sexta-feira, 20 de maio de 2011

Eucaristia e Reino de Deus

Por Ivan Vieira


(EUCARISTIA E REINO DE DEUS)

Somos convidados a apreciar em algumas páginas a dimensão daquilo celebrado outrora pelas comunidades cristãs primitivas, e que se perpetua até nossos dias: Jesus, presente através do pão partilhado e do vinho derramado. De forma simples, mas rica em significados, veremos que esse momento, em que o povo de Deus se reúne em torno do altar, é hora de adoração, de louvor, e, ao mesmo tempo, de compromisso com o Reino de Deus. Comungar é tornar-se um com Ele, é aceitar todas as prerrogativas as quais este ato de entrega nos impele. Estas poucas páginas também querem exortar a nós sacerdotes, ministros e todo povo de Deus a motivarmos as nossas celebrações e fazê-las de forma que realmente sejam a festa do Reino o qual experimentamos já, aqui e agora.



Sumário

1) Introdução
2) Desenvolvimento
2.1) Reino de Deus, Por quê?
2.2) Ceia Judaica e Ceia do Senhor
2.3) Eucaristia e Reino de Deus.
3) Conclusão
4) Bibliografia

Introdução

Celebrar a Eucaristia é celebrar a festa da ressurreição com todos os batizados. É fazer subir nossas orações de ação de graças para coroar e agradecer ao Deus da vida pela vinda do seu Filho amado, pela Boa Nova do Reino e por sua compaixão por nós que buscamos incessantemente e sonhamos com o Reino acontecendo no meio de nós.


Proponho-me aqui abordar de maneira simples e singular um tema muito querido por mim que é a Eucaristia. Não tenho a intenção de fazer nenhum tratado, nem de me alongar com termos técnicos e confusos.


A Eucaristia foi celebrada de maneira simples. Jesus, sentado com seus apóstolos, partilhou da mesma fé que recebera, repetindo a liturgia tal qual a dos seus pais, mas com uma novidade transformadora e renovadora. Tornou transparente aos seus companheiros a dimensão do que estava sendo celebrado naquele momento.


Um sacramento, maior de todos, pois era Ele mesmo que estava se doando por inteiro para a felicidade de muitos. Gesto simples: um pão que se torna sua carne; um cálice de vinho que se torna seu próprio sangue. O cálice é derramado e o Espírito Santo faz o resto.


O gesto de Jesus é repetido nas comunidades primitivas e se perpetua até hoje porque celebramos a festa, celebramos o seu martírio, celebramos a vida que brota no doar-se do Cristo Jesus.


Nestas poucas páginas, pretendo abordar a dimensão da Eucaristia, seu significado, o que ela representa para nós cristãos, e seu sentido escatológico na perspectiva do Reino de Deus.


Abordarei sobre o Reino de Deus, justificando o porquê de sua necessidade, levando em consideração relatos do profeta Isaías e do Novo Testamento. Nessa perspectiva, abordo também, sobre a Ceia Judaica e a Ceia do Senhor, porque ambas celebram a Páscoa, celebram a passagem da morte para a vida.


Quando celebramos o cordeiro imolado, rememoramos o sacrifício de Jesus, nos colocamos diante do mesmo altar, partilhamos o pão e o vinho e agradecemos pela vida que jorrou através de seu sacrifício na cruz, o qual nos convida a sermos outros cristos com Cristo.


É neste pensamento, que transcorro em algumas poucas páginas o tema “Eucaristia e Reino de Deus”, ansiando tornar em nossas comunidades essa dimensão inteligível, para que ela realmente seja absorvida e entendida como realmente quis o nosso Mestre. Ao mesmo tempo, deixo uma sugestão para que nós façamos das nossas liturgias, verdadeiras festas. É lógico que o ato fala por si. Mas é preciso tornar este momento agradável, festivo, renovado para que saiamos das nossas celebrações levando um Jesus que é amor e alegria.


Ele morreu para que fôssemos livres e felizes. A vida venceu a morte, portanto celebremos a festa.


2.1) Reino de Deus, Por quê?

Para entendermos a dimensão do Reino de Deus, necessitamos através da Bíblia, Palavra de Deus, percebermos como esta Palavra anunciada por tantos profetas e homens de Deus anteviu a vinda de um Messias que instalaria a paz e a unidade no meio do seu povo.


O povo de Israel, cansado de tanto sofrimento, labuta e exploração, clama por liberdade, por terra e uma vida mais justa. É neste pano de fundo que uma voz surge no deserto: “Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo, vereda a nosso Deus”. (Isaías 40:3). Isaías anuncia a vinda do Messias libertador, e João Batista chama as pessoas ao arrependimento para “preparar o caminho” em seus corações para a chegada do Rei Jesus. (Lucas 3, 4-6).


Esse gesto cheio de mistério de um Deus amoroso e cheio de compaixão, capaz de se fazer humano com nós, é o início de uma nova era cheia de esperança e de uma história que mudaria para sempre a vida do povo de Deus.


Em Nazaré, um anjo aparece a uma mulher do povo, noiva de um tal José, descendente da tribo de Davi, anunciando que esta fora escolhida para ser a mãe do Salvador. O canto de Maria expressa a alegria, as verdades do Reino e as promessas de Deus que começam a tornar-se realidade: “Manifestou o poder de seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrando da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade para sempre.” (Lucas,1, 51-55).


Jesus durante a sua vida pública prega a Boa nova ao povo de Israel, mas demonstra todo o amor e ternura de Deus para com os que sofrem e padecem as dificuldades de viver sob um sistema opressor e marginalizante.


O Sermão da Montanha é explícito quando Jesus diante daquela multidão sofrida que o seguia diz: “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o reino dos céus! Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Bem aventurados os corações puros, porque verão a Deus! Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus! Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus! Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.” (Mt 5, 1-11).


O mistério da encarnação é entendido através do gesto carinhoso de nosso Deus que se fez homem e através de sua humanidade anunciou e estabeleceu o Reino o qual podemos experimentar no meio de nós, cada vez que celebramos o mistério da paixão, morte e ressurreição. Ele manteve-se fiel ao Pai até a morte e morte de cruz. Quando nos reunimos em torno da mesa, antecipamos o Banquete celestial e somos impelidos a vivenciarmos como outros cristos as verdades do Reino.

2.2) Ceia Judaica e Ceia do Senhor.

A Eucaristia, “Ceia do Senhor”, que nós cristãos celebramos, tem raízes no ritual judaico das refeições de festa. Como era costume entre o povo de Israel, a Ceia judaica celebrava a passagem do povo de Deus do Egito para a Terra Prometida, terra esta que segundo a Bíblia jorra leite e mel, ou seja, a terra da felicidade, da fartura e da liberdade (Ex. 12; Lev. 23, 4-14).


A Ceia Judaica na época do segundo Templo tinha um caráter mais ritualizado. Os levitas cantavam os salmos do Hallel (Sl 113-118). Depois o pai de família levava o cordeiro ao Templo e o sacrificava, enquanto os sacerdotes recolhiam o sangue para aspergir a base do altar. Em seguida o cordeiro era assado em casa e comido, depois do pôr-do-sol, com pão sem fermento e ervas amargas. As pessoas tinham os ris cingidos, sandálias nos pés e um bastão na mão. A refeição servia também para a instrução dos jovens da casa, para recordar a libertação de ontem e da sempre esperada, porque “em cada geração cada um deve considerar que foi ele o libertador do Egito. Não era diretamente messiânico, mas não deixava de dirigir-se para o futuro. Durante a refeição pascal e de outras festas, ou na recepção de um hóspede, o pai de família começava com uma bênção sobre o pão, antes de parti-lo e dar a cada um. Depois, no fim da refeição, era pronunciada outra bênção, esta sobre o vinho, enquanto cada conviva mantinha sua taça diante de si. O pai dizia uma primeira bênção, de maneira bastante livre, por exemplo: ”Bendito seja Deus, o Rei do mundo, que tirou o pão da terra”. Ou, antes da taça: “que criou o fruto da vinha”. Porque tudo pertence a Deus.


A ceia do Senhor, sua instituição, encontra-se em Mateus 26, 26-28, Marcos 14, 22-24, Lucas 22, 19-20 e 1Coríntios 11, 23-26. Era um costume habitual na Igreja primitiva como nos relata os At 20, 7-11: “No primeiro dia da semana, estando reunidos para partir o pão, Paulo, que havia de viajar no dia seguinte, conversava com os discípulos e prolongou a palestra até a meia-noite. Havia muitas lâmpadas no quarto, onde nos achávamos reunidos. Acontece que um moço, chamado Éutico, que estava sentado numa janela, foi tomado de profundo sono, enquanto Paulo ia prolongando seu discurso. Vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo, e foi levantado morto. Paulo desceu, debruçou-se sobre ele, tomou-os nos braços e disse: “Não vos perturbeis, porque a sua alma está nele”. Então subiu, partiu o pão, comeu e falou-lhes largamente até ao romper do dia. Depois partiu”.


Da Santa Ceia do Senhor só participavam os batizados e consistia das seguintes cerimônias: o partir do pão e derramar do vinho. Distribuição dos elementos pelos discípulos e o ato de comer e beber. Era celebrada pelos apóstolos como uma ordem que deveria ser obedecida, desta forma se mantiveram fiéis à Doutrina dos apóstolos e na Comunhão, no partir do pão e nas orações (At. 2, 42).


“O sacramento era celebrado em casa no primeiro dia da semana, aos domingos pela manhã bem cedo, de modo que pudessem todos depois ir cada um ao seu trabalho, sendo, pelo menos dessa feita, precedido o cerimonial por devota vigília, oração e homilia”’. (Liturgia Anglicana, Adão Pereira, Sidney A. Ruiz)


Os judeus tinham o costume de agradecer a Deus pelo alimento recebido, pois o consideravam sagrado e dom de Deus ao homem. Sempre às refeições davam um aspecto religioso, rendendo graças pela misericórdia divina. Os apóstolos enriqueceram o rito que Jesus instituíra com novas e ricas significações.


Existe hoje entre alguns teólogos a idéia de que a cronologia narrada pelo Quarto Evangelho seja correta quando mostra que a Ceia do Senhor não se realizou por ocasião das festividades da páscoa judaica, mas que se tratava de uma refeição sagrada de caráter íntimo que Jesus realizava comumente com seus discípulos. Esta foi uma preparação para essa grande festa.


Segundo esses teólogos a “Ceia do Senhor” havia sido celebrada muitas vezes entre Jesus e seus seguidores. Isso fica explícito quando lemos o capítulo 24, 13-35 do Evangelho de Lucas quando narra a passagem dos discípulos de Emaús.


Dois discípulos caminhavam pela aldeia de Emaús conversavam sobre tudo que tinha acontecido com o Mestre. Enquanto conversavam, Jesus aproximou-se deles e caminhou com eles sem que eles o reconhecessem. Levaram-no para casa e deram-lhe abrigo e alimento. Reconheceram Jesus com o gesto de repartir o pão e dar graças a Deus, e estes não estiveram presentes na Última Ceia.


Deve-se a Paulo a relação imediata entre a Última Ceia e a paixão de Jesus. O apóstolo conseguiu transfigurar a própria dor da paixão na glória da ressurreição, identificando a velha páscoa com o novo rito, quando diz: “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós; portanto façamos a festa” (1Cor. 5,7).


“A Ceia Pascal é uma figura da vida, morte e ressurreição de Cristo, e tem aí sua plena realização: o cordeiro pascal é substituído pelo Cordeiro de Deus. Em vez da libertação do jugo egípcio, temos a libertação do jugo do pecado; o caminho para a terra prometida é o caminho para o céu; a presença de Javé no meio do seu povo é a presença eucarística. Paulo dirá em 1 Cor 5,7: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado por nós”. (Bíblia Sagrada ave Maria, Ed. Ave Maria).

2.3) Eucaristia e Reino de Deus

Jesus, na Última Ceia, celebrou com seus apóstolos em gestos, palavras e símbolos, a consumação daquilo que ele iria realizar no dia seguinte: ele se entregaria totalmente na cruz, dando-nos seu corpo e sangue: “Comei: isto é o meu corpo que será entregue na cruz! Bebei: isto é o meu sangue que será derramado por vossa causa!” (Lc 22, 16-19). Esta Ceia sagrada, onde ele celebrava com os seus, a sua própria morte e ressurreição, antecipava misteriosamente a ceia das núpcias do cordeiro.


É o momento crucial em que Jesus se depara diante do que estava por vir e que era necessário que o Filho do Homem se mantivesse fiel até o fim para que fosse cumprido o que estava escrito nas Escrituras: “Ele manteve-se fiel até a morte e morte de cruz”.


Jesus, ao longo de sua vida, construiu com seus apóstolos um estilo de vida diferente, que rompia com todo e qualquer resquício do fermento que atingia os detentores do poder e a soberania. Seu estilo de vida invoca seus seguidores a amar até as últimas conseqüências, a ponto de dar a própria vida pelo próximo. Mesmo que para assumir o Evangelho radicalmente levasse mais algum tempo a ser assimilado pelos discípulos, Jesus foi incessante em continuar a divulgar a Boa Nova do Evangelho, preparando os mesmos para a longa jornada do povo de Deus rumo ao Reino prometido pelo Mestre, onde seriam bem-aventurados os pobres, os sofredores, os perseguidos, os desvalidos, todos aqueles que têm fome da verdade e da justiça.


O Mestre foi preparando, aos poucos, os seus discípulos, para que tivessem a mesma coragem de dar a própria vida. Mais tarde, sabemos que muitos dos apóstolos foram martirizados por causa do Evangelho. Porque tiveram coragem de assumir e deixar a Palavra penetrar no coração, de transformar suas vidas e de levá-los para a missão. Tiveram coragem de comer a carne e beber o sangue do Mestre: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,53).


Aqui, ele não estava tratando de alimento no sentido metafórico, mas era a sua carne, em verdade, uma comida e o seu sangue, em verdade, uma bebida, como nos relata o evangelista João no capítulo 6. Ou seja, em gestos, em palavras, Jesus queria, que além de antecipar as núpcias, também saboreássemos, na força do Espírito Santo, a Ceia do Banquete celeste. É uma ceia que começa na terra e durará no céu, por toda a eternidade.


Portanto, é um mistério imensurável e santo, cada vez que participamos do Pão e do Vinho, eucarísticos entramos em comunhão de vida com Aquele que é Morto e Ressuscitado, com o Cordeiro eternamente imolado por nós. “Cada participação na Eucaristia é uma transfusão de vida eterna que recebemos, até que a consumemos na glória!” (Zizioulas, Ioannis – Eucaristia e Reino de Deus. Ed. Mundo e Missão.)


A missa, ou o culto eucarístico é, ao mesmo tempo, o memorial sacrifical no qual se perpetua o sacrifício da cruz, e o banquete sagrado da comunhão no corpo e no sangue do Senhor. A celebração está toda voltada para união íntima dos fiéis com Cristo, pois neste momento recorda-se a paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo que deu sua própria vida para nos salvar e instalar o seu Reino no meio de nós.


Cada vez que comungamos, nos comprometemos com o projeto de Jesus, nos tornamos um com ele e dizemos que queremos continuar a propagar o Reino de Deus entre nós. “Faze com que nos aproximemos desta mesa para o serviço e não apenas para a satisfação pessoal ”(Oração eucarística A do LOC). Na Ceia Eucarística acontece a comunhão entre nós e Cristo e, a comunhão entre nós, no único Espírito Santo de Cristo ressuscitado.


Santo Agostinho de Hipona afirma: “Se sois o corpo e os membros de Cristo, é o vosso sacramento que é colocado sobre a mesa do Senhor; recebeis o vosso sacramento. Respondeis: “Amém” aquilo que recebeis, e confirmais ao responder. Ouvis esta palavra: “O corpo de Cristo”, e respondeis “Amém”. Sede, pois um membro de Cristo, na caridade com os irmãos mais carentes e sofredores, sobretudo com os pobres”.


São João Crisóstomo ensinava assim: “Degustaste o Sangue do Senhor e não reconheces para que o vosso Amém seja verdadeiro”. Sequer o teu irmão. Desonras esta própria Mesa, não julgando digno de compartilhar do teu alimento aquele que foi julgado digno de participar desta Mesa. Deus te libertou de todos os teus pecados e te convidou para esta mesa. E tu, nem mesmo assim, te tornaste mais misericordioso”.


Os Evangelhos são unânimes em mostrar que a última ceia nos remete para o Reino de Deus. Os apóstolos participaram do banquete como prefiguração do novo Israel: “E eu preparo para vós um Reino, como o Pai o preparou para mim, para que possas beber à minha mesa no meu Reino, e vos sentareis no trono para julgar as doze tribos de Israel” (Lc 22, 29-30).


A última ceia foi um evento escatológico, unido indissoluvelmente ao Reino de Deus. É por esta razão que, durante a ceia, Jesus se refere expressamente e com uma particular intensidade emotiva ao Reino: “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco, antes da minha paixão, pois eu vos digo: não a comerei mais, até que ela se cumpra no Reino de Deus. Pois eu vos digo: a partir de agora, na beberei mais do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus”. (Lc 22, 15 - 16,18ss).


“O mistério da Eucaristia existe porque o Deus Trindade, movido por uma ternura inefável e totalmente gratuita, quer nos encontrar para nos unir a si pelo amor”. Podemos dizer que, em outros termos, “a Eucaristia existe para a celebração e realização do grandioso projeto de Deus: transformar a humanidade para fazê-la entrar desde já no mundo da ressurreição, da qual os sinais eucarísticos são prefiguração”. (Brouard, Maurice – Enciclopédia da Eucaristia).


Quando celebramos a Eucaristia, celebramos o memorial da Páscoa que é vista como a festa da reunificação da humanidade, cuja unidade, rompida no começo de sua história, é restaurada sem cessar pelo amor de Deus, difundido em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado (Rm 5,5).


Graças ao banquete eucarístico, Deus e a humanidade não poderão mais ser separados: “Aquele que come minha carne permanece em mim e eu nele” (Jo 6,56). O banquete celeste só fará consumar essa união.


A comunhão mística da Igreja com Cristo suscita também a comunhão em Cristo porque une as pessoas que estão com Ele num elo de intimidade em Cristo porque comem e bem o mesmo alimento, seu corpo e seu sangue. A esse respeito o teólogo Carlos Eduardo Calvani diz que: “se nossa eucaristia não suscita a certeza da comunhão com Cristo e não nos insere numa prática efetiva de comunhão em Cristo, é sinal de que ainda não interiorizamos suficientemente seu mistério. Se participamos domicalmente da Eucaristia, mas nossa vida não muda e a vida da comunidade também não, cabe perguntar se o que celebramos é, de fato, a Ceia do Senhor ou uma deturpação fast-food” (Calvani, Carlos Eduardo – Eucaristia e Eclesiologia – Revista Inclusividade nº14).


O “Documento Bem” organizado pelo comitê Fé e Constituição diz que: “A Igreja recebe a eucaristia como um presente do Senhor!” Segundo Ramacés Hartwig, este presente é a continuação de todo o “trabalho de Deus na criação”(Gn 1 e 2) que culmina com a encarnação do Filho de Deus, Jesus Cristo, Senhor da Igreja e autor da nossa salvação. Por isso a Eucaristia recebe muitos nomes, por exemplo: Ceia do Senhor, Última Ceia, partilha do pão, Eucaristia, (Santa) Comunhão, (Divina) Liturgia, (Santa) Missa etc. Ele diz ainda que: “Esta celebração é o ato central da adoração da Igreja” (Revista Inclusividade, nº 9).


Portanto, sendo a Eucaristia “presente de Deus” ela oferece “livre acesso ao Verdadeiro Presente” (Jesus Cristo) cujo memorial (anamnesis) implica na Presença Real do Senhor através dos elementos (pão e vinho) sob a invocação (epiclesis) do Espírito Santo.


Quando a Igreja celebra o “banquete de Deus” antecipa os sinais do seu Reino. Traz para o momento presente a realidade que transforma os cristãos em imagem de Cristo tornando-os suas testemunhas. Por isso ao fim da Celebração eucarística a Igreja é enviada “em paz para testemunhar o Evangelho e a servir com alegria e no poder do Espírito Santo”.


São intimados a testemunharem e a irem como missionários a transformar ambientes e transformar “os reinos deste mundo no Reino do Senhor Jesus Cristo”. “Ide, pois, sede corajosos e fortes na proclamação do Evangelho, no poder do Espírito Santo” (Oração Eucarística A, pág. 83 do Livro de oração Comum). O universo eucarístico se apresenta aberto para o Reino, o Reino onde finalmente a Eucaristia se completa.

Conclusão

As nossas comunidades reunidas em torno do altar para celebrar o memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus precisam despertar para o sentido amplo do compromisso que este sacramento exige, pois quando celebramos, nos tornamos um com Ele e entendemos qual a nossa missão: ser sal da terra.


Se o Sacrifício não impele as nossas comunidades a ser sal da terra, não nos impele a acolher a Palavra e a torná-la viva entre nós, é sinal de que precisamos rever o modo como estamos celebrando a festa, pois a celebração deve atrair todos a Jesus em torno da mesma mesa.


Precisamos de liturgias vivas, festivas, animadas, que exaltem, sobretudo, o significado daquilo que celebramos no altar. Precisamos animar o povo de Deus e despertá-los para que nossas celebrações se tornem momento prazeroso e que alimentados com a Palavra viva e o pão descido do céu, saiamos melhores do que quando entramos. Dispostos, de verdade, a vivermos o que ouvimos e vimos.


A Eucaristia e o Cordeiro imolado para a nossa salvação não podem ser entendidos sem referência ao “último dia”, ao “dia do Senhor”, à parusia e à instauração do Reino de Deus. Com as palavras de Cirilo de Alexandria, “a Eucaristia não é somente e simplesmente “celebração de um tremendo sacrifício”, mas “dom de imortalidade e penhor de vida eterna”.

Bibliografia

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus. 5ª impressão, 2008.
Bíblia Ave Maria, 129ª. São Paulo: Editora Ave Maria
BROUARD, Maurice – Eucharistia: enciclopédia da eucaristia. São Paulo: Paulus, 2006.
CALVANI, Carlos Eduardo – Eucaristia e Eclesiologia in Revista Teológica do Centro de Estudos Anglicanos – (Inclusividade), Nº 14. Porto Alegre: CEA, 2007.
GONÇALVES, Humberto Maiztegui – Origens e bases bíblicas da Eucaristia in Revista Teológica do Centro de Estudos Anglicanos – (Inclusividade), Nº 14. Porto Alegre: CEA, 2007.
HARTWIG, Ramacés – Eucaristia: Mistério de Deus in Revista Teológica do Centro de Estudos Anglicanos – (Inclusividade), Nº 9. Porto Alegre: CEA, 2004.
IEAB – Livro de Oração Comum - (LOC), p 68,80,85-91. Porto Alegre: Editora Gráfica Metrópole S.A,1988.
PEREIRA, ADÃO - Liturgia Anglicana, Um breve comentário ao Livro de Oração Comum. 2ª edição.
VV.AA - Eucaristia na Bíblia in Cadernos Bíblicos. São Paulo: Paulus: 1985.
VV.AA - Evangelho e Reino de Deus in Cadernos Bíblicos. São Paulo: Paulus, 1985.
ZIZOULAS, Ioannis – Eucaristia e Reino de Deus. Florianópolis: Mundo e Missão, 1994

SACRAMENTO: O AMOR MANISFESTO DE DEUS

POR ITABIRA JONAS



SUMÁRIO

Resumo 4


Sinais e Símbolos 5


Espiritualidade cristã celta: Tudo é Sacramento 8


Bibliografia 11

RESUMO

Este trabalho é uma reflexão sobre a plenitude do amor de Deus para com a humanidade manifestado na criação e prática espiritual dos cristãos Celtas.


Desde o principio Deus tem demonstrado fidelidade para com o seu povo e, na plenitude dos tempos a confirmou e manifestou com a encarnação do Verbo.


Diz a Bíblia: “Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3: 16). Jesus é, portanto, a mais completa manifestação do amor de Deus. Nele está contida toda essência de Deus. Ele é sinal concreto e visível do Deus invisível. Cristo, encarnado no seio de Maria é imagem real do transcendente, que vive e se revela na criação. O prefácio da Oração Eucarística Rito II, do Livro de Oração Comum, reza:


“Damos-te graças, ó bendito Deus, que nos mostrastes bondade e amor na Criação, na chamada de Israel para ser teu povo, na Palavra que disseste por meio dos profetas, e, acima de tudo no Verbo feito carne, teu Filho, Jesus. (LOC. p 76)


Cristo é o canal de graça e por ele o cristão alcança Deus e com Ele faz comunhão. No exercício do seu ministério Jesus realiza a graça de Deus, contida nos sacramentos.


A Igreja Anglicana é sacramental, ela proclama a fé nos sacramentos instituídos por Cristo e celebra a obra que deles emana. A Igreja como sacramento de Cristo é comunidade dos cristãos e depositária da Boa Nova.


Ao proclamar o Evangelho, a Igreja revela o amor de Deus pela humanidade.

I - SINAIS E SÍMBOLOS

O homem é ser em comunicação. Ele está em constante comunicação consigo mesmo para se construir, em comunicação com os outros para se relacionar e trocar conhecimento, e com Deus para reverenciá-lo e adorá-lo. A comunicação é vital para os seres humanos e a criação comunica a obra de Deus.

Há um clichê tão velho quanto o primeiro aprendiz de sociólogo: o homem é um animal social. Entre outras coisas, isso significa reconhecimento implícito de sua necessidade de comunicação, que é o meio como ele transmite suas mensagens. (TÈCNICA DE JORNAL E PERIODICO, P. 11)

Ciente da necessidade de relacionar-se o homem buscou comunicar-se, aprendendo a ler os sinais e criando símbolos que expressassem idéias e sentimentos para manifestar necessidades físicas, intelectuais e emocionais.


Quanto aos sinais e símbolos como instrumentos de comunicação, há de se levar em consideração a distinção que existe entre eles. Os símbolos são sinais produzidos pelo homem para facilitar a comunicação e conseqüentemente a vida.

É impreciso o momento em que o ser humano começou a criar mecanismos de comunicação e utilizar uma simbologia carregada de significação para interagir com seus semelhantes. É possível que o homem pré-histórico tenha iniciado o processo de comunicação dando respostas instintivas a partir de ruídos vocais (imitando sons da natureza) e movimentos corpóreos, que serviam de emissão de mensagens simples (exteriorizando frio, medo, fome ou alegria. (AS TEORIAS DA COMUNICAÇÃO, P. 16)

Quanto à simbologia da comunicação, tomemos como exemplos, os sinais de trânsito, as letras do alfabeto, as notas musicais, os cumprimentos, as bandeiras, os escudos e todos os símbolos que apontam para uma comunicação convencional.


Todo símbolo é carregado de significado. Os símbolos representativos, produzidos pelo homem, são mensagens criadas a partir de convenções, para suprir uma necessidade de comunicação.


Ademais dos símbolos criados pelo homem, existem sinais naturais, são indicadores da natureza que nos comunicam mensagens, que favorecem a compreensão da vida, num determinado momento. Por exemplo: uma nuvem negra e carregada é sinal iminente de chuva; fumaça, sinal de fogo; marcas de pés, sinal da presença de alguém.


Se o homem carece de sinais e símbolos para se comunicar uma realidade imanente, muito mais necessitará para comunicar uma experiência transcendente. Portanto, os sinais e os símbolos são fundamentais para a facilitação e favorecimento comunicativo da vida como obra perfeita e suficiente de Deus. Através dos símbolos e dos sinais, Deus se comunica com seu povo e este com o seu criador.


Ao se comunicar através dos sacramentos Deus se revela ao seu povo, se faz íntimo e se torna como um de nós. (Jo 1: 1-14). Envolta no mistério, na encarnação do verbo está a revelação do amor de Deus pela humanidade.

Toda vez que uma realidade do mundo, sem deixar o mundo, evoca uma outra realidade diferente dela, ela assume uma função sacramental. Deixa de ser coisa para ser sinal ou um símbolo. Todo sinal é sinal de alguma coisa ou de algum valor para alguém. Como coisa pode ser absolutamente irrelevante. Como sinal pode ganhar valorização inestimável e preciosa. (...) (OS SACRAMENTOS DA VIDA E A VIDA DOS SACRAMENTOS P. 23)

Os sacramentos são como “fotografias”, uma vez que revelam através da imagem uma realidade interior e maior do que aquela refletida. Nesse sentido a matéria estática elucida uma vida eternizada pela impressão, é marca. Nos sacramentos os sinais e símbolos, por sua vez imprimem através de gestos, matéria e intenção a interioridade da vida graciosa que está em Deus.


Nessa dimensão, segundo Leonardo Boff, tudo é sacramento, porque tudo comunica, interage e revela o homem “fotograficamente”. Tudo é corpo e alma. Toda matéria transcende a si mesma, revelando sua vocação para o alto.

Tudo revela o homem, suas experiências bem ou mal sucedidas, enfim, o encontro dele com a multiplicidade das manifestações do mundo. Nesse encontro o homem não aborda o mundo de forma neutra. Ele julga. Descobre valores, interpreta. Abre ou se fecha às evocações que lhe advém. O convívio com o mundo faz com que ele crie sua morada. (OS SACRAMENTOS DA VIDA E A VIDA DOS SACRAMENTOS P. 23)

Como refletido até aqui, se os sinais e símbolos são necessários para a comunicação entre os homens, e destes com o mundo, uma vez que o homem é um animal social, interdependente, muito mais eles serão na comunicação com o transcendente, com Deus. Os sinais e os símbolos são fundamentais porque facilitam a comunicação da vida que está em Deus e a graça que ele quer dar.

Mesmo supondo que o mundo seja feito de alguma matéria informe, essa matéria foi tirada totalmente do nada. Pois, mesmo o que ainda não está formado: sem dúvida alguma, de algum modo já tem iniciada a sua formação. Ser susceptível de forma (capacitas formae) é benefício do seu Autor, e possuí-la é bem. A simples capacidade de forma é pois, certo bem. Por conseguinte, o autor de todas as formas – que é doador de toda forma – também o fundamento da possibilidade de algo a ser formado. E assim, tudo o que é, enquanto é, tudo o que não é, enquanto pode vir a ser, tem de Deus, sua forma ou possibilidade a ser formado.


Dito de outro modo: Todo ser formado, enquanto formado, e todo o que ainda não está formado, enquanto formável, encontra em Deus seu fundamento. (A VERDADEIRA RELIGIÃO P. 68)

A criação é em seu todo sinal da vida que está em Deus. Como na representação de um quadro que está implícita a vida do artista que o criou: ver o quadro é ver o artista. A obra da criação revela a vida que está em Deus e é refletida na vida dos homens. Portanto, toda a criação foi, é e será sacramental.

II - ESPIRITUALIDADE CRISTÃ CELTA: TUDO É SACRAMENTO

Tudo o que sabemos a respeito de Deus, nos foi revelado pela Encarnação do Verbo. A face plena de Deus está em Jesus, como sacramento, sinal real e íntegro daquilo que Deus é. Jesus não é em parte Deus, nem em parte homem. Jesus é plenamente homem e plenamente Deus. Jesus é protótipo de toda a criação e explicitamente do homem. É por ele que Deus tudo criou, assim como aos seres humanos. Jesus estava presente no momento da concepção da “raça humana”, conforme atestam as sagradas escrituras: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. (GN 1: 26a)


O texto do livro do Gênesis escrito em primeira pessoa do plural (façamos) é revelador da natureza de Deus. É dessa natureza vocacional e final que o homem é criado. Deus é em si por si mesmo uma comunidade perfeita de onde emana a Trindade Santa: o Deus criador, o Deus redentor e o Deus santificador.


Na plenitude da criação e da humanidade está Jesus Cristo que soube acolher, enquanto homem, a dignidade plena de Filho de Deus. Nele a imagem de Deus é fiel e translúcida. Todo bem que nasce do exercício da adoração e do louvor, em Cristo ele se realiza. A igreja Anglicana que têm raízes na experiência espiritual celta entende e vive a espiritualidade cristã inclusiva a partir da adoração e louvor a Deus presente na natureza:


O cristianismo conhecido como “celta” floresceu na Irlanda, na Escócia, no País de Gales e mesmo em partes da Inglaterra, grosso modo, do quarto ao décimo séculos. São conhecidos os nomes de missionários celtas como Patrício, Columba e Columbano, que evangelizaram o norte das Ilhas Britânicas e vastas partes do continente europeu. Mas o cristianismo celta floresceu, humanamente falando, não apenas devido ao trabalho dos missionários mais conhecidos, mas também devido ao esforço de incontáveis anônimos, pessoas sinceras em sua fé, que viviam o cristianismo com “alegria e singeleza de coração”. Foi um cristianismo que desenvolveu características próprias, que o tornavam distinto do cristianismo de inspiração romana que florescia na Europa continental no mesmo período. O cristianismo celta tinha muitas características notáveis. Entre tantas, destaca-se aqui apenas a que interessa diretamente aos propósitos desta breve reflexão: um modelo de espiritualidade centrado na criação.


Os celtas desenvolveram uma teologia que enfatizava uma visão de Deus como Senhor da criação. Ainda que não haja nada de original nesta perspectiva — os cristãos celtas não foram os inventores desta teologia —, não se pode deixar de mencionar que há diversas implicações práticas dessa visão. Uma dessas conseqüências é exatamente ter uma atitude constante de júbilo e regozijo na criação, que revela Deus. Como os celtas eram um povo com forte inclinação à poesia, produziram muitas poesias comoventes, louvando a Deus pela obra da criação. Um poema datado do século nono, escrito na antiga língua do País de Gales, tem início com as seguintes palavras:

Todo Poderoso Criador, que fizeste todas as coisas;
O mundo não pode expressar toda a tua glória,
Ainda que a grama e as árvores possam cantar.

Outro poema escrito no século oitavo, na antiga língua irlandesa, declara:
Somente um tolo não seria capaz de louvar a Deus pelo seu poder,
Quando as pequeninas aves incapazes de pensar
O louvam com seu vôo.

Estes versos expressam o lugar de destaque que a natureza ocupava na maneira como os cristãos celtas antigos viam a vida e pensavam sua relação com Deus. A visão da criação como reveladora de Deus está profundamente enraizada na Bíblia. Os fragmentos poéticos citados revelam influência de textos bíblicos como Salmos 98.7-8 ou Isaías 55.12. De fato, muito da poesia e das orações daqueles cristãos denotam influência da visão bíblica a respeito da natureza. Textos como o de Salmos eram particularmente queridos pelos cristãos celtas. Para eles, o mundo criado é uma teofania, isto é, uma manifestação de Deus. (Fonte: http://elteque.multiply.com/journal/item/13)


Em Jesus, Deus revela sua imagem e semelhança. Através de Jesus temos todo o conhecimento e desejo de Deus. Desejamos a Deus a quem não vemos e o glorificamos e adoramos em sua obra.


Jesus é a obra prima de Deus e o ponto de convergência entre o humano-criação e o divino-criador. Nele habita a criatura que trabalha e busca Deus, fonte da vida e o Criador que busca o homem para redimi-lo.


Jesus é sacramento de Deus, porque ele realiza todo o projeto metafísico do Pai. Jesus, sacramento de Deus, proclama a dimensão ética do homem. Em Jesus Cristo, Deus manifesta seu amor.

BIBLIOGRAFIA

Agostinho, Santo. A Verdadeira Religião. São Paulo: Paulinas: 1987
Amaral, Luiz. Técnica de Jornal e Periódico. Rio de Janeiro. Tempo Brasileiro: 2001
Bíblia Sagrada
Boff, Leonardo. Os Sacramentos da Vida e a Vida dos Sacramentos. Editora Vozes: 2009
LOC. Livro de Oração Comum
Santos, Roberto Elísio dos. As Teorias da Comunicação. São Paulo. Paulinas: 2003

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Um modelo dialógico de educação teológica

por Rev. Dr. Pedro Triana
Sem deixar de lado a importância da ortodoxia sobre a ortopraxia, em minha opinião, a Teologia da Libertação está certa ao postular a primazia da última sobre a primeira: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21-23).
Foi na prática do seguimento de Jesus que os primeiros cristãos o conheceram e acreditaram nele. E quando eles pensaram nos títulos de Jesus como Salvador, Mediador, Messias, Cordeiro de Deus, Cristo e Filho de Deus, realmente estavam tentando colocar na linguagem dos símbolos a decisão de segui-lo e de continuar sua vida de amor para com todas as pessoas. Seguimento que implicava estar comprometido ativamente com a vida e as lutas deste mundo, preocupar-se especialmente com as pessoas que estão sofrendo por causa da injustiça e a opressão, na esperança de que, apesar de fracasso e morte, este mundo pode mudar para melhor[1]. E aqui certamente nos encontramos no campo do serviço e da missão.
No entanto, hoje, na visão da teologia do pluralismo religioso, a missão só tem sentido em uma perspectiva pluralista e dialogal. Mas o correto não seria tentar incluir o diálogo na missão, mas entender a missão como diálogo. Ou seja, a melhor forma como a igreja e os seguidores de Jesus podem servir ao Reino de Deus, no mundo atual, religiosamente plural e globalmente ameaçado, é por meio do diálogo, porque do contrário, a natureza e o propósito da missão estão perdidos e tornam-se irrelevantes. Contudo, definir a missão como diálogo não significa reduzir essa missão a alguma atividade específica, mas antes ampliar essa missão além das atitudes e práticas tradicionais e equilibrar melhor os vários aspetos da missão[2].
Então, o anteriormente dito implica ter uma visão missionária dialogal e abrangente, onde a proclamação e a prática da boa notícia do Reino de Deus devem permear todas as atividades: o dia-a-dia, a luta pela justiça, a liturgia, a espiritualidade, e a teologia.
Agora, é oportuno lembrar, que ao afirmar-se como um novo paradigma, a teologia do pluralismo religioso tem serias e profundas implicâncias para o trabalho teológico em geral, e também para educação e formação teológica em particular. Por isso, afirma Knitter, que se a teologia, como parte dessa missão dialogal se entende como diálogo plural, a forma como fazemos teologia deve ser diferente e mais exigente do que é atualmente na maioria das universidades, faculdades e seminários de teologia, postulando o que ele chama: “modelo dialógico de educação teológica”[3].
E pela relevância e pertinência de suas colocações para todos os envolvidos na tarefa da educação teológica em universidades, faculdades e seminários, passo a comentar o que significa caminhar para um “modelo dialógico de educação teológica”
Segundo Knitter, no presente mundo global e religiosamente plural, para que a teologia cristã faça sua tarefa de forma competente e relevante não pode ser só cristã. E uma das causas pelas quais a educação teológica não está fazendo o seu trabalho de mediar adequadamente entre a cultura e a religião tem a ver com o que ele chama caráter “monorreligioso” da maior parte da teologia cristã de hoje. Por isso, manter a tradição cristã como fonte ou norma única para a teologia é desrespeitar o que Deus revelou em outros lugares e culturas.
Então, a seguir passo a enumerar algumas das sugestões práticas para um “modelo dialógico de educação teológica”. Porém, faço a ressalva que não vou apenas enumerar, mas também acrescentar algumas sugestões, comentários, desafios e provocações particulares.
Em primeiro lugar, comenta Knitter, a reestruturação da educação teológica implica mais do que mexer ou mudar o currículo. As religiões devem ser ensinadas segundo um currículo educacional teológico de uma maneira conversacional em vez de puramente informativas, e com uma tentativa de mediar entre as religiões e a cultura contemporânea.
Em segundo lugar, os estudantes de teologia precisam de oportunidades para aprender sobre tradições que lhes são em sua maioria completamente estranhas, e para isso os professores terão que combinar tanto conhecimento como envolvimento pessoal e possibilitar assim que os alunos apreciem outros modos de ser religioso no mundo e sejam desafiados por ele.
Em terceiro lugar, se bem um curso introdutório de religiões comparadas é importante, porém não e suficiente. Segundo Knitter, precisa-se de cursos obrigatórios sobre o Islã, religiões asiáticas, espiritualidades indígenas (e eu acrescentaria de religiões afro latino-americanas). Esses cursos deveriam ter uma abordagem desinteressada e sem julgamentos cristãos, porque cursos com julgamentos cristãos geralmente pré-determina a considerar outras religiões como inferiores, ou como preparação para Cristo e o cristianismo. Um modelo plurirreligioso de educação teológica deve possibilitar a conversa e não um monólogo.
Em quarto lugar, e aqui Knitter é realmente desafiante, não podemos estudar e chegar a conhecer outras religiões, se tudo o que fazemos é “ler” sobre elas e emitir juízos de maneira puramente acadêmica. As religiões devem ser estudadas como realidades vividas, não apenas como ensinamentos estimados. Os cursos teológicos sobre outras religiões devem proporcionar aos estudantes oportunidades reais de perceber e experimentar a verdade de outros caminhos. Assim, por um lado, os estudantes poderiam ser incentivados, de forma provisória e sempre em um sentido limitado, a serem hindus, ou budistas, ou muçulmanos; e no caso de nosso contexto latino-americano, eu comento e acrescento, poderiam ser incentivados a serem membros de cultos afro latino-americanos, por que não?. Por outro lado, os estudantes poderiam também ser estimulados a conversar ou entrevistar, com um enfoque existencial, seguidores de outro caminho de ser religioso. E aqui estamos em sintonia com essa frase, famosa e desafiante, desse pioneiro da teologia do pluralismo religioso, Raimundo Paninkkar[4]: “Marchei cristão, me descobri a mi mesmo hindu e volto budista sem deixar de ser cristão”.
Em quinto lugar, afirma Knitter, uma simples adição curricular de cursos de qualidade e teologicamente orientados sobre outras tradições religiosas não alcançará a meta da reestruturação multirreligiosa da educação teológica. Precisa-se também, que os professores ao dar um curso padrão sobre o mal ou sobre a redenção ou sobre a igreja ou sobre a questão de Deus, injetem nas discussões aquilo que outras perspectivas religiosas afirmam sobre esses assuntos, as eventuais diferenças radicais que têm em comparação com a tradição cristã e as provocações que suscitam para que a tradição cristã continue a reflexão.
Finalmente, aponta Knitter, é preciso realizar mudanças na composição de uma faculdade teológica. Conseqüentemente, para conseguir superar a mentalidade monorreligiosa, nenhum seminário o faculdade universitária deveria ser considerada completa em si ou devidamente equilibrada, ao menos que incluísse um ou mais professores formados especificamente em alguma tradição não cristã.



[1] Paul F. Knitter, Jesus e os Outros Nomes. Missão cristã e responsabilidade global, Nhanduti Editora, São Bernardo do Campo/SP, 2010, p.122.
[2] Veja agora, ibidem. pp.175-180.
[3] Veja Paul F. Knitter, Jesus e os Outros Nomes. Missão cristã e responsabilidade global, Nhanduti Editora, São Bernardo do Campo/SP, 2010, PP.169-198.
[4] Raimundo Panikkar, (1918-2010), é um dos pioneiros da teologia do pluralismo religioso. Sacerdote católico, nasceu em Barcelona, Espanha; doutor em Filosofia (Madrid 1946), em Química (Madrid 1958) e em Teologia (Roma 1961). Foi ordenado sacerdote em 1946. Ensinou nas principais universidades de América, Europa e a Índia. Em 1954 foi para a Índia onde foi investigador nas universidades de Mysore e Varanasi. Seus estudos abrangem a cultura da Índia e a historia e filosofia das religiões. Seus livros e artigos compreendem temáticas como filosofia das ciências, a metafísica, religiões comparadas, indologia, e teologia. Morreu recentemente. Para mas informações sobre sua vida e pensamento veja José Luis Rueda, “Panikkaar: Um pioneiro da teologia do pluralismo religioso”, em: Teologica Xaveriana – Vol.58. No.165 (183-200) Enero-Junio de 2008, Bogotá, Colombia. ISSN 0120-3649.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A IMPORTÂNCIA DA EXPERIÊNCIA BENEDITINA PARA A IGREJA

INSTITUTO ANGLICANO DE ESTUDOS TEOLÓGICOS


(c) JORGE DE FRANÇA SOUZA






A IMPORTÂNCIA DA EXPERIÊNCIA BENEDITINA PARA A IGREJA


Trabalho de aproveitamento do 5º semestre do curso de formação do Instituto Anglicano de Estudos Teológicos – IAET-SP


2009 - São Paulo
BENTO DE NÚRSIA
Segundo seus biógrafos, Bento de Núrsia nasceu no ano 480 a.D na região dos Sabinos, Itália antiga, em Núrcia, hoje província de Perusa. Seu pai pertencia à tradicional família de Anício, que deu à pátria numerosos cônsules e imperadores. Por parte de sua mãe era o filho caçula dos senhores de Núrcia.
Dispondo de recursos abundantes, enviaram-no, ainda menino a cidade de Roma para adquirir conhecimentos. Durante os sete anos que lá permaneceu obteve progresso notável nos estudos, tanto para pressentirem que, se continuasse, tornar-se-ia um dos mais destacados homens de seu tempo.
Na adolescência, sendo um jovem de bom caráter, sente-se incomodado com o ambiente decadente da cidade de Roma e percebe que isto induz os jovens à orgia, vícios e corrupção. Ele percebe que o convívio o prejudica e entre as ciências humanas, nas quais se projetava, e a preservação dos costumes, prefere permanecer fiel à pureza de vida cristã, recebida desde o berço. E assim deixa a cidade.
Sua ama de leite, de nome Cirila, amava-o ternamente e não o abandona. Na vila de Enfide, para onde se dirigiram, faz o primeiro milagre, do qual o conhecimento chegou até nós. Essa senhora pegou emprestado da pobre gente do lugar, um utensílio de barro, provavelmente para cozinhar, e ao usá-lo quebrou-o. Bento reuniu os pedaços e restabeleceu-o, por sua prece, no mesmo estado que era antes. A notícia espalhou-se velozmente e logo olhavam o rapaz como um santo.
Este fato constituiu motivo decisivo para ele retirar-se secretamente dos que haviam assistido ao prodígio , inclusive sua ama.
A fonte da maioria dos acontecimentos da sua vida são os Diálogos de São Gregório Magno, que baseou-se em fatos narrados por monges que o conheceram pessoalmente. Aos vinte anos retirou-se para Subiaco para viver como eremita e dedicar-se a oração. Sua fama de santidade era tão grande que logo foi convidado a dirigir pequenas comunidades monásticas da vizinhança. Sua disciplina rígida gerou insatisfações, ocasionando tentativas de envenenamento. Desgostoso mudou-se para monte cassino, onde criou uma grande família monástica e foi ali que redigiu sua famosa regra que melhorava as experiências anteriores(a regra do Mestre Agostinho).
REGRA
A Regra de São Bento, definida no ano 534 determinava que, os monges tinham que viver em comunidade nos mosteiros, fazer votos de pobreza, fazer votos de castidade e obediência ao abade, que eles próprios tinham a incumbência de eleger. Tinha que dedicar o tempo à oração e ao trabalho seja ele de caráter agrícola, artesanal, cultural ou educativo (hospedar peregrinos e viajantes) ocupar-se com os pobres e o ensino. Ela consta de 73 artigos e um prólogo.
A ordem Beneditina deu ao monasticismo ocidental uma forma definitiva. Todas as outras ordens monásticas que surgiram no Ocidente basearam-se na Regra de São Bento. Os mosteiros tornaram-se verdadeiros pólos culturais na Idade Média. Suas bibliotecas preservavam obras de escritores da Antigüidade Grega e Romana.
Ao lado de cada mosteiro, geralmente havia uma escola, que atendia a população pobre da região. Em geral, os freqüentadores acabavam se convertendo ao cristianismo.
Vale ressaltar e destacar, a execução, dentro dos mosteiros medievais, do rígido e minucioso trabalho dos monges copistas que acabou por preservar o saber greco-romano. Entretanto, mais que preservar, esse trabalho deu forma e conteúdo ao pensamento religioso que dominou todo o período medieval.
Um fator importante da Regra de São Bento é a sua humanidade por ser moderada, simples, sensível, sem rigor aos extremos. Ao mesmo tempo em que incentiva os monges a uma vida santa, enfatiza a importância da estabilidade, ou seja, a permanência num mesmo mosteiro e da necessidade de aceitar as limitações impostas pela vida em comunidade assim como a aceitação com paciência as fraquezas físicas ou de condutas dos irmãos. São incentivados a se ajudarem mutuamente no seguimento dos caminhos do Senhor assim como a receber sempre o estranho que chegava às portas dos mosteiros, pois ela é um caminho de vida cristã no seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A vida comunitária é vista como uma ordenada sucessão de oração, atividade e reflexão.
A Regra estabelece primeiro, o ''OPUS DEI'', no qual os monges, em comunidade, celebram sete vezes ao dia, o Ofício Diário composto de salmos, hinos, antífonas, responsórios e leituras bíblicas.
O modelo espalhou-se por toda Europa, e embora sofresse adaptações e desenvolvimentos durante os séculos, converteu-se, por mais de mil anos, em norma para toda a Igreja Ocidental.
Enfatiza, em segundo lugar, a 'LECTIO DIVINA'', na qual os irmãos refletem sobre textos bíblicos, os escritos dos Santos Pais e Mestres da espiritualidade, para que, num tranqüilo processo de absorção, baseado na verdade da Palavra de Deus, nutrir suas inteligências e moldar um temperamento reflexivo e contemplativo de devoção.
Em terceiro lugar, estabelece-se o ''LABOR'', que assegura, para as pequenas comunidades monásticas, a auto-sustentabilidade social, espiritual e econômica. O ritmo de trabalho e oração oferecia uma espiritualidade integrada e equilibrada. Deus era glorificado tanto pelo uso e mordomia da criação quanto na articulação do louvor na Igreja.
BENEDITINOS NO CONTINENTE AMERICANO
Os Beneditinos aportaram definitivamente no Brasil em 1581 onde fundaram a Abadia de São Sebastião na cidade de Salvador, sendo esta o primeiro Cenóbio no continente americano. A seguir foram fundada outras abadias em outros estados assim como pequenos mosteiros no Século XVII.
Em São Paulo, os monges beneditinos chegaram em 1598. A Companhia de Jesus e a Ordem do Carmo eram as únicas ordens religiosas em São Paulo.
Fr. Mauro Teixeira foi o primeiro beneditino a chegar a cidade de São Paulo. Natural da cidade de São Vicente, foi discípulo direto do jesuíta Pe. José de Anchieta. Após a morte de seus familiares pelos índios tamoios, num ritual de canibalismo, Fr. Mauro entrou no Mosteiro de São Bento da Bahia.Terminada a sua formação monástica, o Padre Provincial Fr. Clemente das Chagas o envia à São Paulo, onde funda uma pequena ermida, núcleo inicial da presença dos beneditinos na cidade. Logo em seguida, vem o Pe. Fr. Mateus da Ascensão, edificar um mosteiro e formar o primeiro núcleo comunitário.
Assim que ele chegou, a Câmara Municipal doou em 9 de maio de 1600, um pedaço de terra que situava-se "no lugar mais ilustre da vila, depois do Colégio da Companhia", em doação perpétua "até o fim do mundo". O local era onde se localizava a antiga taba do cacique Tibiriçá, "o glorioso índio que realizara a aproximação euro-americana e permitira o surto da civilização no planalto, salvando São Paulo da agressão tamoia de 1562", segundo as palavras do historiador Taunay.
Somente em 1634, as obras terminaram e assim constituída a Abadia. A capela fora dedicada a São Bento. Posteriormente, a pedido do Governador da Capitania de São Vicente, D. Francisco de Sousa, grande benemérito dos beneditinos, foi mudado o patrono da capela paulistana para Nossa Senhora de Montserrat. E, 100 anos depois, em 1720, a capela passou a chamar-se de Nossa Senhora da Assunção, título que se conserva até hoje.
No Capítulo Geral de 14 de maio de 1635, o primeiro Visitador da Província, o espanhol Fr. Álvaro Carvajal foi eleito o primeiro Abade de São Paulo.
CONTEXTUALIZAÇÃO DA ÉPOCA
Entre os séculos V e VI o mundo estava envolvido por uma tremenda crise de valores e de instituições, causada pela queda do Império Romano, pela invasão dos novos povos chamados de bárbaros e pela decadência dos costumes. A cidade de Roma tornou-se um antro de perdição onde a ausência de ética e moral alinhava-se a corrupção política. Roma estava em decadência, a juventude era frívola e induzida à libertinagem, ao vício e à corrupção.
Com a apresentação de São Bento como "astro luminoso", Gregório queria indicar esta situação atormentada, precisamente aqui nesta cidade de Roma, a saída da "noite escura da história"1.
De fato, a obra do Santo e, de modo particular a sua Regra revelaram-se, portadoras de um autêntico fermento espiritual, que mudou no decorrer dos séculos, muito além dos confins da sua Pátria e do seu tempo, o rosto da Europa, suscitando depois da queda da unidade política criada pelo império romano uma nova unidade espiritual e cultural, a da fé cristã partilhada pelos povos do continente. Surgiu precisamente assim a realidade à qual nós chamamos "Europa".
São Gregório ilustra-nos como a vida de São Bento estivesse imersa numa atmosfera de oração, fundamento importante da sua existência.
Sem oração não há experiência de Deus. Mas a espiritualidade de Bento não era uma interioridade fora da realidade. Na agitação e na confusão do seu tempo, ele vivia sob o olhar de Deus e precisamente assim nunca perdeu de vista os deveres da vida quotidiana e o homem com as suas necessidades concretas.
IMPORTÂNCIA DE BENTO PARA A IGREJA
Bento foi chamado a esta experiência por causa da pureza de seu coração. Deus em sua magnitude já tinha planos para ele e quando chamado não resistiu, aceitou e doou-se mesmo sofrendo as tentações que tentavam afastá-lo do plano de Deus.
Em seus quase 1.500 anos de vida, os beneditinos acompanharam as vicissitudes da história da Igreja, com momentos de expansão, de decadência e de supressão e Renascimento.
Os valores da tradição monástica falam ainda hoje aos cristãos que são parte do mundo moderno. Reconhecemos a importância de uma vida litúrgica comunitária, de trazer perante Deus, em oração, o trabalho no qual estamos engajados e as necessidades das comunidades nas quais estamos inseridos, para que Deus as guie e abençoe, as redima e renove.
Os relacionamentos entre nosso trabalho e a vida litúrgica se concretizam no cuidadoso ordenamento das Intercessões e também na preparação de celebrações para marcar ocasiões e/ou necessidades especiais. Através desses vínculos aprendemos também a ver nosso trabalho e nossa vida de relação como meios para melhor servir a Deus e dar testemunho dele a uma sociedade secularizada.
Além da Igreja Católica, Bento é venerado pelas Igrejas Anglicana, Ortodoxa e Luterana. No caso da Igreja Anglicana, mesmo distante durante 300 anos após a reforma , a influência Beneditina perdurou fortemente na tradição do LOC(Livro de oração comum) anglicano, a ponto de poder afirmar-se com justiça que a espiritualidade anglicana está imbuída do espírito beneditino
IMPRESSÕES PESSOAIS
Conhecer a história de vida, exemplo e espiritualidade de São Bento de Núrsia foi emocionante e enriquecedora e com certeza será de grande importância para minha caminhada.
Penso que num mundo globalizado, excludente, pluralista e cheio de conflitos onde uma grande parcela da população mundial vive abaixo da linha da miséria, onde impera a corrupção global e o desvio de dinheiro público é fato, o aprendizado das regras de Bento seria de grande importância para esta sociedade corroída pelo mal e tão distante das bênçãos e o amor de Deus.
Há momentos em que relembro as notícias de minha cidade, Rio de Janeiro, bela por natureza, mas cuja população está inerte, entregue a própria sorte por causa da omissão do estado e da sociedade em si, que dorme em berço esplêndido e não se dá conta do que acontece a sua volta.
Em conseqüência disto, sinto uma imensa dor no coração ao saber que milhares de jovens são mortos todos os anos por causa da guerrilha urbana, fruto do confronto que existe entre traficantes por causa do tráfico de drogas.
Queira Deus que possamos compreender e lutar por esta realidade, tão nossa, mas sem esquecer jamais, da realidade eterna.
DICIONÁRIO
Ancoreta, vivia sozinho e afastado dos seus semelhantes.
Monges ou Cenobitas que habitavam o Mosteiro ou Cenóbio.


BIBLIOGRAFIA


Braga: Coleção “Os grandes em Imagem”- Bento de Núrsia – Pai do Monaquismo Ocidental; Editorial A.O. e Edições Loyola- SP.


Link: “ Mosteiro de São Bento-SP” - http://www.mosteiro.org.br/Historico/index.htm


Link: “Blog Oblatos de São Bento” - http://oblatosdesaobento.blogspot.com/2009/10/bento-escreve-sua-regra-monastica.html


Link: “Oblatos Anglicanos de São Bento” -http://www.dm.ieab.org.br/ministerios/04_ordens_beneditinos.html#Cena_1

Eles ouviram a voz da serpente

(c) Reginaldo Marcelo


Eles ouviram a voz da serpente
Reflexões sobre uma Comunidade de Amor perdida
e a responsabilidade da igreja para restaurá-la


Instituto Anglicano de Estudos Teológicos – IAET
2008


Introdução


O nascimento deste trabalho está relacionado a vários motivos: à aula sobre a mordomia cristã ministrada pelo reverendo Leandro de Campos, nossa admiração e amor profundo pela natureza, à preocupação profunda com aqueles que sofrem sejam humanos ou não, além da problemática ligada à própria destruição do planeta Terra.
O mundo que chamamos de casa está profundamente doente, sua enfermidade é causada por aquele que deveria ser seu maior defensor. O ser humano parece cego pela ganância, pois destrói, oprime, devasta em nome de um suposto desenvolvimento econômico, para manter-se na moda, incentivado pela propaganda consome mais que a capacidade dos recursos naturais. Anualmente milhares de pessoas morrem de fome e sede, hectares de florestas são derrubados, toneladas de dejetos são despejadas em rios e aterros. As maiores vítimas das agressões são os pobres, pois vivem em áreas periféricas próximos a lixões, córregos e rios mortos pela poluição, e convivem com a escassez de água e alimento.
A Igreja chamada para ser sal e luz no mundo, muitas vezes, no decorrer da História, colocou-se ao lado dos poderosos e legitimou em nome de Cristo a morte de pessoas, animais e vegetais.
Esta situação de morte e dor não foi sonhada por Deus. Os relatos de fé contidos no livro de Gênesis mostram um Criador amoroso, cunhando um mundo belo e chamando todos a viverem em Comunhão. Preocupa-se em desenhar uma Comunidade de Amor, onde Ele, os seres humanos, animais, vegetais vivam em harmonia, sem fronteiras, diferenças raciais, religiosas, econômicas, políticas e sociais.
Na Comunidade de Amor criada por Deus a única exigência era obedecer ao seu projeto de paz, solidariedade, misericórdia e não decidir por si mesmo, porém o ser humano ouviu a voz da serpente; o mal e a ganância adentram a História Humana, e então, ele é expulso do Paraíso perdendo a comunhão com o outro, incluindo Deus e natureza.
O mundo pós-serpente foi adoecendo e diante de sua enfermidade a Igreja é chamada a estar ao lado do oprimido, orar e lutar para que a Comunidade de Amor seja restaurada.
Esse trabalho tem a intenção de mostrar alguns caminhos para a labuta da igreja no campo da ecologia, pois nosso questionamento subsiste no seguinte: “Qual o papel da Igreja na luta ecológica?”.
Para responder esta pergunta nos achegamos principalmente à Bíblia e à teologia. Aproximamo-nos de ambos, para redigir nosso trabalho, porque acreditamos que elas têm algo a dizer sobre o assunto.


Comunidade de Amor


Segundo Gênesis, o livro da Origem, a Criação do mundo e de tudo o que nele existe foi um ato de amor de Deus. Ele moldou com sua palavra, a terra, o céu, as águas, a vegetação, todos os animais, insetos e finalmente o ser humano e na sequência observou tudo o que tinha sido feito, Deus viu que “estava tudo muito bom” (Gn 1.31). “Aos olhos de Deus, cada um dos elementos da criação tem um valor em si, tem uma dignidade própria, que lhe é conferida pelo próprio Criador. Assim Deus vai formando sua comunidade da criação” 1. Deus dispôs toda a criação com carinho, ordenou todos os elementos com amor.
Nas narrativas de Gênesis (Primeira 1.1-2.2a e segunda 2.2b-25), notaremos que Deus gerou o ser humano como parte integrante da criação, tanto que animais e seres humanos são trazidos a existência no mesmo dia (Gn 1.31). Há uma comunhão entre Deus, seres humanos, animais e vegetais. O Criador cunha uma grande comunidade de Amor.


Tarefa do ser humano: Cuidar e dominar, preservando a grande comunidade de amor
De acordo com Gênesis 1.26-28, Deus entrega ao ser humano a tarefa de dominar e cuidar de toda a Criação.


O mandato deve ser visto dentro da condição humana de “imagem de Deus” “Façamos o homem a nossa imagem” (v 26ª). Deus é o Deus da vida que não só criou a diversidade nos reinos animal, vegetal e mineral, mas, considerou toda a criação boa. Então o domínio humano sobre a criação não pode estar dissociado deste Deus representado no primeiro capítulo de Gênesis. 2


Deus criou a terra para o ser humano usufruir dela e assim ter uma vida abundante e plena (árvore da vida). A única condição exigida é a obediência ao seu projeto de vida, fraternidade e misericórdia e não decidir por si mesmo o que é o bem e mal (comer do fruto da árvore do bem e do mal) a fim de que o equilíbrio não seja rompido e assim não ser o causador de opressão, miséria e morte.
A criação da mulher como companheira é fundamental, pois assim homem e mulher poderiam compartilhar suas realizações com a mesma espécie e vivenciar integralmente a Comunidade de Amor. Era a chance do ser humano de partilhar o amor pleno e participar como co-criador, e isso aparece através da ordem de nomear cada animal.


Rompimento da Comunidade de Amor: O projeto da Serpente
A criação do universo e de todos os elementos comunica a bondade de Deus, o encanto e a poesia contida em cada flor, rio, árvore e no próprio ser humano é imensurável, somente um Deus amoroso e criativo poderia criar tanta beleza.
Dentro da comunidade original da Criação, Deus exige que o ser humano siga seu projeto e não decida por si mesmo, “Você pode comer de todas as árvores do jardim. Mas não pode comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em dela comer, com certeza, você morrerá. Gn 2.16-17 – Bíblia Pastoral”. Se desobedecesse ao Criador, o ser humano teria que enfrentar as agruras da vida, a falta de misericórdia, partilha e amor. Sua relação com a comunidade de amor sofreria modificações não desejadas por Deus.
O que era temido por Deus se realizará, pois o ser humano começou a ouvir a voz da serpente dentro do seu coração, inicia-se a sua tendência para o mal, ele escolherá caminhar sem a orientação, preferirá peregrinar por si mesmo. “O projeto da serpente inaugura o dinamismo de um desejo que destrói, desfaz e mata. Isso se encontra na raiz da vida humana, de todas as suas relações sociais, e portanto na raiz da construção da História e da Cultura.”3


Consequências de ouvir a voz da serpente
As consequências de ouvir a voz da serpente foram desastrosas. O ser humano é expulso do paraíso, ou seja, ele perde a comunhão que anteriormente tinha com a comunidade de amor. Começa a ter dificuldades de escutar a voz de Deus e obedecer a seu projeto. A própria história de Caim e Abel demonstra isso, pois a inveja, ganância, mesquinhez, mentira, violência entraram na vida humana, o que afetará todas as relações. O rodapé da Bíblia pastoral afirma:


4.1-16: O relacionamento entre os irmãos Caim e Abel é o oposto daquilo que Javé espera do relacionamento entre os homens; a fraternidade, em que cada um é protetor do seu próximo. A auto-suficiência introduz a rivalidade e a competição nesse relacionamento: a fraternidade é destruída e, em vez de proteger, o homem fere e mata o seu próximo. A primeira vez que a palavra pecado aparece na Bíblia é num contexto social (v.7)4


Observando a História humana, “ouvir” a voz da serpente foi calamitoso: fome, guerra, ganância, destruição ambiental.
A terra (a grande oikos=casa) que antes proporcionava alimento, moradia, bem estar e vida a toda a Comunidade de Amor foi sendo transformada pelo ser humano, que escolheu seguir seu próprio caminho e assim abandonar a proposta de vida, misericórdia e solidariedade do Criador e Doador da vida.


Exemplos da ação destruidora do ser humano
A História é repleta de exemplos da ação destruidora do ser humano, pós- serpente
O século XX enfrentou duas guerras mundiais: a Primeira Guerra: 1914-1918 - matou nove milhões de pessoas e a Segunda Guerra 1939-1945 - matou 55 milhões de pessoas. Seis milhões de pessoas (judeus) morreram em campos de concentração. O “desenvolvimento” econômico a qualquer custo levou florestas a desaparecerem e outras quase à extinção, um exemplo disso é a Mata Atlântica Brasileira: “Séculos de exploração madeireira predatória, queimadas, expansão agrícola, pecuárias e urbana, destruíram 93% da mata Atlântica”5
A fome assola o mundo, milhares de pessoas morrem por falta de alimentos anualmente:
Entre quatro e cinco milhões de pessoas a cada ano entram do setor da população mundial que passam fome, e que representa um sexto do total, afirmou hoje a diretora-executiva adjunta do Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas, Sheila Sisulu.
Ao apresentar uma publicação que analisa essa situação, a representante da agência das Nações Unidas disse que "cerca de 25.000 pessoas morrem diariamente devido a doenças relacionadas à desnutrição" e acrescentou que, em geral, a falta de comida e as carências nutricionais "causam mais mortes que a AIDS, a tuberculose e a malária juntas".6


Outro problema é a agressão ao ambiente que levou ao desaparecimento de várias espécies animais e aves: Segue uma pequena lista deles:


Dados da Ave:
Nome: Dodô
Nome Científico: Raphus cucullatus
Local onde viveu: Ilhas do Oceano Indico
Peso: Cerca de 23 quilos
Tamanho: 50 centímetros de altura
Alimentação: Herbívora
Extinção: Século XVII.
Estas aves tinham muita carne e foram mortas para abastecer os navios que passavam pela região. Elas se alimentavam de uma semente dura proveniente de uma árvore chamada Calvária, e sua propagação somente se dava após passarem pelo estômago do Dodô. As Calvárias ainda existentes datam de mais ou menos 300 anos, também estão em extinção.
Dados do Mamífero:
Nome: Quagga
Nome Científico: Equus quagga
Local onde viveu: África
Peso: Cerca de 350 quilos
Tamanho:  1,6 metros de altura
Alimentação: Herbívora
O Quagga foi uma espécie de zebra extinta há 120 anos nos prados da África do Sul, seus hábitos eram idênticos aos das zebras atuais, porém como habitava uma pequena região específica e caçado tanto pela sua carne como pela sua pele, a ponto não sobrar mais nenhum na natureza, fato este que ocorreu em 1872, sobrevivendo apenas alguns animais em zoológicos espalhados pelo mundo. O último representante dessa espécie morreu no Zoológico de Amsterdã em 1883, aumentando assim a lista de espécies extintas pela "Invasão Humana".
Além dessas houve outras espécies extintas: Moa Gigante (um pássaro gigante, algumas espécies podiam chegar a 4 metros, viveu na Oceania), Lêmure Gigante (viveu em Madagascar), Tartaruga Gigante de Rodrigues (habitou a Oceania).
Segundo Genebaldo Freire Dias em seu livro Antropoceno, vivemos um período de extinção em massa. Estão ameaçados de extinção: 11% das aves, 25% dos mamíferos e 34% dos peixes. A causa principal desse aniquilamento é a destruição do seu habitat.
Cada vez que uma espécie é extinta, a solidão humana aumenta, a Terra empobrece e o ser humano fica mais só e o projeto de Deus referente à Comunidade de Amor se distância.


O que tem sido feito para mudar tudo isso?
A sociedade humana tem buscado resolver os graves problemas ambientais. O primeiro grande esforço internacional foi a realização da Conferência de Estocolmo (Suécia 1972), reunindo 130 nações. Em 1992, passados vinte anos, representantes de 170 países estiveram presentes na Conferência conhecida como Rio-92, que produziu o documento intitulado Agenda-21, um tratado de compromissos ambientais, contendo recomendações para um novo modelo de desenvolvimento (Sustentável) e enfatizando a importância da Educação Ambiental.


Seguiram-se outros encontros internacionais para tratar especialmente de temas como biodiversidade, camada de ozônio, efeito estufa e alterações climáticas, assentamentos humanos, crescimento desordenado da população mundial, situação da mulher, entre outras questões, que resultaram em importantes acordos, tratados e convenções, muitos dos quais estão sendo negociados.7




O pecado entrou no mundo, mas existe redenção
Apesar do ser humano ter ouvido a serpente e rejeitado o projeto do Criador, ele não é abandonado à sua própria sorte, pois Deus procurará meios para proporcionar salvação e redimir toda a Criação. Jeffrey Burton Russell afirma que mesmo:


Adão e Eva, tendo quebrado o acordo com Deus, introduziram uma era de pecado, até que Deus deu uma segunda chance à humanidade com as alianças que ele fez com Israel e com os profetas que enviou aos filhos de Israel. Eventualmente ele enviou Cristo para destroncar o mal e restaurar o bem no reino de Deus8


Deus não se exime de continuar cuidando de toda a sua criação, porém o ser humano ainda tem a tarefa fundamental de zelar por ela. Os problemas ambientais, sociais, econômicos, que estão todos relacionados entre si não foram uma invenção divina, mas humana, pois Ele gerou todas as coisas em harmonia. Dessa maneira, quem tem o encargo de resolver a questão da pobreza, exploração da mulher e da criança, do desmatamento, entre outros é o próprio ser humano.


A solução para os problemas climáticos do planeta Terra só será encontrada se houver uma mudança no coração dos seres humanos. A análise é do arcebispo da Cantuária, na Inglaterra, Rowan Williams, líder mundial da Igreja Anglicana
O clérigo fez a declaração numa palestra na Catedral de York, abordando as relações entre a fé cristã e as questões ecológicas. Williams disse que não vale esperar que Deus resolva tudo sem que governos e cidadãos cumpram sua parte na resolução dos problemas ambientais.
“Acho que sugerir que Deus possa intervir para nos proteger da loucura comum das nossas práticas é tão anticristão e antibíblico como sugerir que ele nos protege das consequências da nossa insensatez ou pecado individual”, frisou o clérigo.
O líder anglicano não deixou de criticar as nações do Primeiro Mundo pela degradação ambiental mundial: “Os países ricos têm a responsabilidade de lidar com as questões ambientais, para o bem dos mais pobres e para as gerações futuras”.
Wiliams acrescentou que o mundo enfrenta uma série de cenários catastróficos em que “o final trágico é que um mundo capaz de ser uma manifestação em mãos humanas do amor divino é entregue a si mesmo, enquanto a humanidade é gradualmente sufocada, afogada ou esfaimada pela sua própria estupidez.”
O arcebispo mencionou ainda que a mudança só será possível se houver uma “transformação radical”, em que as pessoas limitem os danos causados ao meio ambiente, deixando ainda assim o que chamou de “espaço seguro” para a natureza continuar incólume da interferência humana”9


A Igreja é a questão ecológica
Quando se fala em ecologia10 deve-se ter em mente que o tema não trata somente da destruição do Meio Ambiente e problemas como poluição, aquecimento global, chuva ácida, desflorestamento, agressão a animais entre outros, mas ela engloba outros elementos que deve ser também alvo da ação da Igreja de Cristo, como por exemplo: Quando a democracia está em perigo, os direitos humanos não são respeitados, há eminência de guerra, etc. Leonardo Boff escreve que:


Sofremos com a ameaça que pesa sobre todo o nosso planeta, de ser destruído por um cataclisma nuclear. Pesa-nos o fato da agressão sistemática da natureza, com o desaparecimento de espécies vegetais e animais. Desola-nos o cinturão de miséria que circunda nossas cidades.11


Dessa maneira, a questão ecológica desafia a Igreja de Cristo, pois ela é chamada para ser luz e sal do mundo (São Mateus 5.13-16) e não pode ficar inerte aos graves problemas de ordem ecológica, a práxis dos cristãos e cristãs precisa estar inserida na sociedade, levantando sua voz profética através de ações concretas, em prol do Reino de Deus, testemunhando um Deus preocupado com toda a sua criação. A ação pastoral da Igreja tem que estar voltada para uma ação solidária e libertadora da natureza e daqueles que sofrem. Clóvis Pinto de Castro propõe uma ecologia em perspectiva holística orientada pela solidariedade, ou seja, uma eco-solidariedade.


Ação Pastoral ecológica
Qual deve ser o papel da Igreja? Como ela pode agir para que a natureza, os pobres, o desamparado sejam protegidos e assim saírem da sua condição de dor e sofrimento e assim possam desfrutar de vida em abundância? Tentamos apontar alguns caminhos que não são definitivos e únicos, mas pistas para o trabalho da Santa Igreja.
A Ação pastoral ecológica é um caminho que a Igreja pode desenvolver para organizar sua ação junto a todos/as que necessitam da ação libertadora da graça de Deus e assim lutar para o restabelecimento da Comunidade de Amor sonhada por Deus. Passamos a indicar alguns caminhos para o trabalho da igreja.


Pastoral da Mordomia Cristã


Os seres humanos em geral e os cristãos em particular receberam a tarefa de velar pela criação continua de Deus, uma criação que se estende até hoje, incluindo todas as mutações, transformações e evoluções naturais. Nós somos um elo da comunidade da criação. Não podemos viver isolados nem separados, nem por cima de outros elos da criação. Temos responsabilidade por eles, no espaço e no tempo. 12


Para que esse cuidado se concretize na vida da Igreja, sociedade, criação e pessoas é necessário que a igreja organize pastorais específicas para atenderem as necessidades presentes no mundo.
A pastoral da Mordomia Cristã é um caminho para o atendimento a necessidades específicas. Um conceito de mordomia cristã nos é apresentado por Jacob Silva: “Mordomia cristã – refere-se à administração correta de todos os bens e recursos que Deus colocou à nossa disposição, bem como, de todos os dons com que enriqueceu nossas vidas, seguindo os valores cristãos!”13
A pastoral da Mordomia Cristã é uma oportunidade dada a Igreja de colocar seus dons a serviço do Reino de Deus e do restabelecimento da Comunidade de Amor. Esse ministério tem a prerrogativa de colocar-se ao lado de quem sofre: pobres, meio ambiente, animais (quando sofrem agressões) entre outros.
Essas questões podem ser efetivadas através de denúncias aos órgãos competentes de crimes contra pessoas, grupos, meio ambiente e animais, implantação de um programa de educação ambiental, além de palestras sobre reciclagem, moda e consumismo, direitos dos animais14, leis que tratam de crimes contra animais15, conscientização quanto ao uso racional da energia e água, racismo entre tantos outros.
Pastoral da Misericórdia e Promoção Humana
A Pastoral da Misericórdia e Promoção Humana é importante para que a Igreja socorra as pessoas que estão passando necessidades físicas, psicológicas e espirituais. Essa pastoral associada à de Mordomia Cristã faz parte da própria dimensão diaconal da Igreja de Cristo, aliás essa divisão é somente estrutural, pois as duas pastorais devem caminhar de mãos dadas.
Essa pastoral pode ter a tarefa de atender as famílias e pessoas que enfrentam as agruras da fome, com a distribuição de cestas básicas, manter cursos nas paróquias para desempregados aprenderem um oficio (Como fazer salgados, artesanato etc.). É importante recordar que as paróquias devem “ensinar a pescar” e não simplesmente “entregar o peixe” como diz um dito popular.


Celebrações Litúrgicas
As celebrações litúrgicas também são uma oportunidade para louvar e agradecer pela criação e um espaço para a educação ecológica. Há períodos que podem ser comemorados como o Dia da Árvore, da Água, Semana do Meio Ambiente. Há outros próprios da Igreja Episcopal Anglicana, como as Rogações, quando a comunidade de fé ora pela Justiça Ecológica e Social, como, por exemplo: Estações Frutíferas, Comércio e Indústria, Mordomia da Criação e Justiça Social. As orações estão presentes na página 153 do Livro de Oração Comum de 1984.
É fundamental transformar essas celebrações em momentos de festa e reflexão quanto à questão ecológica numa visão holística.


conclusão


Segundo os relatos da Gênesis, todos os elementos foram criados com muito carinho. Ao terminar sua obra, o Criador observou e viu que estava tudo muito bom.
Nas narrativas, o ser humano é parte integrante da criação. Há uma comunhão entre Deus, seres humanos, animais e vegetais. O Criador cunha uma grande comunidade de Amor.
A tarefa da mordomia é entregue ao ser humano, que além de cuidar de toda a criação, poderia usufruir dela para ter uma vida abundante e plena. A única exigência era obedecer ao projeto de Deus (fraternidade, misericórdia e vida) e não decidir por si mesmo o que é bem e mal, a fim de que o equilíbrio não fosse rompido e assim, não ser o causador de opressão, miséria e morte.
O que era temido se realizou. O ser humano ouviu a voz da serpente dentro do seu coração, inicia-se a sua tendência para o mal, ele preferirá caminhar sem a orientação divina.
O projeto da serpente invadirá o coração humano, a primeira conseqüência será sua expulsão do paraíso e, portanto, a perda da comunhão com Deus e com a criação. A partir disso, o ser humano será o próprio agente do mal. A abundância e paz do paraíso desaparecerão e o mundo sofrerá perdas irreparáveis: desaparecimento de espécies animais e vegetais, guerras, fome, poluição. A lágrima e dor estarão presentes na história humana.
Apesar de toda a destruição e dor, o ser humano tem se despertado para o problema e através de conferências e tratados tem procurado resolver e amenizar as agressões contra a vida. As várias religiões também têm levantado seu clamor em prol da humanidade.
A Igreja do século XXI tem de clamar para que haja uma renovação de compromissos e trabalhar para que a Comunidade de Amor se restabeleça, pois este é um dos seus fundamentais papéis.
A comunidade eclesiástica pode e deve organizar-se para trabalhar em prol da humanidade. Pastorais como Mordomia Cristã, Misericórdia e Promoção Humana podem ser caminhos facilitadores. Além disso, ela pode, nas Celebrações Litúrgicas, louvar e agradecer, assim como despertar por meio das homilias, o povo de Deus, para o grave problema ecológico mundial.


Referências Bibliográficas


1.ANDERSON,A.F; GORGULHO, Fr. GG, Deus Cria para a liberdade (Gn 1-11), São Paulo, 1990. Brochura sem editora.
2.Anotação de aula do iaet: Professor, teólogo, Rev. Leandro Antunes de Campos – 2008
3.Bíblia Pastoral, Brasilia, Paulus, 1991
4.BOFF, L. Ecologia, Grito da Terra, Grito dos Pobres, São Paulo, Editora Ática, 1996.
5.BOFF, L. Ecologia, Mundialização, Espiritualidade, São Paulo, Editora Ática, 1993
6.CASTRO, C.P. de A Cidade é minha Paróquia, São Bernardo do Campo, Editeo/Exodus, 1996
7.DIAS, G. F. Antropoceno, Iniciação à temática Ambiental,. São Paulo, Editora Gaia, 2002.p.17
8.MARCELO, Reginaldo, Ecologia, Uma Abordagem Pastoral, Monografia, UMESP, São Bernardo do Campo, 1997.
9.http://noticias.uol.com.br/ultnot/efe/2006/07/13/ult1766u16850.jhtm
10.Russell , J. B. O fim do mundo: medo, conspiração e esperança, in http://www.centroestudosanglicanos.com.br/bancodetextos/diversos/fim_do_mundo.pdf
11.SCHARPER, S.B, CUNNINGHAM, A Bíblia Verde, São Paulo, Edições Loyola, 1994.
12.Wegner, U. Bíblia e Ecologia, Belo Horizonte, CEBI, 1992.
13.Vários, Cristãos, Mordomos da Criação, Série: Ambiente e Futuro, 2ª ed. Quito, Equador, 1994.
14.www.avph.com.br/extintos.htm
15.www.evangelicosnews.com.br/2009/03/deus-nao-vai-resolver-crise-ambiental-diz-lider-anglicano/