desenvolver dentro de nosso contexto histórico, além daqueles já previstos: o de ser um auxiliar do Bispo ou Presbitérios/as e cumprir suas funções litúrgicas, como por exemplo: ler as Escrituras, batizar, pregar e distribuir os elementos da Eucaristia?
Procuramos logo a seguir elencar alguns deles, mas tendo consciência que não são definitivos, porque, segundo a necessidade local e histórica, podem surgir outros:
- Ministério junto aos Sofredores de Rua: Esse é um ministério do Diácono/a Permanente que reside nas cidades, pois num mundo excludente centenas de pessoas, por motivos variados acabam por encontrar nas ruas sua morada. A ação se faz necessária para levar conforto espiritual e material para aqueles que estão sem um teto para morar.
- Ministério da Educação: Em um país onde ainda há analfabetos e crianças com dificuldades de leitura e interpretação de textos e portanto excluídos, a atuação do Diácono/a Permanente pode ser primordial para diminuir esses índices com programas de alfabetização e reforço escolar.
- Ministério junto às mulheres vítimas de violência: Em nossa sociedade dezenas de mulheres são vítimas de violência. A maioria dos casos são maridos que espancam suas mulheres, outras vezes patrões que assediam suas empregadas. A atuação da Igreja através do Diácono/a Permanente é fundamental, pois ele/a pode atuar levando conforto espiritual e psicológico, além de orientar essas mulheres quanto aos seus direitos legais.
Ministério junto aos encarcerados: O Sistema Penitenciário Brasileiro é um depósito humano que deveria ter a função de recuperar seus presos, mas não o faz. Há cadeias superlotadas, com condições subumanas de vida e verdadeiras “escolas do crime”. A atuação do Diácono/a Permanente pode ser no sentido levar conforto espiritual, psicológico e encaminhamento legal.
Além desses, a ação da Igreja é necessária em defesa do meio ambiente, da criança e adolescente, dos animais, etc.
A partilha nº 07 sobre o Ministério Diaconal nos alerta sobre questões fundamentais quanto a atuação da Igreja na diaconia social e política:
1ª - A Igreja não está suplementando deficiências do Estado, mas sim atuando como proclamadora do Reino de Deus mediante gestos significativos, gestos expressivos do carinho de Deus que ampara e reconstrói pessoas e julga o pecado do mundo. Exatamente como fez Jesus em sua atuação em favor do enfermos, marginalizados, dos empobrecidos e dos abatidos e por esses sinais anuncia-se de maneira palpável um novo mundo possível. São sinais proféticos. A diaconia do Reino é essencialmente profética. Ao agir em prol dessas pessoas em nome de Jesus, a Igreja ajuda a fazer a passagem da escravidão à liberdade, da alienação à humanização; e assim já está sendo agente portadora da boa-nova que restaura e transforma.
2ª - Há um perigo a ser reconhecido no sentido de que tais ministérios podem tornar-se locais onde grupos marginalizados podem ser isolados e confinados. Os ministérios diaconais com um foco específico não devem ser estruturados de modo que reforce estereótipos opressivos. A ação diaconal, que anteriormente está identificado com um grupo deve estar abertos para outros. Por exemplo, as formas de atuação consideradas apropriadas as mulheres podem ser adequadas também para os homens, que porventura sofram situações de violência.
conclusão
No corpo desse trabalho afirmamos que a igreja existe para servir a Deus, a humanidade e ao mundo. Faz parte da própria identidade da Igreja exercer diaconia. Eu vim para servir disse Jesus (Mt 20.28), ou ainda, eu estou entre vocês como aquele que serve (Lc 22.27). Os cristãos e cristãs são servos uns dos outros e de todos o encontrados pelo caminho. É interessante que os próprios discípulos têm dificuldade para entender que o maior é aquele que serve. Ao vocacionar seu povo para o serviço diaconal, Deus quer que sua Igreja cresça e se desenvolva em amor.
Mesmo reconhecendo que todos e todas são chamados a servir a Deus e ao próximo, a igreja ordena alguns de seus membros para o Santo Ministério em nome de Cristo, pela invocação do Espírito Santo e imposição das mãos. Lemos em Efésios que “Deus escolheu alguns para serem apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e ainda outros para pastores e mestres… a fim de construir o corpo de Cristo (Ef 4.11-12).
A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil reconhece o tríplice ministério ordenado: O/A Bispo/a, o/a presbítero/a e o/a diácono/a. Cada um exercendo uma função, para que a Igreja seja verdadeiramente diaconal, porém, é fundamental trazer a mente que todos eles/as são diáconos/as e servem a Deus e ao próximo.
Dentre os ministérios ordenados, o papel do diácono é o que mais recorda a vocação da Igreja servidora. A Partilha de nº 07 afirma que:
na prática da Igreja antiga, diáconos e diaconisas são encarregados, em nome da Igreja, de prestar socorro aos pobres e abandonados, de levar-lhes o consolo da Igreja como resposta a suas necessidades, e de trazer para o interior da Igreja o lamento dos pobres, para despertar sua consciência e ação”
É no contexto de uma sociedade opressora que a ação do diácono se faz necessária, pois além de servir aos bispos e presbíteros, às mesas, batizar, pregar… ele/a deve servir ao mundo e a humanidade, como se servisse ao próprio Cristo (Mt 25.35-40). Em seu trajeto encontrará os pobres, desamparados, solitários, oprimidos. O diácono/a deve ser visto como aquele/a que tem um ministério junto aos que sofrem os atos de uma sociedade injusta, cruel, que necessita da presença renovadora da Igreja, esta é luz (indica a direção) e sal (dá sabor, sentido para a vida).
O Rev. Leandro lembra que:
O Diácono é um símbolo vivo para a igreja e o mundo. A ordem diaconal é a presença do próprio Jesus que veio entre nós para servir e não para ser servido.
Outro ponto importante é que o diaconato não pode ser visto como um simples trampolim para o presbiterato, mas como ministério específico, o servidor das mesas, por essa razão, a Igreja tem a necessidade de pessoas que sintam-se chamadas para o diaconato permanente, e exerçam seu ministério junto aos sofredores de rua, mulheres vítimas de violência, encarcerados e na defesa do meio ambiente, da criança e adolescente, dos animais, etc. A diversidade de necessidades são imensas.
Seja qual for o campo de sua ação, o diácono permanente deve “compreender que a humanidade inteira vive escravizada e que a finalidade da ação de Deus em Cristo é libertá-las dessas cadeias” (O Ministério Cristão – ASTE .p.21).
Há uma necessidade do reavivamento da figura e papel do diácono. Por essa razão:
Nossa diocese e Província é chamada a retomar com todo o vigor a discussão sobre o Ministério do Diaconato (…).
Escolas Diaconais Diocesanas, encontros diocesanos/provinciais regulares dos Diáconos/as, e o reconhecimento dos diversos ministérios diaconais ordenados e não ordenados, mas presentes na igreja que a enriquecem tornando-a uma Presença Libertadora na sociedade e no mundo – à imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo. (CAMPOS, Leandro Antunes, Ministério do/a Diácono/a na Perspectiva do Livro de Oração Comum).
referências bibliográficas
BAUTISMO, EUCARISTIA, MINISTÉRIO, Convergencias doctrinales en el seno del Consejo Ecuménico de las Iglesias, Ediciones de La Facultad de Teologia de Barcelona,s/d.
CAMPOS, Leandro Antunes, Ministério do/a Diácono/a na Perspectiva do Livro de Oração Comum, Monografia, UMESP, 2007.
CÂNONES GERAIS DA IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, 2000.
DIDAQUÉ, Catecismo dos Primeiros Cristãos, 4ª Ed. VOZES, Petropólis, 1983
DIACONATO NO BRASIL, Teologia e Orientações pastorais, Estudos da CNBB, Edições Paulinas,1988
IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL, Livro de Oração Comum: Porto Alegre, 1950.
O MINISTÉRIO CRISTÃO, Guia de Estudos, ASTE, São Paulo, 1979.
O MINISTÉRIO DO DIACONATO, IEAB, Centro de Estudos Anglicanos, Partilha Teológica nº 07, Brasília, 1998.
RELATÓRIO DE VIRGÍNIA, Comissão Inter-Anglicana de Teologia e Doutrina, Igreja Episcopal do Brasil.
TRIANA, Pedro, Missão, Evangelização e diakonia, Palestra apresentada na Jornada teológica do IAET, 11-13 de julho de 2008. Casa Provincial La Salle. Site do CEA.
UM SÓ BAPTISMO, UMA SÓ EUCARISTIA E UM SÓ MINISTÉRIO RECONHECIDOS, Documento da Comissão de Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas, Documento nº 73, Genebra – Suiça, 1975
CREMOS NO ESPÍRITO SANTO (Jorge de França Souza)
CREMOS NO ESPÍRITO SANTO
Disciplina: Estudos Teológicos
Mestre: Revdo. Dr. Calvani
Seminarista: Jorge de França IAET – Instituto Anglicano de Estudos Teológico
Segundo Semestre / 2008
Entender a ação do Espírito Santo em nossas vidas nunca foi mistério em minha vida. Desde cedo minha mãe já nos ensinara a fazer o sinal da cruz.
Até hoje ainda me lembro de sua citação “Pelo Sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, Nosso senhor, dos nossos inimigos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, enquanto com o polegar direito desenhava uma cruz invisível em minha testa e na dos meus irmãos.
Nunca questionei de onde ela aprendera, mas penso que foi passado pelo meu avô que fora criado pelos Padres Jesuítas após ficar órfão quando a fazenda da família foi queimada pelos escravos durante a libertação.
Hoje sei que há diversas correntes teológicas sobre a ação do Espírito Santo, mas penso que a ação não é uniforme e se dá de forma variada para cada ser.
Nos estudos teológicos, aprendi que o Espírito Santo é o agente do relacionamento entre Deus e o homem. É por isto que os autores do Novo Testamento o descreve como Pneuma, o vento.
Jesus foi o primeiro homem a receber a plenitude do Espírito, ou seja, o Espírito foi a dinâmica que impulsionou todo o seu ministério aqui na terra. Para nós Anglicanos, o Espírito Santo é a terceira-pessoa da Santíssima Trindade ou, seja é Deus operando continuamente no mundo e na Igreja(Jo 16,.7-8)”.
O Adjetivo “Santo” atribuído ao Espírito não tem a ver com as qualidades morais como costumamos às vezes pensar. A antropologia cultural tem nos ajudado a compreender que tal expressão tem muito mais a ver com qualidades que nos levam ao deslumbramento e ao louvor. “Santo”, nas Escrituras e em tantas outras religiões é aquilo que está “separado” do comum, que é fascinante e totalmente diferente de tudo o que conhecemos. Porém, tal separação não é radical, pois o Espírito se relaciona com o universo na condição de ser “Doador da Vida”.
A palavra “Espírito”, em hebraico é de gênero feminino (Ruah). No grego, é neutro e no latim, masculino.
Tais diferenças levaram os redatores do documento “A Confissão da Fé Apostólica” a dizer: “Porque o termo empregado para designar o Espírito de Deus (Ru’ah) pertence no hebraico e nas línguas correlatas ao gênero feminino, algumas pessoas acham que o Espírito Santo deveria ser considerado, de certa maneira, uma espécie de ‘princípio feminino’ de Deus, e que, portanto, deveria ser tratado como ‘ela’. As igrejas, no entanto, afirmam o imaginário das Escrituras com suas analogias simbólicas e sua linguagem metafórica, mantendo o uso tradicional que prefere o gênero masculino ou, em algumas línguas, o neutro”.
Confessar a fé em um só Deus e em seu Filho Jesus Cristo, é confessar também a fé no Espírito Santo, porque é por meio do Espírito Santo que conhecemos Jesus Cristo e o plano de Deus para conosco (Jo 16.12-15; 1Co 2.10-16).
Foi por meio do Espírito Santo que Deus preparou a vinda do seu Filho ao mundo, desde a antiga aliança. Por isso, o Credo Niceno frisa: “o qual falou pelos profetas”.
Desde o século XVII este símbolo é conhecido como niceno-constantinopolitano. De fato, ele retrata a fé expressa nos dois Concílios de Nicéia(325 d.C) e de Constantinopla(381d.C).
O Concílio de Nicéia acentuou a identidade da natureza entre Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus. Ele apenas afirma que crê no Espírito Santo sem nenhuma explicitação.
O Concílio de Constantinopla definiu, por sua vez, a divindade do Espírito Santo. No Século VI, foi adotado, em grande parte do Oriente, como Símbolo batismal e introduzido também na Liturgia eucarística. E até a reforma litúrgica do Vaticano II, era a única forma de Credo que se rezava. Atualmente continua optativa juntamente com o Símbolo chamado apostólico.
A diferença entre os dois Símbolos acena para duas perspectivas teológicas. O Símbolo apostólico, romano, mais sucinto, acentua os aspectos históricos e concretos da vida de Jesus. O texto foi fixado no século IX, oriundo das catequeses batismais do século II.
Santo Ambrósio no século IV atribuiu-lhe o nome de Símbolo dos Apóstolos, por refletir a fé da Igreja dos apóstolos. O Símbolo “niceno-constantinopolitano” espelha a mentalidade grega, filosófica e abstrata. Responde com posição dogmática às chamadas heresias que ameaçaram a Igreja nos quatro primeiros séculos.
Diferentemente de Deus(Pai) e de Jesus Cristo(filho) o Espírito Santo não fez nenhuma revelação de Si. O Antigo testamento assistiu ao processo de auto-manifestação de Javé que através de grandes prodígios assumiu a iniciativa de revelar-se ao povo que Ele mesmo escolheu.
Quando Jesus veio, nomeou Deus como Pai e no Evangelho de João, chamou a si mesmo de Filho, em profunda unidade com o Pai.
Deus Pai auto-comunicou-se em eventos e palavras. Jesus, por sua vez, foi todo revelação por meio de sua pessoa, mensagens e ações.
Já o Espírito Santo não fez nenhuma revelação de si. Não falou, não escreveu, não agiu visivelmente na história como Espírito Santo.
Muitas pessoas agiam de maneira extraordinária e os escritores sagrados foram falando da ação do Espírito. Associavam os sinais de vida à ação dele.
Pouco a pouco, chegamos à pessoa do Espírito Santo, perguntando-nos quem podia ser aquele que agiu desde a criação do mundo até a animação da vida cristã e da Igreja? Seria a simples presença do Pai? Seria a nova forma de Jesus fazer Ele mesmo o presente? Diante de tais perguntas, a revelação e a teologia foram explicitando a fé no Espírito Santo até chegar à clareza de se tratar de uma pessoa divina igual ao Pai e ao Filho. Ao olharmos atentamente para os primeiros escritos da bíblia no livro do Gênesis, percebemos no Espírito de Deus, que pairava sobre as águas(Gn 1.2) que não se tratava de simples sopro ou ventania produzido por Javé. Ou então quando Isaías, falando do juízo de Deus, ao aludir a idéia da criação, desafia quem tomou a dimensão do “espírito de Javé(Is 40,13)”: quem seria este espírito de Javé, senão o próprio Espírito Santo?
Em outras passagens, o espírito dá vida aos seres:
“Escondes a face, e estremecem; se retiras o seu alento(espírito), morrem e voltam ao pó. Envias o teu alento(espírito), morrem e voltam ao pó. Envias o teu alento(espírito), e são recriados, e renovas a face da terra” (Sl 104,29-30).
No Êxodo, em ação tão simples, mas sagrada, como a confecção das vestes litúrgicas sacerdotais, Deus dota os artistas de “espírito de sabedoria (Ex 28,3)”. No sentido simples e imediato, está em jogo naturalmente habilidade prática, mas, como dom de Javé, deixa aberta a compreensão para a ação do Espírito.
Pela imposição das mãos de Moisés, Josué se enche do “espírito de sabedoria (Dt 34,9)”, que, ao simples soar das palavras, se interpreta como dom concedido por Javé, mas a releitura cristã percebe mais. O mesmo vale do espírito que suscita juízes para libertar as tribos de opressões concretas.
Assim quando os Israelitas se encontravam sob o poder do rei de Aram, “o Espírito do Senhor veio sobre Otoniel que foi Juíz em Israel. Quando saiu para a guerra o Senhor lhe entregou Cusã-Rasataim, rei de Aram, e Otoniel. O país ficou em paz durante quarenta anos, até que Otoniel filho de Cenez morreu(Jz 3,10s).
Qual o Cristão ao rezar o salmo 51, expressão tão bonita de arrependimento de Davi e de todos nós, não se deixa tocar pelo versículo que diz:
“Não me rejeites da presença de tua face, e não retires de mim o teu Espírito Santo! (Sl 51,13)”.
Com freqüência, a ação do Espírito desce sobre os profetas, abre-lhes os olhos para profetizar. Balaão o recebe e entra em êxtase(Nm 24,2-4), Samuel, depois de ungir Saul, diz-lhe que Javé o ungiu e o que o espírito de Javé se apossará dele, ele profetizará e será transformado em outro homem(1Sm 10,1.6).
Uma cena muito linda acontece com a instituição de setenta anciões a quem Javé reparte o espírito que estava em Moisés para que eles dividam as responsabilidades do povo. A cena faz um cristão pensar em Pentecostes.
“Moisés saiu para transmitir ao povo o que o Senhor tinha dito. Reuniu setenta homens dentre os anciões do povo, e colocou-os ao redor da tenda. O Senhor desceu na nuvem e falou a Moisés. Retirou um pouco do espírito que possuía e o pôs sobre os setenta anciões. Apenas sobre eles pousou o espírito e puseram-se logo a profetizar, mas não continuaram. Dois homens tinha ficado no acampamento. Um chamava-se Eldad e o outro Medad. O espírito repousou sobre os dois, que estavam na lista, mas não tinham ido à tenda, e eles também profetizavam no acampamento(Nm 11,24-26).
Eliseu pede a Elias uma porção dupla de seu espírito. Apesar de ser coisa difícil, Elias dá-lhe o critério do manto como confirmação do recebimento(2Rs 2,9-10). Sobre o servo de Javé repousa o espírito(Is 42,1), alusão à presença do Espírito em Jesus, o verdadeiro servo de Javé, embora os exegetas, segundo o sentido literal histórico, entendam referir-se a Ciro da Pérsia. E, sobretudo, sobre o profeta está o espírito de Javé que o ungiu(Is 61,1). Passagem que se tornou famosa porque Jesus a aplica a si mesmo(Lc 4,16-21).
Mais um exemplo da vinda do anuncio da vinda do espírito:
“Sairá um rebento do tronco de Jessé, e de suas raízes brotará um renovo. Repousará sobre o espírito do Senhor, espírito de sabedoria e discernimento, espírito de conselho e fortaleza, espírito de conhecimento e temor do Senhor (Is 11,1-2)”. Em leitura duplamente cristã, interpreta-se o rebento como o Messias, Jesus Cristo, em quem repousou o Espírito Santo, e a liturgia e a catequese do sacramento da crisma vêem a enumeração dos sete dons do Espírito Santo. Da lista de Iaías,falta um dom. No entanto, a versão bíblica e da Vulgata acrescentam o sétimo dom da “piedade”, como desdobramento do temor de Deus. Ponto alto da revelação do Espírito no Antigo Testamento. Até então se pensava que fosse simples forma da presença de Javé. E os textos assim foram pensados e escritos, embora abertos á outra interpretação que se fez no Novo Testamento.
A revelação do Espírito Santo na vida de Jesus dá por ocasião do batismo por João Batista que anuncia: Ele batizará no Espírito Santo(Mc 1,4-8). Neste momento está sendo introduzindo o Espírito Santo pela primeira vez no relato da vida adulta de Jesus. E como confirmação da verdade, no batismo de Jesus os céus se abrem e o Espírito desce sobre Jesus como pomba e uma voz que diz: Tu és o meu filho amado, de ti eu me agrado(Mc 1,10-11).
Com a efusão do Espírito Santo começa uma nova era para a humanidade. E o batismo de Jesus sinaliza-a. Pedro, no discurso depois da descido do Espírito Santo, retoma tal texto para interpretar o evento do Pentecostes, que perpetua a era de Jesus principiada no batismo(At 2,14-36).
Uma vez marcada a entrada do Espírito Santo na vida de Jesus, os sinóticos referem-se várias vezes à força do Espírito que o conduziu ao deserto para ser tentado(Lc 4,1) à Galiléia(Lc 14), a reconhecer na alegria a disposição de Deus Pai de revelar-se aos pequeninos(Lc 10,21) e em nome de quem expulsa demônios(Mt 12,28).
Penso que diante das dificuldades atuais, num mundo globalizado e secularizado onde o povo sofrido além da fome física carece da fome espiritual, é preciso que os semeadores se preparem de maneira adequada para o exercício da fé e para isto a oração diária deve ser uma constante em sua vida. Primeiro deve cuidar de si e depois cuidar dos outros. E para isto acho primordial estes parágrafos do texto “A vida espiritual do sacerdote Cristão” escrito por Evelyn Underhill:
“É Certo, naturalmente, que ao falarmos em oração devemos estar alertas à inclinação de pensarmos nela simplesmente como um meio de conseguirmos auxílio de Deus como nos convém. Contudo, para o sacerdote, é ela a única fonte de poder pastoral. Aptidões intelectuais e sociais, boa homilética, capacidade de organização, ajudam muito no seu trabalho. Mas não são essenciais ao desempenho do ministério. A oração o é. O homem cuja vida é semeada de oração e cuja comunhão com Deus vem em primeiro lugar ganhará almas: sua própria vida mostrará ao mundo o poder de atração da realidade, a exigência e a capacidade transformadora da vida espiritual. Em comparação, todas as outras capacidades que possa ter, não são tão importantes. O Fato é que ele se transforma em testemunho daquilo que proclama. Podemos ensinar com muita persuasão, trabalhar entre os pobres, saber toda teologia moderna – mas se tudo isso não vier envolto e não for superado por uma constante devoção a Deus – jamais ganharemos almas.
Bibliografia
Calvani, Rev. Dr. Carlos Eduardo. “Apostila - Cremos no Espírito Santo”.
Eser B.Cesar, Ely. “ A ação humanizadora do Espírito” – AsteLibânio,
J,B. “Creio no Espírito Santo”- São Paulo: Paulus,2008”.
UNDERHILL, Evelyn. “A vida espiritual do sacerdote cristão”.
Disciplina: Estudos Teológicos
Mestre: Revdo. Dr. Calvani
Seminarista: Jorge de França IAET – Instituto Anglicano de Estudos Teológico
Segundo Semestre / 2008
Entender a ação do Espírito Santo em nossas vidas nunca foi mistério em minha vida. Desde cedo minha mãe já nos ensinara a fazer o sinal da cruz.
Até hoje ainda me lembro de sua citação “Pelo Sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, Nosso senhor, dos nossos inimigos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, enquanto com o polegar direito desenhava uma cruz invisível em minha testa e na dos meus irmãos.
Nunca questionei de onde ela aprendera, mas penso que foi passado pelo meu avô que fora criado pelos Padres Jesuítas após ficar órfão quando a fazenda da família foi queimada pelos escravos durante a libertação.
Hoje sei que há diversas correntes teológicas sobre a ação do Espírito Santo, mas penso que a ação não é uniforme e se dá de forma variada para cada ser.
Nos estudos teológicos, aprendi que o Espírito Santo é o agente do relacionamento entre Deus e o homem. É por isto que os autores do Novo Testamento o descreve como Pneuma, o vento.
Jesus foi o primeiro homem a receber a plenitude do Espírito, ou seja, o Espírito foi a dinâmica que impulsionou todo o seu ministério aqui na terra. Para nós Anglicanos, o Espírito Santo é a terceira-pessoa da Santíssima Trindade ou, seja é Deus operando continuamente no mundo e na Igreja(Jo 16,.7-8)”.
O Adjetivo “Santo” atribuído ao Espírito não tem a ver com as qualidades morais como costumamos às vezes pensar. A antropologia cultural tem nos ajudado a compreender que tal expressão tem muito mais a ver com qualidades que nos levam ao deslumbramento e ao louvor. “Santo”, nas Escrituras e em tantas outras religiões é aquilo que está “separado” do comum, que é fascinante e totalmente diferente de tudo o que conhecemos. Porém, tal separação não é radical, pois o Espírito se relaciona com o universo na condição de ser “Doador da Vida”.
A palavra “Espírito”, em hebraico é de gênero feminino (Ruah). No grego, é neutro e no latim, masculino.
Tais diferenças levaram os redatores do documento “A Confissão da Fé Apostólica” a dizer: “Porque o termo empregado para designar o Espírito de Deus (Ru’ah) pertence no hebraico e nas línguas correlatas ao gênero feminino, algumas pessoas acham que o Espírito Santo deveria ser considerado, de certa maneira, uma espécie de ‘princípio feminino’ de Deus, e que, portanto, deveria ser tratado como ‘ela’. As igrejas, no entanto, afirmam o imaginário das Escrituras com suas analogias simbólicas e sua linguagem metafórica, mantendo o uso tradicional que prefere o gênero masculino ou, em algumas línguas, o neutro”.
Confessar a fé em um só Deus e em seu Filho Jesus Cristo, é confessar também a fé no Espírito Santo, porque é por meio do Espírito Santo que conhecemos Jesus Cristo e o plano de Deus para conosco (Jo 16.12-15; 1Co 2.10-16).
Foi por meio do Espírito Santo que Deus preparou a vinda do seu Filho ao mundo, desde a antiga aliança. Por isso, o Credo Niceno frisa: “o qual falou pelos profetas”.
Desde o século XVII este símbolo é conhecido como niceno-constantinopolitano. De fato, ele retrata a fé expressa nos dois Concílios de Nicéia(325 d.C) e de Constantinopla(381d.C).
O Concílio de Nicéia acentuou a identidade da natureza entre Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus. Ele apenas afirma que crê no Espírito Santo sem nenhuma explicitação.
O Concílio de Constantinopla definiu, por sua vez, a divindade do Espírito Santo. No Século VI, foi adotado, em grande parte do Oriente, como Símbolo batismal e introduzido também na Liturgia eucarística. E até a reforma litúrgica do Vaticano II, era a única forma de Credo que se rezava. Atualmente continua optativa juntamente com o Símbolo chamado apostólico.
A diferença entre os dois Símbolos acena para duas perspectivas teológicas. O Símbolo apostólico, romano, mais sucinto, acentua os aspectos históricos e concretos da vida de Jesus. O texto foi fixado no século IX, oriundo das catequeses batismais do século II.
Santo Ambrósio no século IV atribuiu-lhe o nome de Símbolo dos Apóstolos, por refletir a fé da Igreja dos apóstolos. O Símbolo “niceno-constantinopolitano” espelha a mentalidade grega, filosófica e abstrata. Responde com posição dogmática às chamadas heresias que ameaçaram a Igreja nos quatro primeiros séculos.
Diferentemente de Deus(Pai) e de Jesus Cristo(filho) o Espírito Santo não fez nenhuma revelação de Si. O Antigo testamento assistiu ao processo de auto-manifestação de Javé que através de grandes prodígios assumiu a iniciativa de revelar-se ao povo que Ele mesmo escolheu.
Quando Jesus veio, nomeou Deus como Pai e no Evangelho de João, chamou a si mesmo de Filho, em profunda unidade com o Pai.
Deus Pai auto-comunicou-se em eventos e palavras. Jesus, por sua vez, foi todo revelação por meio de sua pessoa, mensagens e ações.
Já o Espírito Santo não fez nenhuma revelação de si. Não falou, não escreveu, não agiu visivelmente na história como Espírito Santo.
Muitas pessoas agiam de maneira extraordinária e os escritores sagrados foram falando da ação do Espírito. Associavam os sinais de vida à ação dele.
Pouco a pouco, chegamos à pessoa do Espírito Santo, perguntando-nos quem podia ser aquele que agiu desde a criação do mundo até a animação da vida cristã e da Igreja? Seria a simples presença do Pai? Seria a nova forma de Jesus fazer Ele mesmo o presente? Diante de tais perguntas, a revelação e a teologia foram explicitando a fé no Espírito Santo até chegar à clareza de se tratar de uma pessoa divina igual ao Pai e ao Filho. Ao olharmos atentamente para os primeiros escritos da bíblia no livro do Gênesis, percebemos no Espírito de Deus, que pairava sobre as águas(Gn 1.2) que não se tratava de simples sopro ou ventania produzido por Javé. Ou então quando Isaías, falando do juízo de Deus, ao aludir a idéia da criação, desafia quem tomou a dimensão do “espírito de Javé(Is 40,13)”: quem seria este espírito de Javé, senão o próprio Espírito Santo?
Em outras passagens, o espírito dá vida aos seres:
“Escondes a face, e estremecem; se retiras o seu alento(espírito), morrem e voltam ao pó. Envias o teu alento(espírito), morrem e voltam ao pó. Envias o teu alento(espírito), e são recriados, e renovas a face da terra” (Sl 104,29-30).
No Êxodo, em ação tão simples, mas sagrada, como a confecção das vestes litúrgicas sacerdotais, Deus dota os artistas de “espírito de sabedoria (Ex 28,3)”. No sentido simples e imediato, está em jogo naturalmente habilidade prática, mas, como dom de Javé, deixa aberta a compreensão para a ação do Espírito.
Pela imposição das mãos de Moisés, Josué se enche do “espírito de sabedoria (Dt 34,9)”, que, ao simples soar das palavras, se interpreta como dom concedido por Javé, mas a releitura cristã percebe mais. O mesmo vale do espírito que suscita juízes para libertar as tribos de opressões concretas.
Assim quando os Israelitas se encontravam sob o poder do rei de Aram, “o Espírito do Senhor veio sobre Otoniel que foi Juíz em Israel. Quando saiu para a guerra o Senhor lhe entregou Cusã-Rasataim, rei de Aram, e Otoniel. O país ficou em paz durante quarenta anos, até que Otoniel filho de Cenez morreu(Jz 3,10s).
Qual o Cristão ao rezar o salmo 51, expressão tão bonita de arrependimento de Davi e de todos nós, não se deixa tocar pelo versículo que diz:
“Não me rejeites da presença de tua face, e não retires de mim o teu Espírito Santo! (Sl 51,13)”.
Com freqüência, a ação do Espírito desce sobre os profetas, abre-lhes os olhos para profetizar. Balaão o recebe e entra em êxtase(Nm 24,2-4), Samuel, depois de ungir Saul, diz-lhe que Javé o ungiu e o que o espírito de Javé se apossará dele, ele profetizará e será transformado em outro homem(1Sm 10,1.6).
Uma cena muito linda acontece com a instituição de setenta anciões a quem Javé reparte o espírito que estava em Moisés para que eles dividam as responsabilidades do povo. A cena faz um cristão pensar em Pentecostes.
“Moisés saiu para transmitir ao povo o que o Senhor tinha dito. Reuniu setenta homens dentre os anciões do povo, e colocou-os ao redor da tenda. O Senhor desceu na nuvem e falou a Moisés. Retirou um pouco do espírito que possuía e o pôs sobre os setenta anciões. Apenas sobre eles pousou o espírito e puseram-se logo a profetizar, mas não continuaram. Dois homens tinha ficado no acampamento. Um chamava-se Eldad e o outro Medad. O espírito repousou sobre os dois, que estavam na lista, mas não tinham ido à tenda, e eles também profetizavam no acampamento(Nm 11,24-26).
Eliseu pede a Elias uma porção dupla de seu espírito. Apesar de ser coisa difícil, Elias dá-lhe o critério do manto como confirmação do recebimento(2Rs 2,9-10). Sobre o servo de Javé repousa o espírito(Is 42,1), alusão à presença do Espírito em Jesus, o verdadeiro servo de Javé, embora os exegetas, segundo o sentido literal histórico, entendam referir-se a Ciro da Pérsia. E, sobretudo, sobre o profeta está o espírito de Javé que o ungiu(Is 61,1). Passagem que se tornou famosa porque Jesus a aplica a si mesmo(Lc 4,16-21).
Mais um exemplo da vinda do anuncio da vinda do espírito:
“Sairá um rebento do tronco de Jessé, e de suas raízes brotará um renovo. Repousará sobre o espírito do Senhor, espírito de sabedoria e discernimento, espírito de conselho e fortaleza, espírito de conhecimento e temor do Senhor (Is 11,1-2)”. Em leitura duplamente cristã, interpreta-se o rebento como o Messias, Jesus Cristo, em quem repousou o Espírito Santo, e a liturgia e a catequese do sacramento da crisma vêem a enumeração dos sete dons do Espírito Santo. Da lista de Iaías,falta um dom. No entanto, a versão bíblica e da Vulgata acrescentam o sétimo dom da “piedade”, como desdobramento do temor de Deus. Ponto alto da revelação do Espírito no Antigo Testamento. Até então se pensava que fosse simples forma da presença de Javé. E os textos assim foram pensados e escritos, embora abertos á outra interpretação que se fez no Novo Testamento.
A revelação do Espírito Santo na vida de Jesus dá por ocasião do batismo por João Batista que anuncia: Ele batizará no Espírito Santo(Mc 1,4-8). Neste momento está sendo introduzindo o Espírito Santo pela primeira vez no relato da vida adulta de Jesus. E como confirmação da verdade, no batismo de Jesus os céus se abrem e o Espírito desce sobre Jesus como pomba e uma voz que diz: Tu és o meu filho amado, de ti eu me agrado(Mc 1,10-11).
Com a efusão do Espírito Santo começa uma nova era para a humanidade. E o batismo de Jesus sinaliza-a. Pedro, no discurso depois da descido do Espírito Santo, retoma tal texto para interpretar o evento do Pentecostes, que perpetua a era de Jesus principiada no batismo(At 2,14-36).
Uma vez marcada a entrada do Espírito Santo na vida de Jesus, os sinóticos referem-se várias vezes à força do Espírito que o conduziu ao deserto para ser tentado(Lc 4,1) à Galiléia(Lc 14), a reconhecer na alegria a disposição de Deus Pai de revelar-se aos pequeninos(Lc 10,21) e em nome de quem expulsa demônios(Mt 12,28).
Penso que diante das dificuldades atuais, num mundo globalizado e secularizado onde o povo sofrido além da fome física carece da fome espiritual, é preciso que os semeadores se preparem de maneira adequada para o exercício da fé e para isto a oração diária deve ser uma constante em sua vida. Primeiro deve cuidar de si e depois cuidar dos outros. E para isto acho primordial estes parágrafos do texto “A vida espiritual do sacerdote Cristão” escrito por Evelyn Underhill:
“É Certo, naturalmente, que ao falarmos em oração devemos estar alertas à inclinação de pensarmos nela simplesmente como um meio de conseguirmos auxílio de Deus como nos convém. Contudo, para o sacerdote, é ela a única fonte de poder pastoral. Aptidões intelectuais e sociais, boa homilética, capacidade de organização, ajudam muito no seu trabalho. Mas não são essenciais ao desempenho do ministério. A oração o é. O homem cuja vida é semeada de oração e cuja comunhão com Deus vem em primeiro lugar ganhará almas: sua própria vida mostrará ao mundo o poder de atração da realidade, a exigência e a capacidade transformadora da vida espiritual. Em comparação, todas as outras capacidades que possa ter, não são tão importantes. O Fato é que ele se transforma em testemunho daquilo que proclama. Podemos ensinar com muita persuasão, trabalhar entre os pobres, saber toda teologia moderna – mas se tudo isso não vier envolto e não for superado por uma constante devoção a Deus – jamais ganharemos almas.
Bibliografia
Calvani, Rev. Dr. Carlos Eduardo. “Apostila - Cremos no Espírito Santo”.
Eser B.Cesar, Ely. “ A ação humanizadora do Espírito” – AsteLibânio,
J,B. “Creio no Espírito Santo”- São Paulo: Paulus,2008”.
UNDERHILL, Evelyn. “A vida espiritual do sacerdote cristão”.
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