domingo, 22 de maio de 2011

Batismo: Celebrando a vida em Comunidade

Por Ivan Vieira


Nestas páginas falarei sobre a importância do Sacramento do Batismo, porta pela qual entramos na Vida Cristã. Pela graça do Batismo somos remidos de todos os pecados, somos incorporados ao Corpo Místico de Cristo e somos chamados a viver em santidade. O ato em si nos torna participantes do Seu Reino, nos torna sacerdotes porque participamos do sacerdócio de Cristo e nos torna profetas para anunciar a libertação aos cativos e necessitados do amor de Deus.

Sumário

1) Introdução
2) Desenvolvimento
2.1 O Sacramento do Batismo
2.2 O Batismo de Cristo
2.3 O Batismo na Igreja
2.4 O Batismo de Adultos e Crianças
2.5 A Graça do Batismo
2.6 A Simbologia Batismal
2.7 Batismo: Celebrando a Vida em Comunidade
3) Conclusão
4) Bibliografia

Introdução

O Batismo faz de nós filhos de Deus e, por consequência disso, pertencemos à mesma família de irmãos. Levando em consideração que este Sacramento nos dá identidade, através dele somos enxertados no grande Corpo Místico e somos convidados a viver em comunidade. Somos intimados a sermos diferentes em um mundo onde a secularização massificou a todos.


Aquele que foi batizado é convidado a colocar em prática o Mandamento Novo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Seremos reconhecidos quando esse Mandamento Novo for vivenciado por cada batizado. Reconhecerão que somos discípulos de Cristo quando ouvirmos a voz dos mais necessitados e o nosso egoísmo for menor do que o grito daqueles que gemem de fome e de dor.


O nosso Batismo não só nos dá a certeza de sermos filhos de Deus, mas desperta em nós a consciência de que assumir a identidade cristã traz consigo o compromisso de colaborar com a construção do Reino de Deus.


Fazemos parte de um Corpo e estamos em comunhão com muitos irmãos que a cada dia ouvem os apelos de Deus e são impelidos, como nós, a também dar a sua resposta única e pessoal.


Brevemente, nestas poucas páginas, convido os caríssimos irmãos de caminhada a uma reflexão sobre o Santo Batismo desde Jesus Cristo, batismo esse administrado pelo precursor João Batista; assim como o de outrora realizado nas comunidades primitivas onde os catecúmenos eram preparados para receber este sacramento que era o “green card” da inserção dos eleitos de Deus em Jesus Salvador.


O batismo de adultos e crianças também será tratado nestas páginas. Como disse acima, as pessoas que eram evangelizadas e sentiam o forte apelo a integrar-se na comunidade cristã eram batizadas, o que era uma situação normal na Igreja. No século II, a prática de batizar crianças vai se tornar uma tradição.


Em a Graça do Batismo veremos que o ato em si não só purifica de todos os pecados, mas também faz de cada batizando uma criatura nova.


O rito batismal é riquíssimo em símbolos, por isso a Liturgia deve ser bem preparada porque é o momento da comunidade juntamente com a família que celebra este momento acolher a criança ou o adulto que participa da festa dos que aderiram ao seguimento de Cristo Jesus.


2.1) O Sacramento do Batismo.

Não podemos conceber a vida cristã sem o sacramento do batismo, através deste somos remidos de todo pecado e regenerados como filhos de Deus e feitos participantes de sua missão.


Há duas maneiras de compreendermos o Batismo, ambos encontram-se no Novo testamento: o batismo descrito como renascimento Jo 3, e o batismo como participação na morte de Cristo, segundo a interpretação que dá Paulo em Romanos 6 (ou Colossenses 2, 12ss). Segundo ele pelo Batismo, o crente comunga na morte de Cristo, é sepultado e ressuscita com Ele.


No primeiro exemplo, a fonte batismal é vista como o seio materno e no segundo como um sepulcro. O Batismo então pode ser visto, ao mesmo tempo, como nascimento e como morte, porque através deste sacramento nós entramos no mistério de Cristo. É o nosso primeiro casamento místico com Deus.


Quando batizados nós somos incorporados à Igreja, porque através do Batismo, nos tornamos membros de Cristo e membro de seu corpo.


Existe um só Batismo, graças ao qual somos incorporados ao mistério profundo invisível do corpo de Cristo, à Igreja una, santa, católica e apostólica. Mas como essa Igreja vive na história em um estado de divisão, com o batismo entro em uma igreja católica romana, ortodoxa, anglicana etc.


O batismo é uma passagem, uma mudança ontológica de situação. Por meio dele, a criança, o adulto e as famílias são admitidos na Igreja, tornam-se herdeiras e plenamente filhas de Deus.


“O Batismo é o mais belo e mais magnífico dom de Deus. Chamamo-lo de dom, graça, unção, iluminação, veste de incorruptibilidade, banho de regeneração, selo e tudo o que existe de mais precioso. Dom, porque é conferido àqueles que nada trazem; Graça, porque é dada até aos culpados; Batismo, porque o pecado é sepultado na água; Unção, porque é sagrado e régio; Iluminação, porque é luz resplandecente; Veste, porque cobre nossa vergonha; Banho, porque lava; Selo, porque nos guarda, e é o sinal do senhorio de Jesus”. (Catecismo da Igreja Católica, pag. 341 – Edições Loyola).


O Senhor mesmo afirmou que o batismo é necessário para a salvação (Jo 3,5). Também ordenou aos seus discípulos que anunciassem o Evangelho e batizassem todas as nações (MT 18, 19-20). Através dele somos purificados de todo pecado e faz do neófito, ou seja, daquele que foi batizado, uma criatura nova (2 Cor. 5,17), um filho adotivo de Deus (Gl 4, 5-7), que se tornou participante da natureza divina (2Pd 1,4), membro de Cristo (1 Cor. 6,15;12,27) e co-herdeiros com Ele (Rm 8,17), templo do Espírito Santo (1Cor. 6,19).


Somos batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A Santíssima Trindade dá ao batizado a graça santificante, a graça da justificação a qual torna-o capaz de crer em Deus, de esperar nele e de amá-lo por meio das virtudes teologais; concede-lhe o poder de viver e agir sob a moção do Espírito Santo por seus dons; permite-lhe crescer no bem pelas virtudes morais. Desta forma todo organismo da vida sobrenatural do cristão tem sua raiz no Santo Batismo.


Com o Batismo somo incluídos plenamente na comunidade do povo de Deus – Corpo de Cristo, comunidade do Espírito Santo, da Nova Aliança, da Nova Criação e nos identificamos com o que faz a Igreja ser Igreja: portadora da Boa-Nova aos necessitados.


Paulo em 1 Cor. 12,13 refere-se a essa identidade comum de todos os cristãos dizendo: “Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito”.

2.2) O Batismo de Cristo.

Todas as promessas da antiga aliança encontram sua realização em Cristo Jesus. Cristo inicia sua vida pública depois de ter sido batizado por João batista no Jordão. Embora não tivesse pecado (Jo 8,46), Jesus quis submeter-se ao Batismo de João, no qual reconhece um acontecimento que corresponde à vontade de Deus (Lc 7,29-30), constituindo a preparação final para a era messiânica (Mt 3,6), e satisfazer assim a justiça salvífica de Deus que preside o desígnio da Salvação.


Indo além do ato do Batismo, Mateus pensa certamente na nova “Justiça” pela qual Jesus havia de cumprir e completar a lei antiga. O espírito que pairava sobre as águas da primeira criação (Gn 1,2) aparece aqui no prelúdio da nova criação. Por um lado ele unge Jesus para sua missão messiânica (At 10,38), que de agora em diante há de dirigir (Mt 4; Lc 4, 14-18), por outro lado, como entenderam os Pais da Igreja, santifica a água e prepara o batismo cristão (At 1,5).


Confirma Jesus como o verdadeiro servo anunciado por Isaías. Entretanto o termo “Filho”, que acaba por substituir o termo “Servo” salienta o caráter messiânico e propriamente filial de sua relação com o Pai.


Marcos relata o Batismo de Jesus também confirmando em Jesus todas as promessas messiânicas: “Logo que Jesus saiu das águas viu o céu se rasgando, e o Espírito como pomba, desceu sobre Ele” (1,10).


O evangelista enfatiza que ao rasgar o céu, na pessoa de Jesus, a separação que havia entre Deus e os homens se rompeu. E a voz que ecoa do céu: “Tu és o meu Filho muito amado, em ti encontro o meu agrado”, vem confirmar as promessas de Deus ao povo de Israel e revelar a identidade do homem de Nazaré: Ele é o Filho de Deus, o Messias-Rei (Sl 2,7) que vai estabelecer o Reino de Deus através do serviço, como o Servo de Javé (Is 42, 1-2).


Para Lucas o batismo de Jesus acontece num contexto em que João batiza o povo, e Cristo Jesus está inserido neste ambiente e acontecimento (3,21-22). Já no batismo, Lucas declara o caráter messiânico de Jesus, Ele está no meio do povo. Jesus após o batismo se põe a rezar, então o céu se abre.


É magnífico como os evangelistas usam desse recurso belíssimo para mostrar a grandeza e a magnitude do Mestre Jesus. O céu se abre, o céu se rasga. Todos, naquele momento, puderam ver e testemunhar a Beleza revelar-se através do Espírito em forma de pomba. E a confirmação que sai mais uma vez da boca de Deus: “Tu és o meu Filho amado! Em ti encontro o meu agrado”.

2.3) O Batismo na Igreja.

A partir de Pentecostes, acontece uma revolução na Igreja, os apóstolos cheios de coragem, vivificados pela força do Espírito santo, impulsionam a comunidade a sair, proclamando a Boa Nova de Jesus, celebrando e administrando o Santo Batismo aos neo-convertidos ao cristianismo.


Pedro declara a multidão impressionada com sua pregação: “arrependei-vos, e cada um de vós, seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão de vossos pecados. Então recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2,38).


Os apóstolos pregam um batismo de conversão e é administrado a todo aquele que crer em Jesus: judeus, tementes a Deus, pagãos (1Jo 5, 6-8).


O batismo está sempre ligado a fé: “crê no Senhor e serás salvo, tu e tua casa”, declara Paulo ao carcereiro de Filipos. O relato prossegue: “E imediatamente o carcereiro recebeu o Batismo, ele e todos os seus (At 16, 31-33).


Com o Batismo, a pessoa que é batizada é feita membro de Cristo e de seu corpo. Existe um só batismo, graças a este somos incorporados ao mistério profundo invisível do corpo de Cristo.


“Depois de Pentecostes, Cristo é inseparável de seu corpo eclesial, cuja salvação não é nem individual, nem coletiva, mas em comunhão” (Campatelli, Maria.O Batismo: cada dia às fontes da Vida). O Batismo nos introduz a Cristo e aos irmãos nessa comunhão inseparável a que chamamos koinonia.


A ânsia por uma vida plena, pela libertação, certamente move muitas pessoas até hoje. Para os antigos cristãos, o encontro com Cristo era tão fascinante que eles assumiam até os perigos da perseguição para estar em comunhão.


A carta de Pedro transpõe a mensagem de Jesus à situação espiritual do mundo helenístico, nela ele deixa claras as razões da atração exercida por Jesus, no fato de ele fornecer tudo que é bom para a vida do cristão: “ Por ele nos foram concedidos os bens do mais alto valor que nos tinham sido prometidos, para que graças a eles, entrássemos em comunhão com a natureza divina, tendo-vos arrancado à corrupção que a concupiscência alimenta no mundo” ( 2Pd 1,4).

2.4) Batismo de Adultos e Crianças.

Nas comunidades primitivas, o catecumenato era uma realidade onde as pessoas eram preparadas, instruídas na fé e em união com uma comunidade eclesial que levava o catecúmeno à conversão, à fé e à maturidade.


À medida que cresceu o número dos adultos que queriam tornar-se cristãos, nasceu a exigência de uma preparação mais sólida para receber o batismo.


A figura dos padrinhos, membros fiéis à comunidade, surgiram para garantir e acompanhar os neo-convertidos na nova estrada na qual se preparava para caminhar.


Na Igreja dos primeiros séculos, antecedendo o ritual do Batismo, havia uma preparação de muitos anos em que os batizandos eram introduzidos no mistério da vida cristã. A partir desse momento, eles rompiam com seu passado e se tornavam novas criaturas comprometidas em testemunhar Jesus Ressuscitado.


A partir do sec. II, a prática de batizar crianças tornou-se tradição na Igreja. Mas acredita-se que desde o início da pregação apostólica, quando “casas inteiras” recebiam o batismo também se tenham batizado as crianças.


Devemos reconhecer que a criança não tem apenas uma vida terrena, mas também divina, que a morte não tem mais poder sobre ela, porque ela já participa da ressurreição de Jesus.


“No Batismo, o próprio Jesus toca a criança, instala nela a sua vida divina e o seu amor incondicional, transmite-lhe a proteção de Deus e mostra-lhe toda a sua beleza” (Anselm Grün, Batismo – Celebração da vida).


A gratuidade pura da salvação é particularmente manifesta no batismo das crianças. A Igreja e os pais estariam privando as crianças da graça inestimável de tornar-se filhos de Deus se não lhes conferissem o Batismo depois do nascimento.

2.5 ) A Graça do Batismo.

Pelo Batismo, somos libertos de todos os nossos pecados: o pecado de nossos antepassados (original) e todos os pecados pessoais, bem como todas as penas do pecado. Desta forma todos que receberam a graça do batismo, que foram incorporados à Igreja em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, foram regenerados. Não há mais sobre eles nada que os impeça de entrar no Reino de Deus.


O Batismo não só nos purifica de todos os pecados, mas também faz de todos os batizados “uma criatura nova” (2Cor 5:17), um filho adotivo de Deus (Gl 4:5-7); que se tornou participante da natureza divina (2Pd 1:4), membro de Cristo (1Cor 6:15; 12:27), pois uma vez batizados, somos incorporados à Igreja.


Da fonte batismal é que nasce o único povo de Deus da nova aliança. Como nos diz São Paulo em Cor. 12,13: “Fomos todos batizados num só Espírito para sermos um só povo.” Somos ainda co-herdeiros com ele (Rm 8:17), e templo do Espírito Santo (1Cor 6,19).


O Deus Triuno dá ao batizado a graça santificante, a graça da justificação a qual:


- Torna-o capaz de crer em Deus, de esperar nele e de amá-lo por meio de Virtudes Teologais;


- Concede-lhe o poder de viver e agir sob a moção do Espírito Santo por seus dons;


- Permite-lhe crescer no bem pelas virtudes morais.


Pelo Batismo recebemos ainda a graça de participarmos do sacerdócio de Cristo, de sua missão profética e régia. “Sois a raça eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo de sua particular propriedade, a fim de que proclameis as excelências daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa” (1Pd 2,9).


O Batismo imprime na alma um sinal indelével, o caráter, que consagra o batizado ao culto da religião cristã. O selo batismal capacita e compromete os cristãos a servirem a Deus em uma participação viva na sagrada liturgia da Igreja e a exercerem seu sacerdócio batismal pelo testemunho de uma vida santa e de uma caridade eficaz.

2.6 ) Simbologia Batismal.

Na Celebração do Batismo, alguns símbolos são utilizados para expressar o momento batismal. Os Símbolos são a linguagem do mistério. Os Símbolos na Liturgia contém, ocultam e, ao mesmo tempo, revelam e comunicam o mistério.


Na Liturgia, todos os sinais são sinais simbólicos, e serão sinais litúrgicos na medida em que forem capazes de ocultar, conter, revelar e comunicar os mistérios de Cristo.

1) A Água:


É a imagem central do batismo e, ao mesmo tempo, é o símbolo mais importante porque ela é origem de toda vida, sem ela nada floresce tudo fenece. Ela é uma imagem de fecundidade espiritual. Simboliza a pureza.


Quando se derrama água sobre a cabeça do batizando, esse derramamento simboliza o derramar e o lavar do Espírito Santo e o ser revestido de Cristo. Das águas do Batismo santificadas pelo Espírito Santo emerge uma nova criatura. Muda-se vida-morte para o mundo, em vida em Jesus.


A Igreja, pelas águas do Batismo, dá a luz novos filhos. (Jo 3: 1-13).


A água é apenas um símbolo, ela não tem a força e nem o poder de purificar o pecado. É o Espírito Santo que nela atua em todos os acontecimentos e no momento do Batismo. Ele com a força e o poder divino destrói todo o mal que existe e proporciona a alegria de uma nova vida.

2) O Sinal da Cruz:

Logo após o diálogo introdutório em que os pais pedem o Batismo para a criança, o sacerdote convida-lhes a traçarem o Sinal da Cruz na fronte da criança.


Este momento representa o primeiro encontro da criança com a fé em Jesus Cristo na salvação pela morte redentora do Senhor na cruz. Fazer o Sinal da cruz é lembrar o mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Faz-nos lembrar ainda que o Filho do Homem morreu na cruz para nos reconciliar com o Pai.


Quando o sacerdote convida os pais a traçarem o Sinal da Cruz na fronte da criança, ele quer dizer a salvação vem àquela criança através da fé dos pais.

3) O Óleo Santo:

O óleo perfumado, consagrado pelo bispo, significa o dom do Espírito Santo ao novo batizado. Este se tornou um cristão, isto é, ungido do Espírito Santo incorporado a Cristo que é ungido sacerdote, profeta e rei.


O rito de Unção no Batismo é feito após a infusão da água. É a Unção com óleo chamado do crisma. O sacerdote unge a testa da criança dizendo: “N”, no Batismo estás selado (a) pelo Espírito Santo com o sinal da cruz (+). És de Cristo para sempre. Amém.


No Antigo testamento era comum ungir sacerdotes, reis e profetas. O próprio Cristo foi ungido pelo Espírito Santo de um modo muito especial. Esta unção significa para nós que pelo Batismo nos tornamos participantes do poder messiânico de Jesus. E ainda como afirma Pedro na sua primeira epístola (1 Pedro 2, 9-10 ), nos tornamos raça eleita com Cristo, reis (rainhas), sacerdotes e profetas.


Profetas, porque participamos da salvação em Cristo, e comprometidos a anunciar a humanidade o mesmo Cristo por palavras e testemunho de vida. Mostrar a face de Deus que, como nos diz João Evangelista: “Deus é amor” e isso através do verdadeiro amor pessoal.


Tornamo-nos sacerdotes. Não possuímos o sacerdócio ministerial com o poder de fazer a consagração na Ceia Eucarística. Mas nos tornamos participantes do sacerdócio de Jesus, pois participamos do novo povo de Deus na Nova Aliança. Fazemos parte de um povo sacerdotal capaz de oferecer sacrifícios com Cristo. Isto porque, recebemos nossa vida como precioso dom de Deus e assim, devemos oferecê-la em retribuição, em ação de graças ao criador. Todo cristão pode e deve, em sua vida, orientar todas as coisas para Deus.


Por fim, pelo Batismo nos tornamos reis, possuidores do Reino de Deus. Com Jesus vencemos a morte e o pecado e podemos participar da própria vida de Deus.

4) A Vela Acesa:

Significa que Cristo iluminou o neófito. Em Cristo os batizados são a “luz do mundo” (Mt 5:14). Este gesto é muito significativo. Na cerimônia do Batizado, o sacerdote acende uma vela e a entrega aos pais e padrinhos dizendo: “Entrego-te esta Luz”. Em seguida toda a assembléia responde: “Como testemunho de que passaste das trevas para a luz. Agora deves brilhar como a luz no mundo, para a glória de Deus Pai”.


Pelo Batismo somo iluminados, participamos da Luz que é Cristo. Não mais andamos nas trevas, pois somos filhos de Deus. A vela acesa pode significar também a nossa fé. Ela mantendo-se acesa mostra que não caminhamos nas trevas do inimigo.


Os pais se tornam responsáveis para que a criança se torne luz para os outros em sua vida. Recomenda-se aos pais que, anualmente, no transcurso da data do batismo, a mesma vela seja acesa, repetindo-se o gesto até que a criança venha a ser confirmada. ( Livro de Oração Comum – rubricas ).

2.7) Batismo: Celebrando a vida em comunidade.

Celebrar é festejar, é alegrar-se com as coisas boas que recebemos. É deixar-nos saborear as delícias de uma vida de realizações. É fazer com que a vida seja bem vivida e celebrada com a família e com os amigos.


O Batismo nos torna partícipes do Corpo Místico de Cristo. Faz a todos nós irmãos e nos torna membros da comunidade paroquial.


O ato de levar uma criança para ser batizada faz renascer no ser humano o gesto de gratidão e de alegria, porque assim recorda-se o próprio batismo, já que os pais e padrinhos quando foram batizados, não tinham o discernimento necessário para entender a beleza por detrás da liturgia do Batismo e de toda a sua dimensão.


Os pais de um lado, felizes pela sua cria que vai receber o batismo, os padrinhos de outro, felizes por terem sido eleitos pessoas amigas e queridas a quem os pais confiam seus filhos.


É o momento em que todos estão sensibilizados com a cerimônia e o ato em si. Daí surge a oportunidade para assim como Cristo, evangelizar, levar uma mensagem de esperança e apresentar Jesus que pode restituir a todos a alegria de viver.


A comunidade em torno do altar assiste ao batismo e participa renovando, mais uma vez, as promessas do Batismo. A água que é símbolo de vida e purificação é jogada sobre a cabeça da criança. Basta uma gota d’água sobre a cabeça. Naquela gota se encontra todo amor dos pais. Naquela gota d’água contém vida, contém esperança. Onde há gota d’água pode haver um rio caudaloso, pode haver peixes, plânctons, pode haver uma imensidão.


Por isso a liturgia do Batismo deve ser bem preparada, e de preferência que aconteça durante a Celebração Eucarística para ressaltar a importância do ato e o convite que é feito a todos para participar da mesa de comunhão.


É a mesa dos batizados, é a mesa dos irmãos que juntos ouvem a Palavra e repartem o pão imitando o gesto de Jesus com seu apóstolos. “O Batismo nos une a Cristo e uns aos outros. Na medida em que a Igreja se vê formada pela sua identidade batismal, teremos consequências para a celebração da Santa Eucaristia”. ( Relatório da Vª Consulta Internacional Anglicana de Liturgia – Dublin, Irlanda – 1995 ).


O Relatório de Dublin nos diz ainda que os Sacramentos são ações realizadas por toda a assembléia. Então quando estamos reunidos com todos os batizados, povo de Deus, celebramos juntos a Eucaristia, o Batismo etc.


Para que saia tudo de acordo, a equipe de liturgia deve entrar em ação, deixando tudo preparado. Pia batismal, os Santos Óleos, o Livro de Oração Comum, as alfaias etc. A equipe deve estar em sintonia com tudo que está para acontecer, auxiliando o sacerdote nas suas necessidades.


Em algumas paróquias, costumam-se batizar sem o devido preparo. O preparo é necessário para orientar os pais e padrinhos sobre a importância do Batismo e no caso de o catecúmeno ser adulto também. Esse era o procedimento nas comunidades primitivas, e olha que havia todo um ritual. Havia etapas a serem vencidas para que o indivíduo fosse aceito e batizado na comunidade.


As pessoas desde os primórdios se reúnem para celebrar tantas coisas: a festa do sol, a festa da primavera, a festa das tendas, o campeonato brasileiro, a Copa do mundo etc. Por que não fazer deste momento uma grande festa? Por que não despertar na comunidade a necessidade de batizados na Paróquia?


O Batismo, creio eu, é o termômetro para sabermos se a comunidade está crescendo. Se não ocorrem batizados frequentemente, quer dizer que as nossas comunidades estão velhas, paradas no tempo, não estão se renovando e estão caminhando para o caos. Paróquias com muita gente idosa onde não há a participação de jovens e a escola dominical nem existe.


Deveríamos dar mais ênfase ao Sacramento do Batismo em nossas paróquias, fazer o povo de Deus entender que este sacramento é de suma importância para a vida da Igreja.


Em seu livro “Batismo, Celebração da Vida”, Anselm Grün diz: “para os antigos cristãos, o encontro com Jesus era tão fascinante que eles até assumiam os perigos da perseguição só para sentir essa nova qualidade de vida que ele lhes oferecia”.


O que fazer para que o povo possa sentir como os antigos esse fascínio por Jesus? O que podemos fazer para suscitar no povo o mesmo anseio que levava os convertidos ao encontro radical com Jesus a ponto de arriscarem a própria vida por conta do compromisso com o Evangelho?


Nossos sermões ou homilias estão sendo um meio para levarmos o povo ao compromisso? Ou apenas contamos historinhas para rechearmos a nossa pregação sem mexermos com o agir das pessoas e por consequência com o seu compromisso comunitário?


Comunidade comprometida é comunidade que vive o batismo. Precisamos de pessoas engajadas nos movimentos sociais, nas juntas paroquiais, nas escolas dominicais, nas pastorais da comunidade agindo como fermento na massa, fazendo o batismo valer a pena.


Façamos, portanto, um compromisso com Cristo: vamos evangelizar, converter corações para o nosso Deus, despertar o povo para uma vida comunitária, batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e festejar celebrando a vida.

3) Conclusão

Uma reflexão sobre o tema Batismo e uma auto-avaliação faz-se necessário a todos nós, povo de Deus, que se encontra na caminhada rumo ao reino prometido.


O Batismo nos torna Filhos de Deus, juntos fazemos parte do Corpo Místico de Cristo e somos convidados a sermos outro Cristo para aqueles que necessitam do amor de Deus.


Este sacramento nos impele a rompermos com o egoísmo, nos faz mais comunitários, mais participantes das pastorais de nossa paróquia e mais irmãos, rompendo com o individualismo.


Assim como para os antigos o Batismo era um ato radical que os fazia romper com tudo para viver uma vida nova, em nós tambem ele deve nos mover em direção ao Cristo que é o nosso norte e por conseqüência disso aos nossos irmãos.


Devemos em nossas comunidades dedicarmos mais tempo ao anúncio do evangelho, talvez esteja faltando mais catequese e menos historinhas para enchermos os sermões.


Precisamos de mais momentos com o povo, de mais oração, mais espiritualidade, quiçá retiros.


Pensamos em obras sociais, enquanto isso não existe espiritualidade. Fazemos centenas de casamentos e não temos batizados.


Devemos repensar nossa pastoral e nossa vida ministerial.

4) Bibliografia

Campatelli, Maria. O Batismo: cada dia às fontes da vida nova. São Paulo: Edusc.2008
E. de Miranda, Evaristo. Água, sopro e luz. Alquimia do Batismo. São Paulo. Edições Loyola. 1998
Grüm, Anselm. Batismo: Celebração da vida.
Agostinho, Santo. A verdadeira Religião. São Paulo. Paulus. 1987
Catecismo da Igreja Católica. Vozes. Petrópolis. 1993
Takatsu, Dom Sumiu. Pastoral sobre Batismo e Comunhão.
Bíblia de Jerusalém. São Paulo. Edições Paulinas. 1985
Livro de Oração Comum (LOC). Metrópole Indústria Gráfica Ltda. Porto Alegre. 1999
Relatório da Vª Consulta Internacional Anglicana de Liturgia. Dublin, Irlanda. 1995

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Eucaristia e Reino de Deus

Por Ivan Vieira


(EUCARISTIA E REINO DE DEUS)

Somos convidados a apreciar em algumas páginas a dimensão daquilo celebrado outrora pelas comunidades cristãs primitivas, e que se perpetua até nossos dias: Jesus, presente através do pão partilhado e do vinho derramado. De forma simples, mas rica em significados, veremos que esse momento, em que o povo de Deus se reúne em torno do altar, é hora de adoração, de louvor, e, ao mesmo tempo, de compromisso com o Reino de Deus. Comungar é tornar-se um com Ele, é aceitar todas as prerrogativas as quais este ato de entrega nos impele. Estas poucas páginas também querem exortar a nós sacerdotes, ministros e todo povo de Deus a motivarmos as nossas celebrações e fazê-las de forma que realmente sejam a festa do Reino o qual experimentamos já, aqui e agora.



Sumário

1) Introdução
2) Desenvolvimento
2.1) Reino de Deus, Por quê?
2.2) Ceia Judaica e Ceia do Senhor
2.3) Eucaristia e Reino de Deus.
3) Conclusão
4) Bibliografia

Introdução

Celebrar a Eucaristia é celebrar a festa da ressurreição com todos os batizados. É fazer subir nossas orações de ação de graças para coroar e agradecer ao Deus da vida pela vinda do seu Filho amado, pela Boa Nova do Reino e por sua compaixão por nós que buscamos incessantemente e sonhamos com o Reino acontecendo no meio de nós.


Proponho-me aqui abordar de maneira simples e singular um tema muito querido por mim que é a Eucaristia. Não tenho a intenção de fazer nenhum tratado, nem de me alongar com termos técnicos e confusos.


A Eucaristia foi celebrada de maneira simples. Jesus, sentado com seus apóstolos, partilhou da mesma fé que recebera, repetindo a liturgia tal qual a dos seus pais, mas com uma novidade transformadora e renovadora. Tornou transparente aos seus companheiros a dimensão do que estava sendo celebrado naquele momento.


Um sacramento, maior de todos, pois era Ele mesmo que estava se doando por inteiro para a felicidade de muitos. Gesto simples: um pão que se torna sua carne; um cálice de vinho que se torna seu próprio sangue. O cálice é derramado e o Espírito Santo faz o resto.


O gesto de Jesus é repetido nas comunidades primitivas e se perpetua até hoje porque celebramos a festa, celebramos o seu martírio, celebramos a vida que brota no doar-se do Cristo Jesus.


Nestas poucas páginas, pretendo abordar a dimensão da Eucaristia, seu significado, o que ela representa para nós cristãos, e seu sentido escatológico na perspectiva do Reino de Deus.


Abordarei sobre o Reino de Deus, justificando o porquê de sua necessidade, levando em consideração relatos do profeta Isaías e do Novo Testamento. Nessa perspectiva, abordo também, sobre a Ceia Judaica e a Ceia do Senhor, porque ambas celebram a Páscoa, celebram a passagem da morte para a vida.


Quando celebramos o cordeiro imolado, rememoramos o sacrifício de Jesus, nos colocamos diante do mesmo altar, partilhamos o pão e o vinho e agradecemos pela vida que jorrou através de seu sacrifício na cruz, o qual nos convida a sermos outros cristos com Cristo.


É neste pensamento, que transcorro em algumas poucas páginas o tema “Eucaristia e Reino de Deus”, ansiando tornar em nossas comunidades essa dimensão inteligível, para que ela realmente seja absorvida e entendida como realmente quis o nosso Mestre. Ao mesmo tempo, deixo uma sugestão para que nós façamos das nossas liturgias, verdadeiras festas. É lógico que o ato fala por si. Mas é preciso tornar este momento agradável, festivo, renovado para que saiamos das nossas celebrações levando um Jesus que é amor e alegria.


Ele morreu para que fôssemos livres e felizes. A vida venceu a morte, portanto celebremos a festa.


2.1) Reino de Deus, Por quê?

Para entendermos a dimensão do Reino de Deus, necessitamos através da Bíblia, Palavra de Deus, percebermos como esta Palavra anunciada por tantos profetas e homens de Deus anteviu a vinda de um Messias que instalaria a paz e a unidade no meio do seu povo.


O povo de Israel, cansado de tanto sofrimento, labuta e exploração, clama por liberdade, por terra e uma vida mais justa. É neste pano de fundo que uma voz surge no deserto: “Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo, vereda a nosso Deus”. (Isaías 40:3). Isaías anuncia a vinda do Messias libertador, e João Batista chama as pessoas ao arrependimento para “preparar o caminho” em seus corações para a chegada do Rei Jesus. (Lucas 3, 4-6).


Esse gesto cheio de mistério de um Deus amoroso e cheio de compaixão, capaz de se fazer humano com nós, é o início de uma nova era cheia de esperança e de uma história que mudaria para sempre a vida do povo de Deus.


Em Nazaré, um anjo aparece a uma mulher do povo, noiva de um tal José, descendente da tribo de Davi, anunciando que esta fora escolhida para ser a mãe do Salvador. O canto de Maria expressa a alegria, as verdades do Reino e as promessas de Deus que começam a tornar-se realidade: “Manifestou o poder de seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrando da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade para sempre.” (Lucas,1, 51-55).


Jesus durante a sua vida pública prega a Boa nova ao povo de Israel, mas demonstra todo o amor e ternura de Deus para com os que sofrem e padecem as dificuldades de viver sob um sistema opressor e marginalizante.


O Sermão da Montanha é explícito quando Jesus diante daquela multidão sofrida que o seguia diz: “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o reino dos céus! Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Bem aventurados os corações puros, porque verão a Deus! Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus! Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus! Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.” (Mt 5, 1-11).


O mistério da encarnação é entendido através do gesto carinhoso de nosso Deus que se fez homem e através de sua humanidade anunciou e estabeleceu o Reino o qual podemos experimentar no meio de nós, cada vez que celebramos o mistério da paixão, morte e ressurreição. Ele manteve-se fiel ao Pai até a morte e morte de cruz. Quando nos reunimos em torno da mesa, antecipamos o Banquete celestial e somos impelidos a vivenciarmos como outros cristos as verdades do Reino.

2.2) Ceia Judaica e Ceia do Senhor.

A Eucaristia, “Ceia do Senhor”, que nós cristãos celebramos, tem raízes no ritual judaico das refeições de festa. Como era costume entre o povo de Israel, a Ceia judaica celebrava a passagem do povo de Deus do Egito para a Terra Prometida, terra esta que segundo a Bíblia jorra leite e mel, ou seja, a terra da felicidade, da fartura e da liberdade (Ex. 12; Lev. 23, 4-14).


A Ceia Judaica na época do segundo Templo tinha um caráter mais ritualizado. Os levitas cantavam os salmos do Hallel (Sl 113-118). Depois o pai de família levava o cordeiro ao Templo e o sacrificava, enquanto os sacerdotes recolhiam o sangue para aspergir a base do altar. Em seguida o cordeiro era assado em casa e comido, depois do pôr-do-sol, com pão sem fermento e ervas amargas. As pessoas tinham os ris cingidos, sandálias nos pés e um bastão na mão. A refeição servia também para a instrução dos jovens da casa, para recordar a libertação de ontem e da sempre esperada, porque “em cada geração cada um deve considerar que foi ele o libertador do Egito. Não era diretamente messiânico, mas não deixava de dirigir-se para o futuro. Durante a refeição pascal e de outras festas, ou na recepção de um hóspede, o pai de família começava com uma bênção sobre o pão, antes de parti-lo e dar a cada um. Depois, no fim da refeição, era pronunciada outra bênção, esta sobre o vinho, enquanto cada conviva mantinha sua taça diante de si. O pai dizia uma primeira bênção, de maneira bastante livre, por exemplo: ”Bendito seja Deus, o Rei do mundo, que tirou o pão da terra”. Ou, antes da taça: “que criou o fruto da vinha”. Porque tudo pertence a Deus.


A ceia do Senhor, sua instituição, encontra-se em Mateus 26, 26-28, Marcos 14, 22-24, Lucas 22, 19-20 e 1Coríntios 11, 23-26. Era um costume habitual na Igreja primitiva como nos relata os At 20, 7-11: “No primeiro dia da semana, estando reunidos para partir o pão, Paulo, que havia de viajar no dia seguinte, conversava com os discípulos e prolongou a palestra até a meia-noite. Havia muitas lâmpadas no quarto, onde nos achávamos reunidos. Acontece que um moço, chamado Éutico, que estava sentado numa janela, foi tomado de profundo sono, enquanto Paulo ia prolongando seu discurso. Vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo, e foi levantado morto. Paulo desceu, debruçou-se sobre ele, tomou-os nos braços e disse: “Não vos perturbeis, porque a sua alma está nele”. Então subiu, partiu o pão, comeu e falou-lhes largamente até ao romper do dia. Depois partiu”.


Da Santa Ceia do Senhor só participavam os batizados e consistia das seguintes cerimônias: o partir do pão e derramar do vinho. Distribuição dos elementos pelos discípulos e o ato de comer e beber. Era celebrada pelos apóstolos como uma ordem que deveria ser obedecida, desta forma se mantiveram fiéis à Doutrina dos apóstolos e na Comunhão, no partir do pão e nas orações (At. 2, 42).


“O sacramento era celebrado em casa no primeiro dia da semana, aos domingos pela manhã bem cedo, de modo que pudessem todos depois ir cada um ao seu trabalho, sendo, pelo menos dessa feita, precedido o cerimonial por devota vigília, oração e homilia”’. (Liturgia Anglicana, Adão Pereira, Sidney A. Ruiz)


Os judeus tinham o costume de agradecer a Deus pelo alimento recebido, pois o consideravam sagrado e dom de Deus ao homem. Sempre às refeições davam um aspecto religioso, rendendo graças pela misericórdia divina. Os apóstolos enriqueceram o rito que Jesus instituíra com novas e ricas significações.


Existe hoje entre alguns teólogos a idéia de que a cronologia narrada pelo Quarto Evangelho seja correta quando mostra que a Ceia do Senhor não se realizou por ocasião das festividades da páscoa judaica, mas que se tratava de uma refeição sagrada de caráter íntimo que Jesus realizava comumente com seus discípulos. Esta foi uma preparação para essa grande festa.


Segundo esses teólogos a “Ceia do Senhor” havia sido celebrada muitas vezes entre Jesus e seus seguidores. Isso fica explícito quando lemos o capítulo 24, 13-35 do Evangelho de Lucas quando narra a passagem dos discípulos de Emaús.


Dois discípulos caminhavam pela aldeia de Emaús conversavam sobre tudo que tinha acontecido com o Mestre. Enquanto conversavam, Jesus aproximou-se deles e caminhou com eles sem que eles o reconhecessem. Levaram-no para casa e deram-lhe abrigo e alimento. Reconheceram Jesus com o gesto de repartir o pão e dar graças a Deus, e estes não estiveram presentes na Última Ceia.


Deve-se a Paulo a relação imediata entre a Última Ceia e a paixão de Jesus. O apóstolo conseguiu transfigurar a própria dor da paixão na glória da ressurreição, identificando a velha páscoa com o novo rito, quando diz: “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós; portanto façamos a festa” (1Cor. 5,7).


“A Ceia Pascal é uma figura da vida, morte e ressurreição de Cristo, e tem aí sua plena realização: o cordeiro pascal é substituído pelo Cordeiro de Deus. Em vez da libertação do jugo egípcio, temos a libertação do jugo do pecado; o caminho para a terra prometida é o caminho para o céu; a presença de Javé no meio do seu povo é a presença eucarística. Paulo dirá em 1 Cor 5,7: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado por nós”. (Bíblia Sagrada ave Maria, Ed. Ave Maria).

2.3) Eucaristia e Reino de Deus

Jesus, na Última Ceia, celebrou com seus apóstolos em gestos, palavras e símbolos, a consumação daquilo que ele iria realizar no dia seguinte: ele se entregaria totalmente na cruz, dando-nos seu corpo e sangue: “Comei: isto é o meu corpo que será entregue na cruz! Bebei: isto é o meu sangue que será derramado por vossa causa!” (Lc 22, 16-19). Esta Ceia sagrada, onde ele celebrava com os seus, a sua própria morte e ressurreição, antecipava misteriosamente a ceia das núpcias do cordeiro.


É o momento crucial em que Jesus se depara diante do que estava por vir e que era necessário que o Filho do Homem se mantivesse fiel até o fim para que fosse cumprido o que estava escrito nas Escrituras: “Ele manteve-se fiel até a morte e morte de cruz”.


Jesus, ao longo de sua vida, construiu com seus apóstolos um estilo de vida diferente, que rompia com todo e qualquer resquício do fermento que atingia os detentores do poder e a soberania. Seu estilo de vida invoca seus seguidores a amar até as últimas conseqüências, a ponto de dar a própria vida pelo próximo. Mesmo que para assumir o Evangelho radicalmente levasse mais algum tempo a ser assimilado pelos discípulos, Jesus foi incessante em continuar a divulgar a Boa Nova do Evangelho, preparando os mesmos para a longa jornada do povo de Deus rumo ao Reino prometido pelo Mestre, onde seriam bem-aventurados os pobres, os sofredores, os perseguidos, os desvalidos, todos aqueles que têm fome da verdade e da justiça.


O Mestre foi preparando, aos poucos, os seus discípulos, para que tivessem a mesma coragem de dar a própria vida. Mais tarde, sabemos que muitos dos apóstolos foram martirizados por causa do Evangelho. Porque tiveram coragem de assumir e deixar a Palavra penetrar no coração, de transformar suas vidas e de levá-los para a missão. Tiveram coragem de comer a carne e beber o sangue do Mestre: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,53).


Aqui, ele não estava tratando de alimento no sentido metafórico, mas era a sua carne, em verdade, uma comida e o seu sangue, em verdade, uma bebida, como nos relata o evangelista João no capítulo 6. Ou seja, em gestos, em palavras, Jesus queria, que além de antecipar as núpcias, também saboreássemos, na força do Espírito Santo, a Ceia do Banquete celeste. É uma ceia que começa na terra e durará no céu, por toda a eternidade.


Portanto, é um mistério imensurável e santo, cada vez que participamos do Pão e do Vinho, eucarísticos entramos em comunhão de vida com Aquele que é Morto e Ressuscitado, com o Cordeiro eternamente imolado por nós. “Cada participação na Eucaristia é uma transfusão de vida eterna que recebemos, até que a consumemos na glória!” (Zizioulas, Ioannis – Eucaristia e Reino de Deus. Ed. Mundo e Missão.)


A missa, ou o culto eucarístico é, ao mesmo tempo, o memorial sacrifical no qual se perpetua o sacrifício da cruz, e o banquete sagrado da comunhão no corpo e no sangue do Senhor. A celebração está toda voltada para união íntima dos fiéis com Cristo, pois neste momento recorda-se a paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo que deu sua própria vida para nos salvar e instalar o seu Reino no meio de nós.


Cada vez que comungamos, nos comprometemos com o projeto de Jesus, nos tornamos um com ele e dizemos que queremos continuar a propagar o Reino de Deus entre nós. “Faze com que nos aproximemos desta mesa para o serviço e não apenas para a satisfação pessoal ”(Oração eucarística A do LOC). Na Ceia Eucarística acontece a comunhão entre nós e Cristo e, a comunhão entre nós, no único Espírito Santo de Cristo ressuscitado.


Santo Agostinho de Hipona afirma: “Se sois o corpo e os membros de Cristo, é o vosso sacramento que é colocado sobre a mesa do Senhor; recebeis o vosso sacramento. Respondeis: “Amém” aquilo que recebeis, e confirmais ao responder. Ouvis esta palavra: “O corpo de Cristo”, e respondeis “Amém”. Sede, pois um membro de Cristo, na caridade com os irmãos mais carentes e sofredores, sobretudo com os pobres”.


São João Crisóstomo ensinava assim: “Degustaste o Sangue do Senhor e não reconheces para que o vosso Amém seja verdadeiro”. Sequer o teu irmão. Desonras esta própria Mesa, não julgando digno de compartilhar do teu alimento aquele que foi julgado digno de participar desta Mesa. Deus te libertou de todos os teus pecados e te convidou para esta mesa. E tu, nem mesmo assim, te tornaste mais misericordioso”.


Os Evangelhos são unânimes em mostrar que a última ceia nos remete para o Reino de Deus. Os apóstolos participaram do banquete como prefiguração do novo Israel: “E eu preparo para vós um Reino, como o Pai o preparou para mim, para que possas beber à minha mesa no meu Reino, e vos sentareis no trono para julgar as doze tribos de Israel” (Lc 22, 29-30).


A última ceia foi um evento escatológico, unido indissoluvelmente ao Reino de Deus. É por esta razão que, durante a ceia, Jesus se refere expressamente e com uma particular intensidade emotiva ao Reino: “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco, antes da minha paixão, pois eu vos digo: não a comerei mais, até que ela se cumpra no Reino de Deus. Pois eu vos digo: a partir de agora, na beberei mais do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus”. (Lc 22, 15 - 16,18ss).


“O mistério da Eucaristia existe porque o Deus Trindade, movido por uma ternura inefável e totalmente gratuita, quer nos encontrar para nos unir a si pelo amor”. Podemos dizer que, em outros termos, “a Eucaristia existe para a celebração e realização do grandioso projeto de Deus: transformar a humanidade para fazê-la entrar desde já no mundo da ressurreição, da qual os sinais eucarísticos são prefiguração”. (Brouard, Maurice – Enciclopédia da Eucaristia).


Quando celebramos a Eucaristia, celebramos o memorial da Páscoa que é vista como a festa da reunificação da humanidade, cuja unidade, rompida no começo de sua história, é restaurada sem cessar pelo amor de Deus, difundido em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado (Rm 5,5).


Graças ao banquete eucarístico, Deus e a humanidade não poderão mais ser separados: “Aquele que come minha carne permanece em mim e eu nele” (Jo 6,56). O banquete celeste só fará consumar essa união.


A comunhão mística da Igreja com Cristo suscita também a comunhão em Cristo porque une as pessoas que estão com Ele num elo de intimidade em Cristo porque comem e bem o mesmo alimento, seu corpo e seu sangue. A esse respeito o teólogo Carlos Eduardo Calvani diz que: “se nossa eucaristia não suscita a certeza da comunhão com Cristo e não nos insere numa prática efetiva de comunhão em Cristo, é sinal de que ainda não interiorizamos suficientemente seu mistério. Se participamos domicalmente da Eucaristia, mas nossa vida não muda e a vida da comunidade também não, cabe perguntar se o que celebramos é, de fato, a Ceia do Senhor ou uma deturpação fast-food” (Calvani, Carlos Eduardo – Eucaristia e Eclesiologia – Revista Inclusividade nº14).


O “Documento Bem” organizado pelo comitê Fé e Constituição diz que: “A Igreja recebe a eucaristia como um presente do Senhor!” Segundo Ramacés Hartwig, este presente é a continuação de todo o “trabalho de Deus na criação”(Gn 1 e 2) que culmina com a encarnação do Filho de Deus, Jesus Cristo, Senhor da Igreja e autor da nossa salvação. Por isso a Eucaristia recebe muitos nomes, por exemplo: Ceia do Senhor, Última Ceia, partilha do pão, Eucaristia, (Santa) Comunhão, (Divina) Liturgia, (Santa) Missa etc. Ele diz ainda que: “Esta celebração é o ato central da adoração da Igreja” (Revista Inclusividade, nº 9).


Portanto, sendo a Eucaristia “presente de Deus” ela oferece “livre acesso ao Verdadeiro Presente” (Jesus Cristo) cujo memorial (anamnesis) implica na Presença Real do Senhor através dos elementos (pão e vinho) sob a invocação (epiclesis) do Espírito Santo.


Quando a Igreja celebra o “banquete de Deus” antecipa os sinais do seu Reino. Traz para o momento presente a realidade que transforma os cristãos em imagem de Cristo tornando-os suas testemunhas. Por isso ao fim da Celebração eucarística a Igreja é enviada “em paz para testemunhar o Evangelho e a servir com alegria e no poder do Espírito Santo”.


São intimados a testemunharem e a irem como missionários a transformar ambientes e transformar “os reinos deste mundo no Reino do Senhor Jesus Cristo”. “Ide, pois, sede corajosos e fortes na proclamação do Evangelho, no poder do Espírito Santo” (Oração Eucarística A, pág. 83 do Livro de oração Comum). O universo eucarístico se apresenta aberto para o Reino, o Reino onde finalmente a Eucaristia se completa.

Conclusão

As nossas comunidades reunidas em torno do altar para celebrar o memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus precisam despertar para o sentido amplo do compromisso que este sacramento exige, pois quando celebramos, nos tornamos um com Ele e entendemos qual a nossa missão: ser sal da terra.


Se o Sacrifício não impele as nossas comunidades a ser sal da terra, não nos impele a acolher a Palavra e a torná-la viva entre nós, é sinal de que precisamos rever o modo como estamos celebrando a festa, pois a celebração deve atrair todos a Jesus em torno da mesma mesa.


Precisamos de liturgias vivas, festivas, animadas, que exaltem, sobretudo, o significado daquilo que celebramos no altar. Precisamos animar o povo de Deus e despertá-los para que nossas celebrações se tornem momento prazeroso e que alimentados com a Palavra viva e o pão descido do céu, saiamos melhores do que quando entramos. Dispostos, de verdade, a vivermos o que ouvimos e vimos.


A Eucaristia e o Cordeiro imolado para a nossa salvação não podem ser entendidos sem referência ao “último dia”, ao “dia do Senhor”, à parusia e à instauração do Reino de Deus. Com as palavras de Cirilo de Alexandria, “a Eucaristia não é somente e simplesmente “celebração de um tremendo sacrifício”, mas “dom de imortalidade e penhor de vida eterna”.

Bibliografia

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus. 5ª impressão, 2008.
Bíblia Ave Maria, 129ª. São Paulo: Editora Ave Maria
BROUARD, Maurice – Eucharistia: enciclopédia da eucaristia. São Paulo: Paulus, 2006.
CALVANI, Carlos Eduardo – Eucaristia e Eclesiologia in Revista Teológica do Centro de Estudos Anglicanos – (Inclusividade), Nº 14. Porto Alegre: CEA, 2007.
GONÇALVES, Humberto Maiztegui – Origens e bases bíblicas da Eucaristia in Revista Teológica do Centro de Estudos Anglicanos – (Inclusividade), Nº 14. Porto Alegre: CEA, 2007.
HARTWIG, Ramacés – Eucaristia: Mistério de Deus in Revista Teológica do Centro de Estudos Anglicanos – (Inclusividade), Nº 9. Porto Alegre: CEA, 2004.
IEAB – Livro de Oração Comum - (LOC), p 68,80,85-91. Porto Alegre: Editora Gráfica Metrópole S.A,1988.
PEREIRA, ADÃO - Liturgia Anglicana, Um breve comentário ao Livro de Oração Comum. 2ª edição.
VV.AA - Eucaristia na Bíblia in Cadernos Bíblicos. São Paulo: Paulus: 1985.
VV.AA - Evangelho e Reino de Deus in Cadernos Bíblicos. São Paulo: Paulus, 1985.
ZIZOULAS, Ioannis – Eucaristia e Reino de Deus. Florianópolis: Mundo e Missão, 1994

SACRAMENTO: O AMOR MANISFESTO DE DEUS

POR ITABIRA JONAS



SUMÁRIO

Resumo 4


Sinais e Símbolos 5


Espiritualidade cristã celta: Tudo é Sacramento 8


Bibliografia 11

RESUMO

Este trabalho é uma reflexão sobre a plenitude do amor de Deus para com a humanidade manifestado na criação e prática espiritual dos cristãos Celtas.


Desde o principio Deus tem demonstrado fidelidade para com o seu povo e, na plenitude dos tempos a confirmou e manifestou com a encarnação do Verbo.


Diz a Bíblia: “Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3: 16). Jesus é, portanto, a mais completa manifestação do amor de Deus. Nele está contida toda essência de Deus. Ele é sinal concreto e visível do Deus invisível. Cristo, encarnado no seio de Maria é imagem real do transcendente, que vive e se revela na criação. O prefácio da Oração Eucarística Rito II, do Livro de Oração Comum, reza:


“Damos-te graças, ó bendito Deus, que nos mostrastes bondade e amor na Criação, na chamada de Israel para ser teu povo, na Palavra que disseste por meio dos profetas, e, acima de tudo no Verbo feito carne, teu Filho, Jesus. (LOC. p 76)


Cristo é o canal de graça e por ele o cristão alcança Deus e com Ele faz comunhão. No exercício do seu ministério Jesus realiza a graça de Deus, contida nos sacramentos.


A Igreja Anglicana é sacramental, ela proclama a fé nos sacramentos instituídos por Cristo e celebra a obra que deles emana. A Igreja como sacramento de Cristo é comunidade dos cristãos e depositária da Boa Nova.


Ao proclamar o Evangelho, a Igreja revela o amor de Deus pela humanidade.

I - SINAIS E SÍMBOLOS

O homem é ser em comunicação. Ele está em constante comunicação consigo mesmo para se construir, em comunicação com os outros para se relacionar e trocar conhecimento, e com Deus para reverenciá-lo e adorá-lo. A comunicação é vital para os seres humanos e a criação comunica a obra de Deus.

Há um clichê tão velho quanto o primeiro aprendiz de sociólogo: o homem é um animal social. Entre outras coisas, isso significa reconhecimento implícito de sua necessidade de comunicação, que é o meio como ele transmite suas mensagens. (TÈCNICA DE JORNAL E PERIODICO, P. 11)

Ciente da necessidade de relacionar-se o homem buscou comunicar-se, aprendendo a ler os sinais e criando símbolos que expressassem idéias e sentimentos para manifestar necessidades físicas, intelectuais e emocionais.


Quanto aos sinais e símbolos como instrumentos de comunicação, há de se levar em consideração a distinção que existe entre eles. Os símbolos são sinais produzidos pelo homem para facilitar a comunicação e conseqüentemente a vida.

É impreciso o momento em que o ser humano começou a criar mecanismos de comunicação e utilizar uma simbologia carregada de significação para interagir com seus semelhantes. É possível que o homem pré-histórico tenha iniciado o processo de comunicação dando respostas instintivas a partir de ruídos vocais (imitando sons da natureza) e movimentos corpóreos, que serviam de emissão de mensagens simples (exteriorizando frio, medo, fome ou alegria. (AS TEORIAS DA COMUNICAÇÃO, P. 16)

Quanto à simbologia da comunicação, tomemos como exemplos, os sinais de trânsito, as letras do alfabeto, as notas musicais, os cumprimentos, as bandeiras, os escudos e todos os símbolos que apontam para uma comunicação convencional.


Todo símbolo é carregado de significado. Os símbolos representativos, produzidos pelo homem, são mensagens criadas a partir de convenções, para suprir uma necessidade de comunicação.


Ademais dos símbolos criados pelo homem, existem sinais naturais, são indicadores da natureza que nos comunicam mensagens, que favorecem a compreensão da vida, num determinado momento. Por exemplo: uma nuvem negra e carregada é sinal iminente de chuva; fumaça, sinal de fogo; marcas de pés, sinal da presença de alguém.


Se o homem carece de sinais e símbolos para se comunicar uma realidade imanente, muito mais necessitará para comunicar uma experiência transcendente. Portanto, os sinais e os símbolos são fundamentais para a facilitação e favorecimento comunicativo da vida como obra perfeita e suficiente de Deus. Através dos símbolos e dos sinais, Deus se comunica com seu povo e este com o seu criador.


Ao se comunicar através dos sacramentos Deus se revela ao seu povo, se faz íntimo e se torna como um de nós. (Jo 1: 1-14). Envolta no mistério, na encarnação do verbo está a revelação do amor de Deus pela humanidade.

Toda vez que uma realidade do mundo, sem deixar o mundo, evoca uma outra realidade diferente dela, ela assume uma função sacramental. Deixa de ser coisa para ser sinal ou um símbolo. Todo sinal é sinal de alguma coisa ou de algum valor para alguém. Como coisa pode ser absolutamente irrelevante. Como sinal pode ganhar valorização inestimável e preciosa. (...) (OS SACRAMENTOS DA VIDA E A VIDA DOS SACRAMENTOS P. 23)

Os sacramentos são como “fotografias”, uma vez que revelam através da imagem uma realidade interior e maior do que aquela refletida. Nesse sentido a matéria estática elucida uma vida eternizada pela impressão, é marca. Nos sacramentos os sinais e símbolos, por sua vez imprimem através de gestos, matéria e intenção a interioridade da vida graciosa que está em Deus.


Nessa dimensão, segundo Leonardo Boff, tudo é sacramento, porque tudo comunica, interage e revela o homem “fotograficamente”. Tudo é corpo e alma. Toda matéria transcende a si mesma, revelando sua vocação para o alto.

Tudo revela o homem, suas experiências bem ou mal sucedidas, enfim, o encontro dele com a multiplicidade das manifestações do mundo. Nesse encontro o homem não aborda o mundo de forma neutra. Ele julga. Descobre valores, interpreta. Abre ou se fecha às evocações que lhe advém. O convívio com o mundo faz com que ele crie sua morada. (OS SACRAMENTOS DA VIDA E A VIDA DOS SACRAMENTOS P. 23)

Como refletido até aqui, se os sinais e símbolos são necessários para a comunicação entre os homens, e destes com o mundo, uma vez que o homem é um animal social, interdependente, muito mais eles serão na comunicação com o transcendente, com Deus. Os sinais e os símbolos são fundamentais porque facilitam a comunicação da vida que está em Deus e a graça que ele quer dar.

Mesmo supondo que o mundo seja feito de alguma matéria informe, essa matéria foi tirada totalmente do nada. Pois, mesmo o que ainda não está formado: sem dúvida alguma, de algum modo já tem iniciada a sua formação. Ser susceptível de forma (capacitas formae) é benefício do seu Autor, e possuí-la é bem. A simples capacidade de forma é pois, certo bem. Por conseguinte, o autor de todas as formas – que é doador de toda forma – também o fundamento da possibilidade de algo a ser formado. E assim, tudo o que é, enquanto é, tudo o que não é, enquanto pode vir a ser, tem de Deus, sua forma ou possibilidade a ser formado.


Dito de outro modo: Todo ser formado, enquanto formado, e todo o que ainda não está formado, enquanto formável, encontra em Deus seu fundamento. (A VERDADEIRA RELIGIÃO P. 68)

A criação é em seu todo sinal da vida que está em Deus. Como na representação de um quadro que está implícita a vida do artista que o criou: ver o quadro é ver o artista. A obra da criação revela a vida que está em Deus e é refletida na vida dos homens. Portanto, toda a criação foi, é e será sacramental.

II - ESPIRITUALIDADE CRISTÃ CELTA: TUDO É SACRAMENTO

Tudo o que sabemos a respeito de Deus, nos foi revelado pela Encarnação do Verbo. A face plena de Deus está em Jesus, como sacramento, sinal real e íntegro daquilo que Deus é. Jesus não é em parte Deus, nem em parte homem. Jesus é plenamente homem e plenamente Deus. Jesus é protótipo de toda a criação e explicitamente do homem. É por ele que Deus tudo criou, assim como aos seres humanos. Jesus estava presente no momento da concepção da “raça humana”, conforme atestam as sagradas escrituras: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. (GN 1: 26a)


O texto do livro do Gênesis escrito em primeira pessoa do plural (façamos) é revelador da natureza de Deus. É dessa natureza vocacional e final que o homem é criado. Deus é em si por si mesmo uma comunidade perfeita de onde emana a Trindade Santa: o Deus criador, o Deus redentor e o Deus santificador.


Na plenitude da criação e da humanidade está Jesus Cristo que soube acolher, enquanto homem, a dignidade plena de Filho de Deus. Nele a imagem de Deus é fiel e translúcida. Todo bem que nasce do exercício da adoração e do louvor, em Cristo ele se realiza. A igreja Anglicana que têm raízes na experiência espiritual celta entende e vive a espiritualidade cristã inclusiva a partir da adoração e louvor a Deus presente na natureza:


O cristianismo conhecido como “celta” floresceu na Irlanda, na Escócia, no País de Gales e mesmo em partes da Inglaterra, grosso modo, do quarto ao décimo séculos. São conhecidos os nomes de missionários celtas como Patrício, Columba e Columbano, que evangelizaram o norte das Ilhas Britânicas e vastas partes do continente europeu. Mas o cristianismo celta floresceu, humanamente falando, não apenas devido ao trabalho dos missionários mais conhecidos, mas também devido ao esforço de incontáveis anônimos, pessoas sinceras em sua fé, que viviam o cristianismo com “alegria e singeleza de coração”. Foi um cristianismo que desenvolveu características próprias, que o tornavam distinto do cristianismo de inspiração romana que florescia na Europa continental no mesmo período. O cristianismo celta tinha muitas características notáveis. Entre tantas, destaca-se aqui apenas a que interessa diretamente aos propósitos desta breve reflexão: um modelo de espiritualidade centrado na criação.


Os celtas desenvolveram uma teologia que enfatizava uma visão de Deus como Senhor da criação. Ainda que não haja nada de original nesta perspectiva — os cristãos celtas não foram os inventores desta teologia —, não se pode deixar de mencionar que há diversas implicações práticas dessa visão. Uma dessas conseqüências é exatamente ter uma atitude constante de júbilo e regozijo na criação, que revela Deus. Como os celtas eram um povo com forte inclinação à poesia, produziram muitas poesias comoventes, louvando a Deus pela obra da criação. Um poema datado do século nono, escrito na antiga língua do País de Gales, tem início com as seguintes palavras:

Todo Poderoso Criador, que fizeste todas as coisas;
O mundo não pode expressar toda a tua glória,
Ainda que a grama e as árvores possam cantar.

Outro poema escrito no século oitavo, na antiga língua irlandesa, declara:
Somente um tolo não seria capaz de louvar a Deus pelo seu poder,
Quando as pequeninas aves incapazes de pensar
O louvam com seu vôo.

Estes versos expressam o lugar de destaque que a natureza ocupava na maneira como os cristãos celtas antigos viam a vida e pensavam sua relação com Deus. A visão da criação como reveladora de Deus está profundamente enraizada na Bíblia. Os fragmentos poéticos citados revelam influência de textos bíblicos como Salmos 98.7-8 ou Isaías 55.12. De fato, muito da poesia e das orações daqueles cristãos denotam influência da visão bíblica a respeito da natureza. Textos como o de Salmos eram particularmente queridos pelos cristãos celtas. Para eles, o mundo criado é uma teofania, isto é, uma manifestação de Deus. (Fonte: http://elteque.multiply.com/journal/item/13)


Em Jesus, Deus revela sua imagem e semelhança. Através de Jesus temos todo o conhecimento e desejo de Deus. Desejamos a Deus a quem não vemos e o glorificamos e adoramos em sua obra.


Jesus é a obra prima de Deus e o ponto de convergência entre o humano-criação e o divino-criador. Nele habita a criatura que trabalha e busca Deus, fonte da vida e o Criador que busca o homem para redimi-lo.


Jesus é sacramento de Deus, porque ele realiza todo o projeto metafísico do Pai. Jesus, sacramento de Deus, proclama a dimensão ética do homem. Em Jesus Cristo, Deus manifesta seu amor.

BIBLIOGRAFIA

Agostinho, Santo. A Verdadeira Religião. São Paulo: Paulinas: 1987
Amaral, Luiz. Técnica de Jornal e Periódico. Rio de Janeiro. Tempo Brasileiro: 2001
Bíblia Sagrada
Boff, Leonardo. Os Sacramentos da Vida e a Vida dos Sacramentos. Editora Vozes: 2009
LOC. Livro de Oração Comum
Santos, Roberto Elísio dos. As Teorias da Comunicação. São Paulo. Paulinas: 2003

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Um modelo dialógico de educação teológica

por Rev. Dr. Pedro Triana
Sem deixar de lado a importância da ortodoxia sobre a ortopraxia, em minha opinião, a Teologia da Libertação está certa ao postular a primazia da última sobre a primeira: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21-23).
Foi na prática do seguimento de Jesus que os primeiros cristãos o conheceram e acreditaram nele. E quando eles pensaram nos títulos de Jesus como Salvador, Mediador, Messias, Cordeiro de Deus, Cristo e Filho de Deus, realmente estavam tentando colocar na linguagem dos símbolos a decisão de segui-lo e de continuar sua vida de amor para com todas as pessoas. Seguimento que implicava estar comprometido ativamente com a vida e as lutas deste mundo, preocupar-se especialmente com as pessoas que estão sofrendo por causa da injustiça e a opressão, na esperança de que, apesar de fracasso e morte, este mundo pode mudar para melhor[1]. E aqui certamente nos encontramos no campo do serviço e da missão.
No entanto, hoje, na visão da teologia do pluralismo religioso, a missão só tem sentido em uma perspectiva pluralista e dialogal. Mas o correto não seria tentar incluir o diálogo na missão, mas entender a missão como diálogo. Ou seja, a melhor forma como a igreja e os seguidores de Jesus podem servir ao Reino de Deus, no mundo atual, religiosamente plural e globalmente ameaçado, é por meio do diálogo, porque do contrário, a natureza e o propósito da missão estão perdidos e tornam-se irrelevantes. Contudo, definir a missão como diálogo não significa reduzir essa missão a alguma atividade específica, mas antes ampliar essa missão além das atitudes e práticas tradicionais e equilibrar melhor os vários aspetos da missão[2].
Então, o anteriormente dito implica ter uma visão missionária dialogal e abrangente, onde a proclamação e a prática da boa notícia do Reino de Deus devem permear todas as atividades: o dia-a-dia, a luta pela justiça, a liturgia, a espiritualidade, e a teologia.
Agora, é oportuno lembrar, que ao afirmar-se como um novo paradigma, a teologia do pluralismo religioso tem serias e profundas implicâncias para o trabalho teológico em geral, e também para educação e formação teológica em particular. Por isso, afirma Knitter, que se a teologia, como parte dessa missão dialogal se entende como diálogo plural, a forma como fazemos teologia deve ser diferente e mais exigente do que é atualmente na maioria das universidades, faculdades e seminários de teologia, postulando o que ele chama: “modelo dialógico de educação teológica”[3].
E pela relevância e pertinência de suas colocações para todos os envolvidos na tarefa da educação teológica em universidades, faculdades e seminários, passo a comentar o que significa caminhar para um “modelo dialógico de educação teológica”
Segundo Knitter, no presente mundo global e religiosamente plural, para que a teologia cristã faça sua tarefa de forma competente e relevante não pode ser só cristã. E uma das causas pelas quais a educação teológica não está fazendo o seu trabalho de mediar adequadamente entre a cultura e a religião tem a ver com o que ele chama caráter “monorreligioso” da maior parte da teologia cristã de hoje. Por isso, manter a tradição cristã como fonte ou norma única para a teologia é desrespeitar o que Deus revelou em outros lugares e culturas.
Então, a seguir passo a enumerar algumas das sugestões práticas para um “modelo dialógico de educação teológica”. Porém, faço a ressalva que não vou apenas enumerar, mas também acrescentar algumas sugestões, comentários, desafios e provocações particulares.
Em primeiro lugar, comenta Knitter, a reestruturação da educação teológica implica mais do que mexer ou mudar o currículo. As religiões devem ser ensinadas segundo um currículo educacional teológico de uma maneira conversacional em vez de puramente informativas, e com uma tentativa de mediar entre as religiões e a cultura contemporânea.
Em segundo lugar, os estudantes de teologia precisam de oportunidades para aprender sobre tradições que lhes são em sua maioria completamente estranhas, e para isso os professores terão que combinar tanto conhecimento como envolvimento pessoal e possibilitar assim que os alunos apreciem outros modos de ser religioso no mundo e sejam desafiados por ele.
Em terceiro lugar, se bem um curso introdutório de religiões comparadas é importante, porém não e suficiente. Segundo Knitter, precisa-se de cursos obrigatórios sobre o Islã, religiões asiáticas, espiritualidades indígenas (e eu acrescentaria de religiões afro latino-americanas). Esses cursos deveriam ter uma abordagem desinteressada e sem julgamentos cristãos, porque cursos com julgamentos cristãos geralmente pré-determina a considerar outras religiões como inferiores, ou como preparação para Cristo e o cristianismo. Um modelo plurirreligioso de educação teológica deve possibilitar a conversa e não um monólogo.
Em quarto lugar, e aqui Knitter é realmente desafiante, não podemos estudar e chegar a conhecer outras religiões, se tudo o que fazemos é “ler” sobre elas e emitir juízos de maneira puramente acadêmica. As religiões devem ser estudadas como realidades vividas, não apenas como ensinamentos estimados. Os cursos teológicos sobre outras religiões devem proporcionar aos estudantes oportunidades reais de perceber e experimentar a verdade de outros caminhos. Assim, por um lado, os estudantes poderiam ser incentivados, de forma provisória e sempre em um sentido limitado, a serem hindus, ou budistas, ou muçulmanos; e no caso de nosso contexto latino-americano, eu comento e acrescento, poderiam ser incentivados a serem membros de cultos afro latino-americanos, por que não?. Por outro lado, os estudantes poderiam também ser estimulados a conversar ou entrevistar, com um enfoque existencial, seguidores de outro caminho de ser religioso. E aqui estamos em sintonia com essa frase, famosa e desafiante, desse pioneiro da teologia do pluralismo religioso, Raimundo Paninkkar[4]: “Marchei cristão, me descobri a mi mesmo hindu e volto budista sem deixar de ser cristão”.
Em quinto lugar, afirma Knitter, uma simples adição curricular de cursos de qualidade e teologicamente orientados sobre outras tradições religiosas não alcançará a meta da reestruturação multirreligiosa da educação teológica. Precisa-se também, que os professores ao dar um curso padrão sobre o mal ou sobre a redenção ou sobre a igreja ou sobre a questão de Deus, injetem nas discussões aquilo que outras perspectivas religiosas afirmam sobre esses assuntos, as eventuais diferenças radicais que têm em comparação com a tradição cristã e as provocações que suscitam para que a tradição cristã continue a reflexão.
Finalmente, aponta Knitter, é preciso realizar mudanças na composição de uma faculdade teológica. Conseqüentemente, para conseguir superar a mentalidade monorreligiosa, nenhum seminário o faculdade universitária deveria ser considerada completa em si ou devidamente equilibrada, ao menos que incluísse um ou mais professores formados especificamente em alguma tradição não cristã.



[1] Paul F. Knitter, Jesus e os Outros Nomes. Missão cristã e responsabilidade global, Nhanduti Editora, São Bernardo do Campo/SP, 2010, p.122.
[2] Veja agora, ibidem. pp.175-180.
[3] Veja Paul F. Knitter, Jesus e os Outros Nomes. Missão cristã e responsabilidade global, Nhanduti Editora, São Bernardo do Campo/SP, 2010, PP.169-198.
[4] Raimundo Panikkar, (1918-2010), é um dos pioneiros da teologia do pluralismo religioso. Sacerdote católico, nasceu em Barcelona, Espanha; doutor em Filosofia (Madrid 1946), em Química (Madrid 1958) e em Teologia (Roma 1961). Foi ordenado sacerdote em 1946. Ensinou nas principais universidades de América, Europa e a Índia. Em 1954 foi para a Índia onde foi investigador nas universidades de Mysore e Varanasi. Seus estudos abrangem a cultura da Índia e a historia e filosofia das religiões. Seus livros e artigos compreendem temáticas como filosofia das ciências, a metafísica, religiões comparadas, indologia, e teologia. Morreu recentemente. Para mas informações sobre sua vida e pensamento veja José Luis Rueda, “Panikkaar: Um pioneiro da teologia do pluralismo religioso”, em: Teologica Xaveriana – Vol.58. No.165 (183-200) Enero-Junio de 2008, Bogotá, Colombia. ISSN 0120-3649.